ANÁLISE

A antipolítica como operação ideológica da direita mundial

A política não serve à sobrevivência nem à produção: ela existe para a liberdade

Brasília (DF) 14/09/2025 O ex-presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de seu filho, Jair Renan, deixa hospital sob forte esquema de segurança, após passar por procedimentos. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista | Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A operação da direita – brasileira e mundial – não se limita a simetrizar polos sob o rótulo de polarização. Ela ataca a própria dignidade da atividade política.

Ao tratar a política como sinônimo de sujeira, corrupção e inutilidade, esse discurso não apenas critica governos ou partidos. Ele desqualifica o espaço onde os conflitos sociais podem ser politizados publicamente.

A retórica antipolítica da direita, seja na versão liberal que reduz o Estado a um problema de eficiência, seja na versão radical que o apresenta como covil de corruptos, cumpre uma função precisa: substituir a deliberação sobre interesses socioeconômicos por uma cruzada moral.

O discurso anticorrupção, nesse registro, não visa aperfeiçoar instituições, mas criminalizar a própria política e construir um inimigo comum – o sistema, os políticos tradicionais – que precisa ser extirpado, sem negociação alguma.

Essa operação tem um mecanismo claro. Como mostra a análise do simulacro do discurso antissistema, a extrema direita esvazia o conceito de sistema de sua base material – classes sociais, controle dos meios de produção, disputa distributiva – e o desloca para uma nebulosa “guerra cultural”, onde a política deixa de ser o lugar da disputa por recursos e poder para se tornar um combate moral entre “povo” e “elites” abstratas.

O resultado é paradoxal. Quanto mais se denuncia a “sujeira” da política, mais se naturaliza a opressiva dominação econômica, que passa a operar fora do alcance do escrutínio público.

No Brasil, essa lógica encontrou sua expressão mais acabada no bolsonarismo, hoje, em seu ocaso.

A antipolítica de Jair Bolsonaro não foi um estilo pessoal, mas um projeto de enfraquecimento das instituições democráticas, no qual o ataque aos direitos humanos e ao Estado Democrático de Direito era apresentado como purificação moral contra a corrupção e o comunismo.

O neoliberalismo, nesse arranjo, fornece a racionalidade complementar: “Estado máximo na economia e mínimo na política”.

Quer dizer: esvaziamento da democracia para que a acumulação capitalista não seja perturbada por escolhas populares e coletivas.

A política como mais alto grau civilizacional 

É aqui que a filosofia de Hannah Arendt – que nunca foi marxista – oferece o contraste mais radical. Para ela, a política não é um mal necessário, tampouco uma atividade suja a ser tolerada.

A política é a atividade humana mais elevada – diz a filósofa alemã – porque é nela que os seres humanos, na pluralidade de suas opiniões e interesses, aparecem uns aos outros como iguais e constituem um mundo comum por meio da ação (praxis) e do discurso.

Hannah Arendt distingue três esferas da “vita activa”:

1. O labor (animal laborans): a atividade que garante a sobrevivência biológica, presa à necessidade e ao ciclo repetitivo da vida.

2. O trabalho (homo faber): a fabricação de objetos duráveis que constituem o mundo material.

3. A ação (homo politicus): a atividade que se dá entre homens livres, por meio da palavra e do ato, e que cria o espaço público onde a liberdade pode e deve prevalecer.

O ponto decisivo é que Arendt considera o animal laborans e o homo faber apolíticos – e ambos tendem a denunciar a ação e o discurso políticos como “ociosidade”, julgando as atividades públicas por critérios de utilidade: para o homo faber, o que torna o mundo mais útil e produtivo; para o animal laborans, o que torna a vida mais fácil e longa.

A política, nessa perspectiva, não serve à sobrevivência nem à produção: ela existe para a liberdade, para o aparecimento de quem cada um é diante dos outros, e é justamente por isso que os espíritos utilitários a desprezam e a denunciam. 

A retórica antipolítica da direita é, à luz de Arendt, a expressão de uma redução da vida humana à mera sobrevivência e à produção.

Quando se diz que “político é tudo corrupto” ou que “o importante é gerir bem os recursos”, o que se está afirmando é que a liberdade política é dispensável, que o espaço público é um estorvo, e que a sociedade deve ser organizada como uma empresa ou como um organismo que apenas precisa de eficiência e ordem. O Estado não é uma empresa que deve gerar lucros.

Arendt via nessa inversão o grande perigo da modernidade: a vitória do animal laborans sobre o homo politicus, a substituição da preocupação com o mundo comum pela preocupação com a mera vida e com o consumo.

A política, reduzida a “sujeira”, deixa de ser o lugar onde os conflitos de interesse são politizados. Isto é, transformados em questões públicas, debatidas e decididas coletivamente para se tornar um obstáculo a ser contornado por gestores, técnicos ou os famigerados salvadores da pátria. 

A especificidade brasileira e a famigerada polarização 

No Brasil, esse desprezo da direita e da plutocracia pela política se combina com a operação de simetrização dos polos.

A retórica de que “todos são iguais” ou “tudo é corrupção” serve para diluir a responsabilidade do campo autoritário e, ao mesmo tempo, deslegitimar o campo democrático-popular que insiste em fazer da política o lugar da disputa distributiva e da soberania.

Se a política é intrinsecamente suja, então qualquer projeto que se apresente como “gestão técnica” ou “antissistema” ganha uma aura de pureza – mesmo que, na prática, governe para os mais ricos e ataque os direitos fundamentais.

A antipolítica da direita não é, portanto, uma crítica à má política em nome de uma boa política. É uma crítica à política enquanto tal, feita a partir de uma matriz utilitária que não reconhece na ação coletiva nenhum valor em si mesma.

É a recusa de Arendt: a recusa de que os seres humanos, na pluralidade de suas opiniões, possam constituir um mundo comum por meio da palavra e do ato.

Hannah Arendt nos ajuda a nomear o que está em jogo hoje, seja no Brasil ou no mundo todo.

Quando a direita trata a política como sujeira, ela não está apenas fazendo retórica eleitoral. Está desqualificando o único espaço em que a desigualdade e a dominação podem ser contestadas publicamente.

A política, para Arendt, é o indicativo de que alcançamos o mais alto grau civilizacional porque é nela que a liberdade se torna realidade visível.

Desprezar a política como “coisa de político” é, no limite, aceitar que a vida coletiva seja reduzida à administração da sobrevivência e à produção de coisas – um mundo sem espaço para o aparecimento da liberdade. Portanto, um mundo onde a luta de classes não pode nem sequer ser nomeada.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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