A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, ocorrida nesta quinta-feira (5), não deve mudar a atual composição política e econômica do país. Com sua saída, deve assumir o vice-presidente, Pedro Alliana, do mesmo partido, o Colorado.
“O Paraguai só vai mudar em 2028, quando eles todos se forem”, afirmou a senadora Esperanza Martinez, do Partido Participación Ciudadana, ao Brasil de Fato.
“É importante olhar além da figura de Peña. O problema não se resolve com a saída de um presidente, pois todo o Partido Colorado que sustenta esse modelo continuará intacto e sem assumir as responsabilidades”, detalha a dirigente da Coordenação Nacional de Organização de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas, Cony Oviedo.
Por meio de uma mensagem em vídeo, Peña renunciou, enquanto a Câmara dos Deputados realizava uma sessão extraordinária para votar o pedido de impeachment contra ele. As movimentações ocorrem após a liquidação do banco digital Ueno devido à falta de solvência e a empréstimos irregulares concedidos a empresas vinculadas à instituição.
A crise política instalada explicita, na verdade, uma crise interna do Partido Colorado, segundo as pessoas ouvidas. “Há um racha entre os colorados. O presidente Peña se separou de [Horácio] Cartes. Ele colocou outras pessoas como candidatos de seu movimento [dentro do próprio partido], que se chama Honor Colorado. Nesse grupo estaria sendo articulada a candidatura para presidente em 2028, Pedro Alliana”, explica o militante do partido Frente Guasú, Carlos Parra.
Nas discussões do destino de Peña e do governo, o ex-presidente Horácio Cartes se apresenta como salvador da crise. “Mas ele é fundador do banco e o principal acionista”, lembra Parra, detalhando que Cartes teria se desligado do banco. O próprio Peña foi acionista do grupo controlador da instituição financeira até março de 2025.
“Ambos, Cartes e Alliana, tentam ficar com o controle do poder, tirando o presidente”, afirmou a senadora, minutos antes do início da sessão extraordinária do Senado que analisava a renúncia do presidente atual. Caso a renúncia seja aceita, Peña torna-se senador vitalício, garante a imunidade e pode, inclusive, voltar a se candidatar. Se a renúncia for rejeitada, Peña pode ser julgado pela Justiça comum. “Cartes era igual a Peña”, atesta Martinez.
“O cartismo planeja aceitar a renúncia. A preocupação é que uma eventual sucessão termine funcionando como uma saída política para descomprimir a crise, sem garantir justiça, nem respostas aos cidadãos, nem devolução de dinheiro ao Estado e às pessoas”, aponta Oviedo.
“Estamos em um momento delicado para a democracia paraguaia. O cartismo querendo lavar as mãos. Esta situação só veio à luz porque Cartes e Peña brigaram”, acrescenta.
Desde o golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo, em 2012, o Partido Colorado reveza representantes no poder. Cartes foi o primeiro a assumir em 2013.
Metade da população afetada
Cerca de três milhões de clientes, metade da população do país, ficaram sem acesso às suas contas. O banco provocou ainda um rombo de US$ 850 milhões em recursos públicos e fundos previdenciários depositados no banco digital.
“Somos um país pequeno e era um banco que tinha todos os fundos públicos. Então, isso golpeia os aposentados, os pequenos produtores. Nós já havíamos advertido que um banco privado não poderia ter todos os fundos de aposentados e previdência. Estamos num mau momento”, detalha Martinez.
“O escândalo é fruto de um negócio montado pelo presidente há três anos com banco dominando o mercado e criando 50 empresas em paraísos fiscais para desviar e lavar dinheiro”, detalha o militante da Frente Guasú, Carlos Parra, lembrando que muitos brasileiros bolsonaristas depositavam seu dinheiro no banco.
Fundado em 2021, o banco Ueno começou a operar em 2023, durante o governo de Peña. Desde terça (3), acontecem protestos no país devido à crise, que estão sendo fortemente reprimidos. “As pessoas que foram roubadas são as mesmas que são reprimidas”, conclui Oviedo.

