FESTIVAL DO RIO

‘A Bola Preta’ é uma obra cinematográfica cinco estrelas

Filme merece cinco estrelas, pela grandiosidade épica que representa em estrutura narrativa

a bola preta
Atores em cena no filme ‘A Bola Preta’ | Crédito: Divulgação

Eis uma obra de cinema daquelas que ficam. Uma história entre a história real e a ficção. Estou falando do pretendente ao Oscar pela Espanha e produzido por Almodóvar: “A Bola Preta”. Um filme que lança o olhar para o passado para mostrar o presente, e da ficção para falar do real. Tudo a partir do inigualável Federico García Lorca. Três histórias vão se entrelaçando e, aos poucos, você começa a perceber que fazem parte da mesma história contada pelo filme.

Exibido no Festival do Rio 2026, “A Bola Preta” nos ajuda no mínimo a entender as loucuras de um regime fascista. Nessas horas a gente pensa no discurso aqui do Brasil de não se envolver em política. Acho que isso acontece aqui porque ainda não nos damos conta por inteiro de que qualquer coisa mínima que nos acontece no dia a dia está intrinsecamente ligada às decisões políticas daqui ou dali, tomadas por pessoas que elegemos. E que é muito pior ainda quando elegemos políticos que podem até mesmo nos tirar esse direito de escolha ou mesmo manipulá-lo para que possam recorrer aos seus interesses pessoais ou de um grupo que quer extorquir a liberdade de tantos.

“A Bola Preta” é realmente uma obra-prima na arte contar uma história. Uma história de horrores em que o estado de exceção decide quem pode participar da sociedade ou não, na cidade de Granada. O título se refere à obra inacabada de García Lorca, que não veio a público porque o dramaturgo foi assassinado por ser homossexual. Até hoje os fatos são escondidos, mas acredita-se na intervenção do militar ditador Franco, antes mesmo de iniciar seu regime na Espanha.

O filme mostra a história da peça encontrada anos depois, numa das três histórias contadas no filme por inteiro. Uma segunda história mostra como essa peça foi salva, dois anos depois da morte do artista, através de um soldado das tropas fascistas, envolvido com um prisioneiro, que teria sido o amante de Lorca, e que seria executado por esse mesmo soldado, que acaba se apaixonando por esse prisioneiro, que era um belo atleta comunista, fascinado pelo talento e charme intelectual de Federico. Na terceira história, esse soldado, que guardou a peça de Lorca até a velhice, morre, e deixa de herança para o neto, também escritor e homossexual, a obra de Garcia Lorca, que dá título ao filme: “La Bola Negra”.

A “Bola Preta” é nada mais do que a avaliação negativa que um grupo de aristocratas espanhóis dão aos seus integrantes de um clube fechado de inclusão de pessoas benquistas na alta sociedade. O personagem que ganha essa avaliação é um jovem em conflito com sua masculinidade, porém lutando contra esse destino, principalmente em nome do pai milionário e da família envergonhada.

Federico escrevia essa última obra quando conheceu o atleta. Um homem lindo e másculo, que se encanta pela figura inigualável do escritor. É o último amor da vida do artista, que nunca se envolvia em política, mas foi perseguido pelos fascistas e assassinado. Parecia que García Lorca sabia do seu destino e se apressou a escrever a obra. Ao dedicar a peça ao amante atleta, deixa com ele o escrito, para que o rapaz preserve o texto até o fim dos tempos ruins de perseguição.

Depois disso, o atleta se alista contra as tropas do regime fascista e é capturado ferido e tornado prisioneiro, com a intenção de fornecer informações do exército vermelho aos ditadores. Um soldado fica responsável de vigiar e até de se fazer de amigo dele para arrancar alguma informação. Só que o soldado fascista se apaixona pelo belíssimo atleta e começa a protegê-lo, ao ponto de ficar com o manuscrito de Lorca e entregar uma carta à família do rapaz, depois de morto.

Esse soldado guarda “A Bola Preta” até a velhice, e em 2017, deixa o legado de entregar a carta pra família e desvendar a peça de Lorca para o mundo, nas mãos do neto, também escritor, mas que ele nem sequer conheceu pessoalmente. Ele apenas acompanha o neto por notícias de jornal. Na verdade, pequenas notas ao pé da página.

O neto toma aquilo como missão e percebe a importância de ter nas mãos a parte que completa uma obra inacabada de um gênio mundial.

“A Bola Preta” merece cinco estrelas, pela grandiosidade épica que representa em estrutura narrativa. Um filme que vai fundo em nos mostrar as enormes perdas que podemos ter ao chegarmos próximos de um regime político autoritário. Cinco estrelas é pouco para nos fazer entender isso, e bola preta pra qualquer tentativa de entendermos o contrário.

* Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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