FESTIVAL DO RIO

‘A Gradiva’ nos põe em crescente na história

O final do filme é uma lição sobre quem acaba levando essa fase de mudança às últimas consequências

Cena do filme A gradiva
Cena do filme A gradiva | Crédito: Divulgação

É impressionante o detalhamento da explicação sobre a erupção do vulcão Vesúvio no filme franco-italiano “A Gradiva”, da diretora francesa Marine Atlan, exibido no Festival do Rio 2026. Parece que entramos naquele tempo de Pompeia, onde uma cidade inteira foi soterrada e resiste nas imagens das escavações arqueológicas. Mas nada disso interessa aos jovens que estão prestes a entrar pra faculdade e começar uma vida adulta.

É a última aula antes da divulgação dos resultados da turma para as aptidões escolhidas. E, como em toda turma, temos ali reunidos personagens cujas personalidades em formação já se mostram mais latentes.

James é um rapaz desejado por todos. Meninos, meninas e professores se rendem à sua segurança impávida, que lhe confere um charme que transcende sua imagem física. Seu melhor amigo, Toni, é completamente rendido aos seus encantos, desejando James como o único objeto de conquista da vida.

Os jovens vivem em seus mundos, fantasiando a realidade como se estivessem fazendo pouco da vida que têm. A vida real não basta, e eles precisam construir suas próprias impressões, conceitos e crenças sobre o mundo, ainda que este possa parecer, muitas vezes, amargo com eles mesmos. O que mais se sobressai é o desejo. E mesmo o menino desejado por meninas e meninos tem o olhar perdido, desejando algo que não sabe o que é. Chegamos a achar que ele pode desejar o próprio amigo, mas ele prefere manter a aura do poder de ser desejado, sem ceder às investidas de Toni.

O que menos importa para a turma é a impressão do tempo marcada pela Pompeia clássica. Eles querem viver o agora, a busca por seus interiores. Desejos soterrados pelo vulcão da perda da juventude. Suzanne, por exemplo, a menina que se acha feia e à margem de todos, é também a melhor aluna. É ela quem faz a viagem mais interiorizada e madura sobre o que quer e o que pensa de si. Não que isso a torne imune à insegurança comum nesses momentos de transformação.

Toni cria sua própria história de antepassados, muito mais para ter uma história e se encontrar do que por interesse numa verdade ou numa busca ancestral. Talvez seja até uma forma de desviar os olhos e os sonhos do amigo James. Toni é infeliz e desinteressado pelos estudos, e empurra tudo apenas para fugir à perseguição da professora, dedicada e rígida com seus alunos.

E James, que parece dominar a situação do grupo, dedica-se aos estudos de maneira coerente e sóbria, mas mantém seu ar de mistério, que o torna sedutor aos olhos dos outros. Até mesmo a professora, que por alguns instantes percebe a sutileza sedutora do menino, cede em sua rigidez acadêmica, sem perder o controle.

O final do filme é uma lição sobre quem acaba levando essa fase de mudança às últimas consequências, transformando para sempre a juventude e o destino de todos.

“A Gradiva”, como sugere o significado da palavra, nos põe em crescente na história. E, como significa na obra artística que inspira o livro, revela a força de mostrar aos poucos aquilo que nunca se mostra por inteiro. Afinal, a vida é exatamente assim.

* Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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