ESPIRITUALIDADE

Mais de 600 pessoas celebram 100 anos da presença franciscana no Rio Grande do Sul

Encontro em Imigrante reuniu religiosos e leigos e renovou compromissos com a paz, a justiça social e o meio ambiente

Encontro reuniu representantes de diferentes presenças franciscanas no RS
Encontro reuniu representantes de diferentes presenças franciscanas no RS | Crédito: Corbari

Mais de 600 pessoas de diferentes regiões do Rio Grande do Sul participaram, no sábado (31), em Imigrante, no Vale do Taquari, de um encontro em celebração aos 100 anos da presença da Ordem dos Frades Menores (OFM) no estado. Realizada no Convento São Boaventura, no distrito de Daltro Filho, a atividade reuniu religiosos, religiosas, representantes de comunidades e lideranças leigas para recordar a trajetória da ordem franciscana e renovar o compromisso com o legado de São Francisco de Assis.

A celebração reuniu três marcos históricos: os 800 anos da morte de São Francisco, o centenário da chegada dos frades holandeses ao Rio Grande do Sul e os 50 anos de criação da Província São Francisco de Assis. Mais do que recordar datas, o encontro buscou refletir sobre a atualidade do carisma franciscano e sua contribuição diante dos desafios sociais e ambientais.

Para o ministro provincial, frei Olávio José Dotto, a herança de Francisco precisa continuar produzindo compromissos concretos com a paz, a fraternidade, os mais pobres e a preservação da Casa Comum.

Missa campal foi realizada no pátio do convento, com forte participação de fiéis leigos | Crédito: Corbari

Uma história construída por muitas mãos

A presença franciscana no Rio Grande do Sul começou em 8 de agosto de 1926, quando os frades holandeses frei Thiago Steffens e frei Floriano Groen chegaram a Bela Vista do Fão, comunidade então ligada à região de Lajeado. A trajetória foi recuperada durante o encontro pela professora e historiadora Janaine Trombine, a partir de documentos históricos e registros paroquiais.

Cem anos depois, a memória daquela chegada foi celebrada como parte de uma caminhada que ultrapassa a atuação dos religiosos e envolve milhares de pessoas que acolheram, sustentaram e deram continuidade à missão nas comunidades.

Os depoimentos de participantes de diferentes regiões do estado revelaram a dimensão dessa presença. Em Gravataí, Ana Flávia Machado destaca a proximidade e o diálogo dos frades com a comunidade.

Em Taquari, a pediatra Maria Cristina Locatel dos Santos recorda como os frades acompanharam diferentes momentos de sua vida, da infância à vida adulta. “A minha maneira de me relacionar com Deus é franciscana”, afirma Santos. Em Boqueirão do Leão, Bernadete e Sílvio Montinelli ressaltam o incentivo dos religiosos à participação popular e às ações comunitárias, especialmente nas visitas a pessoas doentes e necessitadas.

Já em Porto Alegre, Sinézio Weschenfelder encontrou na convivência franciscana uma forma de colocar o Evangelho em prática por meio da distribuição de alimentos, da realização de almoços e da oferta de banhos para pessoas em situação de rua. Para ele, a fraternidade precisa ultrapassar os espaços de celebração religiosa e chegar a quem vive nas margens da sociedade.

A dimensão social também foi destacada por Darci Perin, de Arroio do Meio, que relaciona a espiritualidade franciscana às organizações populares e às lutas por justiça social. Para ele, a herança de São Francisco está presente também na caminhada dos pequenos agricultores, acampados e assentados.

Momento serviu para celebrar a história, para reconhecer o trabalho dos frades e também fazer memória aos irmãos e irmãs que já partiram / Crédito: Corbari

Acolhimento que transforma vidas

Uma das experiências que chamou a atenção dos participantes foi apresentada pelo Centro de Promoção da Criança e do Adolescente (CPCA), que desenvolve há 47 anos um trabalho social na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre. Inspirada nos valores de São Francisco de Assis, a instituição atua junto a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade social.

A coordenadora Mônica Melquiona Albuquerque destacou que a missão vai além do atendimento: envolve acolhimento, respeito às diferenças e a construção de oportunidades para transformar realidades.

Sob o lema “Abrace uma vida, mude uma história”, o trabalho busca reconhecer a dignidade de cada pessoa e fortalecer vínculos comunitários. “São Francisco está em cada criança, em cada abraço que elas nos dão e que a gente pode dar a elas”, afirmou Albuquerque. A experiência evidencia uma dimensão central da espiritualidade franciscana: a fé que se transforma em presença concreta, especialmente junto às pessoas que enfrentam situações de desigualdade e exclusão.

A distribuição de sementes simbolizou o compromisso de semear, cultivar e frutificar por meio da paz e do bem | Crédito: Corbari

Paz, fraternidade e cuidado com a Casa Comum

Na celebração, frei Olávio apresentou quatro dimensões fundamentais do legado de São Francisco: paz, fraternidade, cuidado com a criação e oração. Ao recuperar do testamento de São Francisco o trecho “O Senhor te dê a paz”, o ministro provincial defendeu que a paz não seja compreendida apenas como ausência de conflitos, mas como um modo de viver e de se relacionar. Ser instrumento de paz exige atitudes concretas, capacidade de diálogo e disposição para reconstruir relações.

Sobre a fraternidade, recordou a expressão de São Francisco “O Senhor me deu irmãos”, destacando que a comunidade não se constrói pela eliminação das diferenças, mas pela capacidade de acolher cada pessoa em sua singularidade.

O cuidado com a criação também ocupou lugar central na reflexão. Diante da crise climática, frei Olávio chamou a atenção para os impactos das mudanças ambientais sobre a água, a alimentação, a saúde e as condições de vida das populações. Os mais atingidos, ressaltou, são justamente os pobres e aqueles que dependem diretamente da terra, da chuva e das colheitas.

A dimensão da oração também foi destacada, não como prática isolada, mas como experiência capaz de orientar toda a existência. As quatro dimensões, apresentadas como sementes pelo religioso, formam um mesmo projeto de vida, no qual a espiritualidade precisa produzir consequências nas relações humanas e no compromisso com os mais vulneráveis.

O ministro provincial frei Olávio Dotto explicou as dimensões atuais da espiritualidade franciscana e o compromisso com as transformações necessárias ao tempo atual | Crédito: Corbari

Sementes para continuar a caminhada

O encontro também reafirmou o protagonismo de leigos e leigas na continuidade da presença franciscana. Edneia Ferreira, representante das comunidades, destacou que a participação popular não pode ser vista apenas como apoio às atividades dos religiosos. “Nós, leigos e leigas, não somos apenas pessoas que ajudam quando precisam. Somos parte dessa missão”, afirmou.

A reflexão aponta para uma igreja construída coletivamente, com participação, escuta e reconhecimento dos diferentes dons e experiências. Uma igreja que, como defendeu frei Olávio, não tenha medo de sair ao encontro das pessoas, servir e amar.

A memória de frei Sérgio Görgen, falecido em 2026, também esteve presente na celebração. Participantes recordaram a proximidade do religioso com as famílias camponesas, seu trabalho pastoral e seu compromisso com as causas populares. A Missão Sementes de Solidariedade, mobilização de apoio a famílias atingidas pelas enchentes, foi lembrada como uma expressão desse legado de fraternidade e partilha.

No encerramento, os participantes receberam sementes crioulas de diferentes variedades, entre elas feijão miúdo, girassol, arroz de sequeiro e milho. A iniciativa contou com a colaboração da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Santa Cruz do Sul, que desenvolve ações de preservação e multiplicação de sementes e já havia contribuído com famílias atingidas pelas enchentes.

Mais do que uma lembrança, a distribuição simbolizou o compromisso de plantar, cuidar e compartilhar. A mensagem que acompanhou o gesto sintetizou o espírito do encontro: “Nós com Francisco e Clara, sementes de paz e fraternidade”.

Ao final, a celebração dos 800 anos da morte de São Francisco, dos 100 anos da chegada dos frades holandeses e dos 50 anos da Província São Francisco de Assis reafirmou — ao som da Orquestra Villa-Lobos — que a história franciscana permanece viva nas comunidades, nas obras sociais e nas pessoas que fazem da fé um compromisso com a transformação da realidade. Afinal, como indica o legado do santo de Assis, não basta recordar sua história: é preciso continuar semeando paz, fraternidade, justiça e cuidado com a vida.

Editado por: Marcelo Ferreira

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