Representatividade

Pela primeira vez, indígenas ingressam na formação de diplomatas do Palácio Itamaraty

Marcelo Kariri e Idjahure Terena integram turma com 27 pessoas de grupos historicamente sub-representados

Cerimônia no Palácio Itamaraty nesta quarta-feira (4) marcou a posse dos novos integrantes da carreira diplomática brasileira
Cerimônia no Palácio Itamaraty nesta quarta-feira (4) marcou a posse dos novos integrantes da carreira diplomática brasileira | Crédito: André Guajajara Ascom/MPI

Pela primeira vez na história da diplomacia brasileira, dois indígenas ingressam no Curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco. Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse nesta quarta-feira (4), no Palácio Itamaraty, em Brasília, como terceiros-secretários da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores.

Os dois novos diplomatas integram a turma 2026-2028, formada por 60 aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD). Desse total, 27 pertencem a grupos historicamente sub-representados no serviço público: 17 pessoas negras, sete pessoas com deficiência, duas indígenas e uma quilombola. O concurso marcou a primeira reserva de vagas para indígenas e quilombolas na carreira diplomática, além do aumento do percentual destinado à população negra, conforme a Lei nº 15.142, de 3 de junho de 2025.

A mudança no perfil da turma é resultado do aumento das políticas de ações afirmativas no acesso à carreira. Durante a cerimônia, a ministra substituta das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, destacou a importância de aproximar a composição do corpo diplomático da diversidade da sociedade brasileira.

“A diplomacia brasileira precisa refletir a diversidade do país e temos empreendido esforços contínuos para democratizar o acesso ao serviço exterior”, afirmou. A ministra também destacou o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência. Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou a ministra.

Educação como caminho

A aprovação de Marcelo Kariri Menezes representa também uma mudança na trajetória de sua família. Natural de Campina Grande, na Paraíba, ele é formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Antes de ingressar na carreira diplomática, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos na empresa VTEX, entre 2021 e 2025. Também é autor do livro de ficção histórico-fantástica infantojuvenil “O meu pé esquerdo favorito”, lançado em 2026.

A preparação para o concurso ganhou intensidade em 2023. Após perder o emprego, Marcelo passou um ano dedicado integralmente aos estudos, com o apoio da esposa, professora da rede pública estadual na Paraíba. O interesse pela educação foi incentivado pela mãe, que trabalhava como auxiliar de serviços gerais em escolas e acompanhava as possibilidades abertas pelo acesso ao conhecimento. Marcelo conta que cresceu em um ambiente no qual indígenas eram desencorajados a estudar e direcionados aos trabalhos braçais.

“Havia uma tradição permeando onde minha família morava, de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem. Portanto, nós não deveríamos estudar. Deveríamos ficar apenas nos trabalhos braçais. Eu nunca vi sentido nisso. Minha mãe viu de perto a educação transformando a vida das pessoas, trabalhando como serviço geral em escolas. Ela viu que o estudo era uma porta para a vida como um todo e incentivou os filhos a estudar”, relata.

A trajetória acadêmica também foi uma forma de enfrentar o preconceito e construir uma relação de orgulho com a própria identidade. Marcelo é descendente do povo Kariri, originário do sertão nordestino. Ele chama atenção para a invisibilidade dos povos indígenas da região.

“Quando se fala em indígenas, muitas pessoas pensam nos povos que vivem atualmente na Amazônia. Já os ‘indígenas de antigamente’, seriam os tupis do litoral. Geralmente, não se fala muito dos povos indígenas do interior, como os do tronco Macro-Jê, do qual vêm os Kariri. Os Kariri são do sertão. Algumas pessoas do Nordeste conhecem a região do Cariri, no sul do Ceará e no norte da Bahia. Meu povo vem dali”, explica Marcelo Kariri.

Ele conta que sua família preservou parte da cultura indígena mesmo depois de gerações vivendo em contexto rural e urbano. “Eu sou a primeira pessoa da família a entrar na faculdade, terminar a educação e ver também a história indígena com orgulho. Sempre foi falado da parte da cultura indígena para mim, mas não tinha tanto aquele orgulho na fala. Tinha muito medo, tinha saudade, mas também aquela consciência do preconceito. Minha mãe e eu tentamos trazer esse orgulho, falar dos Kariri com orgulho”, afirma.

A conquista também levou Marcelo a pensar em como facilitar o caminho para outros indígenas. “Quando você consegue alguma coisa, você quer que os outros também consigam. Antes mesmo de ser aprovado, comecei a distribuir parte do conhecimento que acumulei no concurso. Comecei a dar aulas para indígenas, colocar no YouTube, aulas de geografia gratuitas para quem quisesse, como forma de baratear o conhecimento”, conta.

“Eu sou um funcionário do Estado brasileiro, então, prioritariamente, tenho que servir ao Estado brasileiro. Mas eu gostaria que, através desse serviço para o Estado brasileiro, eu pudesse também servir parte da população e da história do Brasil, que é a população indígena”, completa Kariri.

Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, é um dos primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática brasileira
Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, é um dos primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática brasileira | Crédito: André Guajajara Ascom/MPI

Ocupação dos espaços de poder

Aos 36 anos, Idjahure Achkar de Mendonça Pinto Kadiwel, conhecido como Idjahure Terena, chega ao Instituto Rio Branco após uma trajetória acadêmica nas Ciências Sociais e na Antropologia. Graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), ele concluiu mestrado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2020, e cursava doutorado em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP) quando foi aprovado no concurso.

Nascido no Rio de Janeiro, Idjahure se aproximou mais profundamente do povo Terena durante a adolescência, por meio da família da avó, Margarida, falecida em fevereiro de 2026. Seu pai é o artista Macsuara Kadiwéu, reconhecido como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro. A relação com a família e com a história dos Terena contribuiu para a construção de sua identidade indígena.

Ao falar sobre a história de seu povo, Idjahure destaca a redução territorial e as teorias de assimilação cultural que previam o desaparecimento da identidade indígena Terena. “Quando eu penso naquele território, eu vejo essa história de um povo que teve um território muito diminuto em relação à sua história, à sua territorialidade e à sua cultura. O povo Terena é muito numeroso. Era um povo que, como dizia a antropologia nos anos 1960, seria assimilado e perderia sua identificação étnica, sua identidade como povo indígena. Essa era a teoria da assimilação. Na verdade, não preciso dizer muito para ver que isso não é procedente, não foi isso que aconteceu”, afirma.

Para ele, a entrada na diplomacia tem relação direta com a possibilidade de os povos originários participarem das decisões nacionais. “A nossa diversidade étnica, histórica, a gente nunca fez parte das grandes decisões nacionais, da formação do Brasil. A gente não pode dizer que os povos indígenas atingiram uma cidadania plena se eles não conseguem ocupar plenamente os espaços de poder e de decisão no país”, declara.

O diplomata também chama atenção para a contradição entre a existência de um Estado de Direito e a permanência de práticas de violência e estruturas coloniais nos territórios indígenas. “Estar aqui entrando no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita, de exclusão, de genocídio, de tutela. E é batalhando por um outro futuro ancestral, um novo presente, no qual a gente sabe que coexistem forças genocidas, forças coloniais muito presentes ainda”, afirma Idjahure.

Idjahure Terena é um dos primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática brasileira
Idjahure Terena é um dos primeiros indígenas a ingressar na carreira diplomática brasileira | Crédito: Reprodução/Instagram

Conquista que ultrapassa a trajetória individual

O significado da entrada dos primeiros indígenas na formação diplomática também foi abordado pelo escritor, ambientalista e líder indígena Ailton Krenak, convidado para discursar na cerimônia. Primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ele classificou a chegada de representantes dos povos originários ao Itamaraty como um avanço histórico, mas destacou que a conquista não significa uma mudança na realidade das comunidades.

“Para quem acompanha a história do Brasil, representa um passo gigante. Mesmo a nossa Constituição não conseguiu por si só projetar esses povos originários ao lugar da cidadania plena. Quando o Estado brasileiro alça um de nós a uma condição excelente, isso não implica em carregar junto com essas experiências, que têm uma natureza pessoal, individual, as comunidades de onde vêm essas pessoas”, afirmou Krenak.

O escritor ressaltou que a presença indígena em instituições públicas precisa estar acompanhada de mudanças concretas nos territórios. Ao mencionar a situação dos povos Kaiowá e Guarani em Mato Grosso do Sul, criticou a continuidade dos ataques e a falta de respostas do poder público e do sistema de Justiça.

“Para que a gente assegure que essa conquista possa repercutir na vida das comunidades, nós precisamos deixar no passado os ataques genocidas que estão sendo feitos contra os Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul, a indiferença dos governadores, a quase omissão do nosso sistema jurídico. Aqueles proprietários de terra que seguem, mesmo depois da Constituinte, tomando terras que são indígenas, demarcadas”, declarou.

Krenak também questionou a forma como os povos originários foram historicamente excluídos da formação da sociedade brasileira. “Os indígenas nunca foram admitidos como parte dessa formação. Nunca, em nenhum momento. Não houve um gesto de verdade consequente das agências do Estado brasileiro, das estruturas que formam a nossa sociedade, para que os povos indígenas se sintam de verdade membros de uma ampla sociedade formada por brasileiros, sem que a gente continue reivindicando, de certa maneira, uma espécie de diferença”, disse.

Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras
Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras | Crédito: André Guajajara Ascom/MPI

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, também recuperou a história de tutela imposta aos povos originários, que durante séculos tiveram sua capacidade de representação política negada pelo Estado. “Instrumentalizou-se um longo período de tutela, em que os povos indígenas não podiam falar por si só, sempre dependendo de alguém para falar por si, sempre dependendo de alguém para representá-los. […] Foi somente com a Constituição de 1988 que nós, povos indígenas, tivemos plenamente os nossos direitos reconhecidos”, afirmou.

Para o ministro, a entrada dos dois diplomatas representa uma conquista que ultrapassa suas trajetórias pessoais e alcança o conjunto da sociedade brasileira. “Não é apenas um ganho coletivo, não é apenas um ganho individual, é um ganho de toda a nação brasileira, mudando todo o Estado brasileiro. Para todos nós que vivenciamos a carga colonial que nós vivenciamos no Brasil, isso é um momento muito simbólico que a gente precisa celebrar”, declarou o ministro.

A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira, por sua vez, destacou o papel das ações afirmativas para enfrentar barreiras históricas de acesso ao serviço público. “Durante muito tempo repetiu-se que bastava se esforçar para chegar a lugares como este e que quem não chegava era porque não tinha se esforçado o suficiente. Nós sabemos que isso nunca foi verdade. Gerações de pessoas negras, indígenas e quilombolas estudaram e trabalharam com enorme dedicação e, ainda assim, encontraram barreiras. O que lhes faltava era oportunidade”, afirmou a ministra.

A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira, e o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena
A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira, e o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena | Crédito: André Guajajara Ascom/MPI

Apoie a comunicação popular no DF:

Faça uma contribuição via Pix e ajude a manter o jornalismo regional independente. Doe para [email protected]

Siga nosso perfil no Instagram e fique por dentro das notícias da região.

Entre em nosso canal no Whatsapp e acompanhe as atualizações.

Faça uma sugestão de reportagem sobre o Distrito Federal, por meio do número de Whatsapp do BdF DF: 61 98304-0102

Editado por: Flavia Quirino

|

Newsletter