Indígenas e apoiadores ocuparam a região do Museu Nacional da República, em Brasília, nesta quarta-feira (4), para denunciar a violência contra os povos originários e cobrar a garantia de seus direitos. Com o lema “Pelos povos indígenas! Sangue indígena, nenhuma gota a mais!”, a mobilização reuniu diferentes reivindicações, entre elas a demarcação de terras, a regularização dos territórios e o acesso à educação e à saúde.
A manifestação também chamou atenção para a situação enfrentada por comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul, especialmente os povos Guarani e Kaiowá, que denunciam ameaças, ataques e assassinatos em seus territórios.
A violência na região tem sido alvo de denúncias e investigações. Em outubro, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionou a Polícia Federal para apurar relatos de mais de 30 ataques contra indígenas em Mato Grosso do Sul. No mesmo período, denúncias de ameaças de envenenamento da água utilizada por comunidades Guarani e Kaiowá também foram encaminhadas a órgãos federais.
Segundo levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o Brasil registrou 258 assassinatos de indígenas em 2025, dos quais 37 ocorreram em Mato Grosso do Sul. Os números integram o relatório anual de violência contra os povos indígenas.
Para Gualoy, indígena do povo Guarani Kaiowá, a presença em Brasília foi uma oportunidade de levar ao conhecimento da população a violência enfrentada pelas comunidades no estado. Ele destacou que os ataques atingem diferentes integrantes dos territórios, incluindo mulheres e crianças.
“Estamos aqui trazendo a questão dos povos indígenas Kaiowá, que vêm sofrendo ataques de violência. […] Os ataques atingem as mulheres indígenas, as crianças, os assassinatos dentro do território. A nossa presença hoje é trazer essa indicação aqui nessa manifestação em Brasília, para que as pessoas possam saber sobre a situação”, afirmou.
Demarcação e direito à educação
Além da denúncia de violência, a regularização fundiária e o acesso à educação estiveram entre as principais pautas apresentadas durante o ato. Morador da Aldeia Eco Rural, no Setor Noroeste, em Brasília, Francisco Filho Guajajara participou da mobilização para reivindicar a regularização do território onde vive e a ampliação das políticas públicas destinadas aos povos indígenas.
“Nós estamos aqui reivindicando porque falta regularização fundiária do nosso território. Nós precisamos do nosso território, nós precisamos da nossa educação. Por isso que estamos aqui”, declarou.
Francisco também chamou atenção para a necessidade de ampliar o acesso dos povos indígenas ao ensino superior. Ele defendeu a presença de uma universidade indígena nos territórios e destacou que estudantes de diferentes regiões do país precisam se deslocar até Brasília em busca de formação.
“Estamos aqui lutando pela nossa causa, pelo nosso direito, pela nossa educação, pela nossa saúde, pelo nosso território”, acrescentou.

A reivindicação ocorre em um momento de implementação da Universidade Federal Indígena (Unind), criada pela Lei nº 15.418/2026, sancionada em maio deste ano. A instituição tem sede prevista em Brasília e a proposta é ampliar o acesso dos povos indígenas à formação superior, com atuação em diferentes regiões do país.
A pressão sobre o Congresso Nacional para garantir os processos de demarcação também apareceu nas falas dos participantes. Estudante de Inteligência Artificial Aplicada à Gestão Pública na Universidade Federal de Goiás (UFG), Gabriel Eduardo, defendeu que a mobilização popular é fundamental para cobrar a atuação dos parlamentares.
“É importante que deputados e senadores entendam que o Brasil é terra indígena e essa terra precisa ser valorizada e as vidas indígenas precisam ser preservadas”, afirmou. Para ele, embora o governo federal tenha demonstrado apoio à pauta indígena, é necessário pressionar o Legislativo para que as demarcações avancem.
Desde 2023, a Funai registra avanços em diferentes etapas dos processos de regularização territorial. Até outubro de 2026, o órgão contabilizou 20 territórios homologados, 21 declarados como de posse indígena e 21 estudos de identificação e delimitação aprovados. Os números, no entanto, representam etapas distintas do procedimento de demarcação e não significam que todos os territórios estejam com a regularização concluída.
Mobilização reúne apoiadores
A manifestação também contou com pessoas não indígenas que participaram em solidariedade aos povos originários. Moradora de Brasília e agente socioeducativa Joice Silva afirmou que decidiu comparecer ao ato por considerar necessária a defesa dos direitos indígenas.
“Estou aqui em defesa dos povos indígenas. […] Estou aqui em favor dos povos indígenas”, declarou.
A jornalista Maria Virgínia Pantuso, integrante do Coletivo Kizomba, destacou que a proteção dos povos originários deve ser entendida como uma responsabilidade coletiva. Para ela, a violência contra essas populações tem raízes históricas e exige mobilização permanente.
“O genocídio indígena não acontece de hoje, é de muito tempo, e é dever de cada cidadão e cidadã participar desses atos e lutar pela demarcação das terras”, afirmou.
Estudante de Farmácia da Universidade de Brasília (UnB), Beatriz Nobre também relacionou a mobilização à defesa da democracia e à necessidade de garantir condições de vida para os povos originários. Ela mencionou denúncias de envenenamento da água de rios que abastecem aldeias e assassinatos motivados por questões políticas.
“Não há uma revolução, não há transformação da sociedade sem passar pelo bem viver de todos os povos. Então é muito importante que a gente esteja nessa luta junto com todos os povos, porque a luta é pela liberdade, pelo bem viver no nosso país e no mundo”, disse.

Apoie a comunicação popular no DF:
Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]
Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de WhatsApp do BdF DF: 61 98304-0102
Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.
Entre em nosso canal no WhatsApp e acompanhe as atualizações

