TRAVESSIAS

Série ‘Passageiros da Fronteira Sul’ revela rede gaúcha de fuga durante a Operação Condor

Com 12 episódios, produção de Pedro Isaías Lucas estreia em Porto Alegre e chega a escolas de 15 cidades do estado

Lilián Celiberti, Universindo Díaz e Jair Krischke
Lilián Celiberti, Universindo Díaz e Jair Krischke | Crédito: Divulgação/Arquivo do Movimento de Justiça e Direitos Humanos

Um carro que cruza a fronteira no Chuí na noite de Ano Novo. Uma mãe e seu filho atravessando a pé a Cordilheira dos Andes. Duas crianças uruguaias levadas à força de um apartamento na rua Botafogo, em Porto Alegre. São histórias reais contadas em “Passageiros da Fronteira Sul”, série documental dirigida por Pedro Isaías Lucas, que será lançada na segunda-feira (9), às 19h, no CineBancários, na capital gaúcha, com entrada gratuita.

Dividida em 12 episódios de 15 minutos, a produção reconstitui casos de sequestro, resgate e fuga de perseguidos políticos nas fronteiras do Sul do Brasil com o Uruguai e a Argentina, entre as décadas de 1960 e 1980. A narrativa se organiza em torno de duas redes que atravessavam o Cone Sul: de um lado, o aparato de vigilância e repressão montado pelas ditaduras no âmbito da Operação Condor; de outro, uma rede civil de fuga, acolhimento e denúncia formada em Porto Alegre em torno de Jair Krischke, que mais tarde originaria o Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH).

Lilián reencontra a filha depois de 5 anos de prisão | Crédito: Divulgação/Arquivo do Movimento de Justiça e Direitos Humanos

Fronteiras como rota de fuga

Para o diretor, o território gaúcho teve papel central nesse período. “As nossas fronteiras aqui do Rio Grande do Sul com o Uruguai e com a Argentina foram rota de muita gente que precisava fugir da perseguição política, a partir de 1964. O caminho prioritário era o Uruguai. Depois da instauração das ditaduras nos países vizinhos, essas mesmas fronteiras foram usadas por argentinos, uruguaios e chilenos para fugir da perseguição, num momento em que o Brasil já estava em processo de abertura”, relata Pedro Isaías Lucas.

Entre os casos abordados está o sequestro de Lilián Celiberti, de seus dois filhos e de Universindo Díaz, em Porto Alegre, em 1978, por agentes brasileiros e uruguaios. A ação clandestina só veio a público porque uma mensagem cifrada de Lilián mobilizou sua rede de apoio e levou ao apartamento o jornalista Luiz Cláudio Cunha, que deu repercussão ao episódio na imprensa. Outros capítulos tratam da criação do CIEX, serviço de inteligência da ditadura brasileira no exterior, das pessoas desaparecidas nos chamados voos da morte na Argentina e da atuação do MJDH durante a redemocratização, em Encruzilhada Natalino.

Os episódios foram gravados nas cidades e regiões onde os fatos aconteceram e combinam depoimentos e imagens atuais dos locais com fotografias, documentos históricos, reportagens e outros registros de arquivo. O diretor, que lançou “Jango no Exílio”, em 2024, afirma que a série aborda experiências compartilhadas pela região. “Os nossos vizinhos usavam o território brasileiro para partir rumo à Europa. Essa série tem a ver com histórias de perseguição política e de violações de direitos humanos comuns aos nossos países, a essa região do continente”, diz.

Luíz Claudio depondo diante do olhar de dois agentes do Dops acusados | Crédito: Divulgação/Arquivo do Movimento de Justiça e Direitos Humanos

Da tela para a sala de aula

Além da exibição, “Passageiros da Fronteira Sul” foi concebida como ferramenta de ensino. A série vem acompanhada de material didático voltado a professores do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), desenvolvido pela Edugital e pela Rizoma Consultoria Educacional.

A proposta é usar os episódios como fonte histórica e ponto de partida para que os estudantes investiguem, contextualizem e elaborem suas próprias interpretações sobre o regime militar (1964–1985) e suas consequências no Brasil e no Rio Grande do Sul. O conteúdo está alinhado às competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para Ciências Humanas no Ensino Médio e será disponibilizado gratuitamente a todas as escolas interessadas.

A série e o material didático serão distribuídos sem custo pela produtora, com eventos promocionais de caráter pedagógico em 15 cidades gaúchas: Porto Alegre, Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Charqueadas, Eldorado do Sul, Esteio, Gravataí, Guaíba, Nova Santa Rita, São Jerônimo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Triunfo e Viamão. A equipe pedagógica do projeto realizará capacitações com professores de História, Geografia, Filosofia, Literatura e Sociologia, e o material poderá ser acessado por docentes de todo o país que quiserem trabalhar o tema.

O projeto foi selecionado pelo Edital Sedac/LPG 16/23, com financiamento da Lei Complementar 195/22 (Lei Paulo Gustavo), do Ministério da Cultura e do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por meio do Pró-Cultura RS.

Serviço
Data: segunda-feira (9 de novembro), às 19h
Local: CineBancários, rua General Câmara, 424, Centro Histórico, Porto Alegre
Mais informações: gratuito

Editado por: Katia Marko

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