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‘Onda azul’ democrata nos EUA equilibrou pauta econômica e direitos humanos para ter sucesso

Analista elogia mudança de postura eleitoral dos democratas e deputada estadual eleita fala em futuro melhor para o país

Abdul El-Sayed e a esposa, Sarah Jukaku, comemoram a vitória nas eleições de meio de mandato em Detroit, Michigan, em 4 de novembro de 2026
Abdul El-Sayed e a esposa, Sarah Jukaku, comemoram a vitória nas eleições de meio de mandato em Detroit, Michigan, em 4 de novembro de 2026 | Crédito: Jeff Kowalsky/AFP

A chamada “onda azul”, que formou a maioria do partido Democrata no Congresso estadunidense, coloca o poder de Donald Trump em xeque. Alguns estados tradicionalmente republicanos também registraram vitória de candidatos democratas, com destaque para Michigan, onde Abdul El-Sayed venceu e será o primeiro muçulmano no Senado, e no Texas, onde James Talarico garantiu a vaga para o partido Democrata, o que não acontecia desde 1988.

Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Ricardo Leães, professor e pesquisador de Relações Internacionais, afirma que, no sentido conjuntural, é importante dimensionar a vitória democrata. “É a maior vitória dos últimos 60 anos. Na Câmara, os democratas já garantiram larga maioria e, no Senado, já há 54 e talvez sejam 56 senadores democratas contra 44 republicanos. Além disso, provavelmente vão ser 30 governadores democratas nos próximos anos. Desde 2010, os democratas não tinham a maioria de governadores”, enumera. 

Na prática, segundo Leães, o Congresso tem a possibilidade de barrar iniciativas legislativas do presidente Donald Trump. Ao mesmo tempo, o analista reconhece que será difícil conseguir emplacar muitos projetos deles, porque o presidente tem poder de veto e a ala democrata precisa de dois terços para impedir que isso ocorra. “Além disso, eles têm um controle sobre o orçamento, eles têm poder de veto sobre o orçamento, o que lhes dá uma condição muito grande de impedir que o Donald Trump coloque na ordem do dia a sua agenda econômica, a sua agenda política, a sua agenda social. E, mais do que isso, eles têm um poder de investigação muito grande. Os arquivos Epstein e outros escândalos de corrupção pararam de ser divulgados. Agora essas e outras investigações já podem acontecer no âmbito do Senado”, pontua.

Ricardo Leães aposta que alguns republicanos também abandonem Trump. “Se piorar a situação econômica do país, se a guerra contra o Irã voltar à sua plena extensão e o Irã vencer essa guerra, e mais escândalos começarem a aparecer, talvez alguns republicanos não tão trumpistas assim comecem a pular da barca”, destaca.

Na avaliação do professor, houve uma reorientação estratégica do partido Democrata, sobretudo no que diz respeito a uma mudança na abordagem eleitoral, migrando de pautas institucionais abstratas para o enfrentamento direto das dificuldades financeiras da população. “Eles enfatizavam muito, em relação ao Donald Trump, a questão da democracia, a questão de combater a extrema direita, de manter as instituições no país. E essa é uma pauta que agrada a alguns eleitores, mas ela não enche barriga. A maioria das candidaturas enfatizou justamente isso: o aumento do custo de vida, a inflação, os serviços públicos que pioraram”, avalia.

Além do discurso econômico, a adoção de posturas oposicionistas mais firmes e o fortalecimento da ala de esquerda do partido redefiniram as perspectivas para o pleito de 2028. Exemplos dessa tática de confronto direto, como a sustentação do shutdown governamental de mais de 40 dias, que forçou concessões do governo na área da saúde pública, demonstraram a eficácia do combate sem concessões.

‘Mensagem de que realidade não é aceitável’

Brasileira radicada em Massachusetts, Lorena Betts é do partido Democrata e foi eleita deputada estadual. Na avaliação dela, a população deu uma mensagem clara nesta terça-feira: “Nós queremos mudança.”

Betts relata que o dia foi de grande expectativa e que estava confiante de uma vitória democrática. Ainda assim, até que os primeiros resultados aparecessem, havia um clima de euforia e ansiedade. “Foi um dia em que a gente sentiu muito, tudo, foi um dia de grande expectativa diante de tudo que está acontecendo no país”, afirma. “Quando soube da vitória, fiquei feliz, mas ainda assim fiquei na expectativa de outros resultados. Foi surpreendente.”

Segundo a parlamentar, existe uma grande expectativa de que, com mais democratas tendo voz e vez, haja um arrefecimento das políticas violentas impostas por Trump contra imigrantes. Ela conta que, em Massachusetts, há pouco tempo, foi aprovado um projeto de lei chamado The Protect Act, que é focado em barrar as ações do ICE. “O ICE não está seguindo o que é previsto na Constituição, os direitos constitucionais, mesmo de pessoas sem status. Esse projeto de lei foi liderado pelo grupo de legisladores negros e latinos, claro, com uma coalizão com outros políticos, mas eles realmente à frente”, relata. “Senti a urgência de entrar na política a partir de passar a sentir e presenciar o medo”, conta.

Para ela, o partido Democrata, nos últimos anos, investiu em recuperar os valores que afetam o cotidiano das pessoas comuns. “O que eu estou vendo é o estabelecimento de valores, e quais são esses valores? São os valores dos direitos humanos, de igualdade, de diversidade e inclusão. São esses valores que estamos ressaltando e a comunidade tem recebido de forma positiva”, afirma.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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