RETOMADA

Após fogo atingir 67% da terra indígena Maxakali, projeto promete reflorestamento 

Tikmũ'ũn pintaram os rostos com a própria terra queimada e prometeram replantar tudo de novo

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Incêndio que queimou 67% do Território Maxakali em outubro/2026 | Crédito: Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva

Na madrugada de 2 de outubro de 2026, três satélites viram o que ninguém mais registraria por cinco dias: um passou às 00h19 e anotou cinco pontos de calor dentro da Terra Indígena Maxakali; outro, às 00h57, anotou três; e o terceiro, às 1h17, anotou oito. 

Foram dezesseis detecções de satélite em menos de um quilômetro quadrado, nas cabeceiras do rio Umburanas, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais — chamas de baixa intensidade, com potência de radiação medida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) entre 0,9 e 4,6 numa escala que começa no zero.

Depois das 1h17, silêncio. Por quatro dias, nenhum satélite veria fogo ali de novo.

Em pouco mais de duas semanas, aquele ponto de calor viraria o maior incêndio da história da Terra Indígena Maxakali. Dentro dela, o fogo queimou 3.549 hectares — mais de dois terços do território demarcado, segundo o mapa de área queimada do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). 

Fora da terra indígena, o fogo ainda alcançou outros 548 hectares, e o total sobe para 4.097. Os danos diretos, segundo o Prevfogo, incluem roças, plantios, cercas, pastagens, vegetação nativa e a canalização de água. Quase nove em cada dez hectares queimados estavam dentro da terra indígena.

O PrevFogo  informa que no texto “Cicatriz de área queimada delimitada sobre composição colorida SWIR (Sentinel-2, 14 e 18/08/2026) o correto é 18/10/2026

Um povo indígena do canto

Os que dormiam sob aquele ponto de calor se autodenominam Tikmũ’ũn — o termo que adotam para si mesmos, segundo registrou a linguista Francesc Popovich, no Verbete do Povo na enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA). No Pradinho, as mulheres e as crianças falam quase exclusivamente essa língua, do tronco Macro-Jê. São um dos poucos povos de Mata Atlântica monolíngues e de contato recente que restam no país, segundo o ISA. 

A vida social se organiza em torno de praças onde se fincam os mastros cerimoniais pelos quais descem os yãmiy, os espíritos; as casas dispõem em ferradura, fechada de um lado pela Casa da Religião, o Kukex, e do outro pela casa do líder — arquitetura descrita desde o século XIX.

É desse mundo que Manuel Damásio Maxakali tira a imagem que explica o incêndio melhor que qualquer laudo. “É a árvore que desce”, diz ele. “As árvores vêm por baixo da terra, mas quando põe fogo na terra, a árvore desce, ela volta pra baixo”. E a advertência: “não pode pôr fogo na terra, porque a árvore tem que nascer e crescer para ter muita fartura, tatu, água”.

Terra velha de lutas

A terra onde isso acontece é pequena e é velha de luta. O ISA expõe que os grupos que hoje formam os Maxakali ocupavam uma área entre os rios Pardo e Doce e foram empurrados para as cabeceiras do Umburanas ao longo do século XIX, entre aldeamentos compulsórios e as Cartas Régias de 1808. 

Em 1920, o governo de Minas Gerais cedeu à União 2 mil hectares para postos indígenas no rio Umburanas; em 1940, só Água Boa foi demarcada; em 1956, o assassinato do líder Antônio Cascorado decidiu a demarcação que criou um absurdo duradouro — um corredor de fazendas separando os dois postos. 

Em 1966, o capitão Manoel Pinheiro, ligado ao Serviço Nacional de Informações (SNI), instalou ali a Guarda Rural Indígena, a GRIN, que coibia deslocamentos e mandava rebeldes ao Reformatório Agrícola Indígena Krenak. Só em 1993 as áreas foram unificadas; em 1996, homologadas; em 1997, os fazendeiros do corredor receberam indenização pelas benfeitorias.

Segundo Tugny, foi só em 2000 que o Estado retirou de dentro da terra as fazendas que cortavam Pradinho de Água Boa. A distinção é técnica: a terra indígena foi demarcada por processo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai); a reserva foi adquirida pelo Estado para famílias que não cabiam no território.

“Eles falam que hoje eles são como peixes num aquário”, resume a antropóloga Rosângela Pereira de Tugny, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), coordenadora do projeto Hãmhi Terra Viva, que trabalha com os Maxakali há vinte anos. 

O “aquário”, porém, está cheio de indígenas: segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 3.548 pessoas se autodeclararam indígenas da etnia Maxakali. Delas, 1.979 viviam dentro da TI Maxakali, em 5.305 hectares — 1.043 em Água Boa e 1.125 em Pradinho — e as demais em duas reservas compradas pela União — Aldeia Verde, em Ladainha (MG), e Cachoeirinha, em Teófilo Otoni (MG) — e fora das terras oficiais. O povo triplicou dentro do mesmo tanque.

O fogo voltou

O fogo no território voltou aos satélites em 7 de outubro: às 12h58, o agente de informação do Prevfogo registrou um foco de calor na área. Às 13h54, o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) foi acionado por um grupo de WhatsApp chamado “Emergência Maxakali”. No dia seguinte, a Funai pediu apoio pelo Ofício nº 83/2026; cinco brigadistas foram cadastrados, vindos de São João das Missões e de Belo Horizonte, e em 13 de outubro chegaram mais quatro da Brigada Xakriabá.

A brigada que segurou o fogo enquanto o Estado se organizava não tinha brigadistas contratados. Eram jovens do próprio povo — a Brigada Voluntária Mãtanãg Kõnãghi, formada pelo próprio Ibama/Prevfogo em 2024. “Quando o fogo aparece num lugar, eles sobem numa moto, vão fazendo as coisas como podem”, disse Tugny à reportagem, em 14 de outubro.

Brigadista observa o fogo – Foto: Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva

Os equipamentos de proteção individual eram revezados: “Um combatia o fogo e, quando ia descansar, passava os equipamentos de proteção individual (EPIs), a roupa, a botina, para o outro, porque eles não estavam completamente equipados”. 

E a população inteira entrou: “Foi mulher, foi criança com balde, a população inteira”. A TI Maxakali não tem brigada federal — as duas de Minas Gerais ficam em São João das Missões (Xakriabá, 29 brigadistas, desde 2010) e Belo Horizonte (15, desde 2025). “É uma brigada que não está oficializada, nós estamos lutando, pedindo a oficialização há um tempo”, disse Tugny.

Em 13 de outubro, quando a Funai emitiu a nota sobre o incêndio, o fogo era de nível 2: duas frentes ativas — Pradinho e Água Pradinho —, chamas de mais de quatro metros. A temperatura chegava a 35 °C, a umidade a 40%, os ventos a 15 km/h. 

Naquele mesmo dia, o satélite Aqua fez a passagem mais pesada do episódio: seis detecções, uma com potência de radiação de 250,7 megawatts — o equivalente a cerca de 45 mil chuveiros elétricos ligados ao mesmo tempo. Em solo, 22 combatentes: 8 da brigada voluntária, 5 do Ibama e 9 bombeiros militares. Em 15 de outubro, o incêndio foi considerado controlado; em 16, uma chuva fraca derrubou a temperatura.

Maria Diva Maxakali, liderança e conselheira de saúde, descreveu como estava a aldeia, em depoimento ao Brasil de Fato: “Os bichos estão morrendo queimados. As crianças pra cima e pra baixo. A gente sem saber o que fazer”. 

O registro oficial de fauna, segundo o Prevfogo, é de uma serpente carbonizada — e nenhum acionamento de equipes de resgate. Na comunidade, o relato é de dezenas de animais mortos.

Serpente carbonizada (Fabio Silveira) / Brigadista e Indígenas em vigília / Indígenas (Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva )

O boato e o capim

Na região circula um boato de que o fogo “faz parte da cultura” dos Maxakali. Tugny contrapõe a tese com o que descreve da rotina: “eles usam muitas vezes o fogo para fazer roça, para comer, nas caçadas, mas eles sempre controlam o fogo que eles usam”.

Sem lenha no território, os Maxakali têm de buscar o combustível em fazendas vizinhas — e, para chegar lá, atravessam a pé um capim alto, onde vivem cascavéis. Tugny associa a presença da serpente ao desequilíbrio ambiental que eliminou seus predadores.

O capim-colonião, gramínea exótica africana, é objeto de estudo científico: pesquisa publicada na revista Biodiversidade Brasileira, do ICMBio, descreve como a espécie, introduzida na região na primeira metade do século XX, domina grande parte da terra indígena e alterou o regime de queima, impedindo o retorno da fisionomia florestal. 

Em áreas degradadas, explica a análise técnica da Plataforma Florestal Brasil sobre o relatório do projeto Hãmhi, o capim acumula biomassa, seca na estiagem e queima rápido e intenso — e rebrota antes da vegetação nativa. O fogo favorece o capim; o capim prepara o próximo fogo. 

Na seca, os próprios Maxakali o chamam de “querosene”. Estudo conduzido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), publicado em 2025, com 35 anos de dados, mostra que as florestas em regeneração — exatamente o que o Hãmhi plantava — são as áreas mais suscetíveis a incêndios na Mata Atlântica, bioma que perdeu mais de 85% da cobertura original. 

A Funai nomeia o combustível na nota enviada a esta reportagem: as chamas corriam sobre “vegetação seca, capim colonião, braquiária e taboa”. Tugny aponta a altura do capim e o vento: “como lá é muito descampado, o vento é intenso”.

Números

Os números do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da TI quantificam o desmonte: a floresta caiu de 2.137 hectares, em 1985, para 795 hectares, em 2021; no mesmo período, a pastagem e a agricultura — sobretudo o capim exótico — avançaram de 3.146 para 4.443 hectares.  

Segundo o Banco de Dados de Queimadas (BDQueimadas), do INPE, o território queimou em três anos consecutivos: 523 hectares em novembro de 2023, 1.648 hectares em outubro de 2024 e 484 hectares em outubro de 2025 — 2.655 hectares, metade da terra demarcada. 

No satélite Aqua, somadas as passagens da manhã e da tarde, os 14 dias deste episódio geraram 12 detecções dentro da TI — o mesmo total dos 38 meses anteriores, em que o satélite registrou fogo ali em apenas quatro meses.

A Terra Indígena Maxakali ocupa 1,5% da região imediata de Águas Formosas e concentra fogo em proporção muito maior do que as áreas ao redor. Medida por quilômetro quadrado, a densidade de detecções no episódio foi 35 vezes a média da região imediata de Águas Formosas e 73 vezes a dos municípios do entorno imediato, Bertópolis e Santa Helena de Minas — cujas detecções dentro da terra indígena foram excluídas do cálculo, para medir apenas o que queimou ao redor. 

Na série histórica, essa proporção é de 9,2 e 8,7 vezes. Durante o episódio, a TI concentrou 52% das detecções da região; na série histórica, 15%.

Em outubro de 2026, Minas Gerais registrou 949 focos de calor, segundo o BDQueimadas — 37,6% da média histórica do mês, de 2.488, e menos da metade dos 2.018 de outubro de 2025. Até o fim de outubro, o estado somava 4.404 focos no ano — o menor total anual desde 2001. Apesar disso, a TI queimou 3.549 hectares. 

Enquanto o número de focos caía em Minas, o fogo dentro da Maxakali corria sobre capim acumulado, sem brigada federal contratada e sem água nas torneiras. Os relatórios do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) documentam o padrão: em 2023, a TI aparece entre os territórios “periodicamente devastados com queimadas”, atribuídas pelas lideranças a fazendeiros vizinhos.

Sem ponte, sem água e sem comida

Uma das áreas em regeneração dependia de uma ponte que a Prefeitura de Bertópolis prometeu restaurar — obra que nunca saiu, segundo Tugny. Ela permitiria abrir aceiro no morro onde a regeneração natural avançava, um ponto de orgulho do povo, que o via crescer “super feliz”, nas palavras dela. Com o fogo, o morro queimou. Tugny conta que a comunidade estava apenas tentando protegê-lo, aguardando a ponte que a prefeitura não fez.

A água que faltou durante o incêndio já tinha sido objeto de ordem judicial três meses antes. Em 23 de julho de 2026, o juiz federal Antônio Lúcio Túlio de Oliveira Barbosa, da Vara Federal de Teófilo Otoni, determinou que a União, por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), assegurasse em 30 dias o fornecimento regular e contínuo de água potável a todas as famílias do Polo Base Maxakali. 

A decisão movida pelo procurador Edmundo Antonio Dias contra a União, Funai, Estado e quatro municípios, fixou multas de incidência única por obrigação descumprida — R$ 60 mil para União e Funai, R$ 40 mil para o Estado, R$ 20 mil para Teófilo Otoni, R$ 15 mil para os demais municípios. 

O prazo venceu em 22 de agosto. O incêndio começou em outubro.

Indígena tenta conter as chamas – Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva

A decisão de julho não tratava só de água: tratava também de fogo e de raios. O município de Bertópolis foi obrigado a corrigir falhas em sistemas de para-raios que, segundo a decisão, “já provocaram incêndios e mortes no território Maxakali”. O caso citado nos autos ocorreu na madrugada de 14 para 15 de março de 2026, quando descargas elétricas atingiram dois indígenas, residências e instalações de energia nas aldeias Nova Vila, Mangueira e Duçolino. 

Segundo Damásio Maxakali, duas pessoas morreram atingidas por raios. O laudo da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) aponta que os equipamentos foram instalados pela própria Prefeitura de Bertópolis, responsável pela correção dos “erros de engenharia verificados”.

Em 15 de outubro, com o fogo correndo, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) expediu recomendação dando 24 horas para o município de Bertópolis garantir água potável e alimentos às famílias atingidas. Antes, o MPMG já havia oficiado o município. A resposta, segundo o órgão, foi que a administração “não dispõe de caminhões-pipa nem de equipes capacitadas” e decretou calamidade pública. A recomendação fixou cinco obrigações em 24 horas — água, cestas, saúde, apoio logístico e gabinete de crise —, com comprovação em 48 horas, prazo que vencia em 17 de outubro.

A urgência da água tem fundamento demográfico: segundo o estudo do Laboratório Interdisciplinar e Interepistêmico em Saúde Coletiva (LISC), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresentado na ação do MPF, a mortalidade de crianças Maxakali de um a quatro anos é 30 vezes maior que a de não indígenas na mesma região, e apenas 2,4% dos Maxakali chegam aos 60 anos. 

Em 1º de novembro, dezessete dias depois da recomendação e 71 dias depois do prazo da decisão judicial, Damásio Maxakali afirmou à reportagem que nenhuma água potável havia chegado ao território — apenas algumas cestas básicas. Na mesma semana, Tugny, a coordenadora do Hãmhi, relatou por telefone: “chegou um fogo numa aldeia às 2 horas da manhã, essa aldeia não tinha água na torneira, e a gente está numa luta para conseguir carro-pipa, água para essas pessoas beberem, que elas estão sufocadas na fumaça”.

Teia eleitoral

Enquanto o fogo corria, um áudio passou a circular na região: uma voz diz que o fogo “está queimando e não apaga não” e que a aldeia queima porque “daqui 14 dias é Flávio Bolsonaro”. A gravação não identifica o autor nem atribui o incêndio a ninguém, mas associa o fogo a um contexto eleitoral: o segundo turno estava previsto para 25 de outubro. Para a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), o incêndio foi “uma forma de perseguição política”. 

Ela afirma que um dia antes denunciou ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais uma articulação para levar “carotes de cachaça” às aldeias, para “impedir a votação dos indígenas”. 

A hipótese de motivação política para incêndios nestas eleições presidenciais também é objeto de investigação federal: em 14 de outubro de 2026, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, chegou a afirmar à imprensa que o governo investiga uma “ação criminosa deliberada” por trás da disparada de focos no Amazonas e disse haver “uma possibilidade de conexão direta com o período eleitoral”. 

Sobre a causa do incêndio, não há conclusão oficial: a Funai solicitou perícia ao Ibama; questionado, o Prevfogo respondeu que a causa “deverá ser realizada em tempo oportuno”. 

O projeto e a retomada

É um “banco de capim”, resume Tugny sobre o território. Ela começou o trabalho com o povo traduzindo os cantos rituais, que descreve como uma enciclopédia da mata — um mapa detalhado da Mata Atlântica que o povo carrega na memória. Para ela, a floresta que o projeto tentava recompor não é uma escolha técnica: é a terra de origem do povo. “Eles são do alto da Mata Atlântica”, diz Tugny. E a advertência que resume o projeto: “não pode um povo desse viver no capim”.

O reflorestamento que o fogo atingiu não era iniciativa improvisada. Em 16 de setembro de 2026, o MPF anunciou o repasse de R$1,9 milhão ao projeto Hãmhi Terra Viva, com recursos de quatro acordos de ajustamento de conduta. A Vara Federal de Teófilo Otoni determinou ainda a transferência ao projeto de uma multa judicial de R$40 mil aplicada ao município, segundo o MPF — o dobro dos R$20 mil fixados na decisão de julho. 

O projeto atua nos cinco territórios Maxakali: restaura florestas, protege nascentes e forma agentes agroflorestais e viveiristas, com gestão monitorada pela Plataforma Semente, do MPMG.

No final de outubro, a Terra Indígena Maxakali recebeu a visita de Mestre Joelson Ferreira, do Assentamento Terra Vista, no sul da Bahia — o mesmo para onde Tugny levou indígenas Maxakali no início do projeto. Segundo o Hãmhi, Joelson percorreu as áreas atingidas, conversou com lideranças e propôs uma conversa coletiva com brigadistas, viveiristas, agentes agroflorestais e agricultores para tratar da continuidade do reflorestamento. Participantes pintaram os rostos com as cinzas das áreas queimadas.

Indígenas Maxacalis pintaram os rostos com as cinzas das áreas queimadas – Foto: Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva

A árvore que volta

A fênix grega renasce das próprias cinzas — é o mito que o leitor conhece. Os Tikmũ’ũn têm outra resposta para o fogo, e ela está no nome das coisas. Damásio contou isso antes do incêndio, quando o reflorestamento começava, no texto que abre a página do Projeto Hãmhi Terra Viva: “aqui haviam muitas nascentes, já não existem mais. Por que as pessoas estão dando nome às coisas? Por exemplo, aqui, à beira do rio, tem uma árvore chamada ‘tokoxuk’ (pau barriguda). As pessoas viram isso e estão chamando o rio de ‘tokoxuk kox tu’ — Rio da árvore tokoxuk”.

A analogia que o texto desenha é simples e profunda: a árvore batiza o rio — o rio existe, para o povo, pelo nome da árvore que o guarda. E a árvore existe pela língua que a nomeia. Rio, árvore e povo se sustentam nos nomes uns dos outros: derrubar a árvore não é só perder madeira — é o rio perder o nome, é a língua perder a palavra, é o povo perder um pedaço de si. Por isso o replantio, para Damásio, não é técnica: é devolver a cada coisa o seu nome — e ao povo, o lugar onde os nomes moram.

Povo Maxakali se preparta para o reflorestamento – Acervo Projeto Hãmhi Terra Viva

Em outubro, 3.549 hectares viraram cinza, e a água que a decisão judicial exigia desde agosto não chegou. O texto, que era memória, virou profecia.

Mas no fim de outubro, na praça da aldeia, os rostos estavam pintados com a própria terra queimada. E a resposta ao fogo já estava escrita — meses antes: “vão nascer muitos tipos de frutas para o nosso fortalecimento, dos adultos e também das crianças. Vão nascer as coisas para a gente comer. Vão nascer muitas frutas — vão nascer muitas! Aquele que não está acreditando, que está ateando fogo, queimando a mata: assim as árvores não vão nascer”, pontua.

O que o fogo encontrou quando entrou está documentado. O que faltou no caminho até ele, também. O que vem agora é o que o texto de Damásio já anunciava: as sementes, os mutirões, o replantio. “Porque é necessário ter água, pois ela sobe pela raiz. E é por isso que nós estamos conversando aqui”, afirma.

A reportagem questionou a Prefeitura de Bertópolis sobre a ponte prometida no Território Maxakali e sobre a falta de água potável nas aldeias — e não obteve resposta até o fechamento desta edição. As instituições Funai e Ibama/Prevfogo responderam aos questionamentos e suas respostas estão citadas no texto.

Como ajudar

A campanha Rebrotar das Cinzas, organizada pela Teia dos Povos e lançada nesta terça-feira (3), arrecada recursos para a recuperação das áreas da Terra Indígena Maxakali devastadas pelo fogo: sementes e mudas, preparação do solo e alimentação dos mutirões de recuperação. A meta é de R$100 mil. 

– Doações: apoia.se/rebrotardascinzas

– Documentário: Incêndios no Território Maxakali – Rebrotar da Cinzas

Editado por: Elis Almeida

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