Hoje, 04 de novembro, é o dia da Favela! São 129 anos de história. Lugar este que é habitado hoje por populações negras, oriundas de estados do nordeste brasileiro, indígenas e tantos outros povos que ressignificam esse lugar todos os dias. Somos trabalhadores precarizados, morando em casas construídas pelas nossas próprias mãos. Lutando historicamente pela água, pela casa, pela segurança e tantos outros direitos humanos básicos.
A criminalização é regra quando se fala deste lugar quando temos um país marcado pela criminalização da pobreza e pelo racismo estrutural. Só na favela em que sou cria, a Favela da Maré, habitado por 140 mil moradores divididos em 16 favelas, localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, sobrevivemos há inúmeras operações policiais, quase que semanalmente, com um discurso de combate ao tráfico de drogas. O que é, na verdade, um controle desta terra e território, da cultura, da vida comunitária e das nossas lutas insurgentes.

Neste mesmo lugar – como forma de significar uma história que, muitas das vezes, foi escrita pelo outro e a partir da criminalização – temos inúmeros meios de comunicação comunitária que vem reescrevendo a favela, com valorização das nossas vidas, música, teatro, cultura, trabalho e fazendo de tudo isso virar memória. Temos Museus comunitários, Rádios comunitárias, TVs comunitárias, jornais comunitários, além das redes sociais que viraram um marco de alcance dentro e fora destes locais.
Nos últimos anos, principalmente, em período eleitoral, há inúmeros questionamentos sobre nós pobres, sobre o por que há uma maioria desses lugares que votam na direita…No primeiro turno deste recente período eleitoral, nós não vimos campanhas de partidos de esquerda em muitas das favelas e periferias da Zona Norte, Baixada e Zona Oeste do Rio de Janeiro. O que ao meu entender e a de outros moradores e referências dos movimentos de favelas, foi um erro político e que não se iniciou hoje. Pois há alguns anos compartilhamos da análise de que precisamos de movimentos de esquerda nos apoiando nos movimentos locais, trazendo formação política, atividades culturais, além de nos apoiar a trabalhar estrategicamente na luta e na busca por políticas públicas locais.

Depois do primeiro turno, foram inúmeras as pessoas fazendo contato conosco para elaborarmos um plano estratégico de combate a fake news e de campanha comunicacional voltado às eleições. Na Maré, logo nos reunimos a partir de uma demanda interna e organizamos coletivamente um plano de comunicação que contemplasse materiais impressos: cartazes, lambe lambe, panfletos, adesivos, além de faixas raifa, carro de som com áudios e músicas sobre políticas públicas já conquistadas ao longo do período do PT no governo.
Ocupamos as redes sociais e grupos no Whatsapp com cards e vídeos curtos falando também das conquistas práticas e apontando os retrocessos que tivemos com o governo da extrema direita durante a pandemia da covid-19. Fizemos esse plano de comunicação com linguagem local com apoio de uma arrecadação voluntária feita por amigos. Inclusive, me pergunto por que mesmo ainda num governo de esquerda não temos investimentos nas mídias comunitárias, por que nós jornalistas de favelas e de outros territórios de resistência do nosso país ainda não somos valorizados enquanto profissionais que merecem direitos…
O resultado disto, é que só na Maré – a partir desse plano de comunicação, da juventude local na rua panfletando nas igrejas, escolas, clínicas da família e nas casas diariamente, além de uma manifestação de rua que reuniu quase 2 mil pessoas e que percorreu 12 favelas da Maré, tivemos mais de 9 mil votos de diferença do primeiro para o segundo turno: “Na 161ª zona, Lula teve 61,90%, 42.467 votos. Flávio teve 38,10%, 26.143 votos. Lula ganhou cerca de 9 mil votos a mais que no primeiro turno, e Flávio, cerca de 1.800″, segundo levantamento do Voz das Comunidades em pesquisa no site do TSE. Lembrando que esta mesma favela teve sérios problemas com a mudança de sessões no primeiro turno.

Nesta mesma pesquisa publicada pelo Voz das Comunidades apontou que “nos lugares onde moram os moradores do Complexo do Alemão, da Penha, da Maré, da Cidade de Deus, de Rio das Pedras, Gardênia Azul e Rocinha, Lula teve mais votos que Flávio Bolsonaro em todas as zonas eleitorais que acompanhamos”. Com isto, questiono, o problema é mesmo nós pobres que de forma estereotipada somos considerados aqueles que “Não sabem votar?”, ou por que só vimos as campanhas chegando em momentos de desespero como ocorreu no segundo turno? A direita disputa esse lugar, essa linguagem e ideologia diariamente. Por isso, aqui fica o nosso convite a pensarmos a pauta da democratização da comunicação, ao financiamento público das mídias comunitárias e no trabalho contínuo que devemos continuar nas nossas favelas e periferias. Vamos com nossas bandeiras, com nossos sonhos e ideologias de um outro mundo, disputar mentes, ideias, para mudar conjuntamente as práticas!
*Gizele Martins é comunicadora comunitária. Jornalista e doutora em comunicação.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

