O filme adolescente sérvio “3 Semanas Depois” é cruel. E a crueldade vem dos jovens, todos amedrontadores e frios. Impressiona a maneira como o longa aborda uma prática que, durante muito tempo, naturalizamos: a perseguição sistemática de uns contra outros, movida pela mais pura crueldade. Hoje, essa prática ganhou um nome de origem norte-americana: bulliyng, que na tradução literal seria intimidação ao outro. Às vezes ocorre de forma tão violento, psicologicamente falando, que leva à morte. Mas a violência nem sempre se limita ao campo psicológico, muitas vezes ela se manifesta também em agressões físicas. Tudo isso está presente no filme do diretor Miroslav Terzic, exibido no Festival do Rio 2026.
Na história, a crueldade machuca também quem está assistindo porque ela não para e não tem redenção. O rapaz que sofre a perseguição é humilhado e fica o tempo todo calado. Excluído por todos, sem exceção. Em determinado momento, chegamos a acreditar que uma menina do grupo pode ser sua amiga, mas o enredo nos engana completamente.
O curioso é que tudo acontece três semanas depois de o amigo desse rapaz perseguido pelo grupo se matar na escola. Talvez imaginemos que esse acontecimento possa servir de lição para os perseguidores e que traga uma certa redenção para todos. Mas percebemos que não é isso que acontece e que a situação só piora.
Na verdade, a escola organiza uma excursão com o grupo justamente para tentar amenizar o trauma da tragédia da morte do menino. Mas o passeio para as montanhas, em contato com a natureza, não toca em nada a meninada. Aos poucos, percebemos que eles não estão em nada arrependidos e que, ao contrário, acreditam que a justiça foi feita. O grupo de adolescentes é tão cruel que até mesmo os professores, responsáveis pela excursão, têm medo deles. Meninas e meninos beiram o sadismo, pois as brincadeiras e os passatempos violentos são realizados entre si. Parecem um bando de pessoas sem nenhuma perspectiva de vida e futuro. Talvez seja essa a mensagem principal do filme. Afinal são crianças que cresceram em meio a conflitos de guerra dos adultos. Pessoas tentando se ajustar em meio ao caos geopolítico.
Mas, durante esse ‘passeio’ em direção à Bulgária, o ônibus quebra e o grupo é obrigados a ficar preso em um hotel em meio às montanhas. A partir daí, o cotidiano do menino perseguido vira mais inferno ainda. Até porque foge ao controle e aos olhos dos dois adultos responsáveis. Assim as humilhações psicológicas e as ameaças passam às vias de fato, culminando em agressões físicas contra o garoto. Agressão e humilhação se juntam numa noite de terror. E enquanto tudo acontece, uma das meninas, cruelmente, navega pelo celular, indiferente à violência. Ou ao menos tentando se fazer indiferente. Porque, se pensarmos bem, num painel em que todos são cruéis e donos de um posicionamento radical, se colocar em oposição isolada do grupo pode ser também um risco pra própria pele. Mas isso é um raciocínio generalizado para pensarmos essas situações, contudo não é isso que aparenta no filme. A menina realmente se mostra entediada com a sessão de tortura, e isso é suficiente para que eles interrompam a malvada recreação.
Filmes como esse nos mostram o absurdo de uma educação pautada na indiferença pelo outro. Se refletirmos sobre essa situação, que na verdade é comum a todos os países, pensamos que isso é um reflexo que começa na família, sobretudo em se tratando dos agressores. Mas é curioso pensar e apostar que os perseguidos também podem ser perseguidores, de acordo com o seu posicionamento.
O filme tem o seu auge e sua redenção, mas pelo viés apocalíptico. O pior é que pode ser perigoso nos sentirmos satisfeitos com o desfecho final. Não percam “3 Semanas Depois”.
* Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

