O documentário sobre Cláudio Marzo é uma cinebiografia que nos envolve no universo de um ator, de um homem e de um artista em toda a sua essência humana. De tal maneira que é impossível não passar a simpatizar mais e mais com as posturas, trajetórias, posições, escolhas e senso de liberdade vital do ator. Já pelo título do filme, “Cansei de Ser Galã”, percebemos uma personalidade que renega os louros da fama pelo viés da futilidade da classe.
Cláudio é um ator visceral. Entrega-se à arte a partir da responsabilidade social também. Quando vai ver teatro pela primeira vez e decide que quer fazer aquilo, entrega-se ao ofício com poesia e labuta. O fato de ter sido considerado bonito e charmoso pelo público não está no seu radar de comprometimento. Ele se dedica ao trabalho com destreza e empatia pelos personagens. Suas escolhas são severas e ele pensa em contribuir e não só ir em busca de reconhecimento. Ele entende um trabalho pelo caminho da sua liberdade e da sua posição sobre o mundo. Coletivo e indivíduo andam juntos no pensamento sobre a vida desse magnânimo ator.
Mas ele se entrega à vida. Em alguns depoimentos você percebe que, antes de mais nada, Cláudio estava atrás de algo maior, um tipo de descoberta que o fizesse entender o sentido real da vida. Isso podia estar junto a alguns trabalhos em certos momentos, mas por vezes também passava ao longe de se dedicar a arte. É como se Cláudio fizesse da vida a continuidade da arte e toda essa arte estivesse diretamente ligada ao envolvimento com as pessoas. E é assim que pensamos num ator que se fez presente de corpo e alma e na mesma medida, se entregou a ambas as partes. Vida como arte e arte como vida.
Marzo se envolveu na política e sempre se posicionava como artista de esquerda, dando declarações pra lá de incomuns no meio de uma classe que nem sempre se posicionava, ou se envolvia de forma orgânica. Mas ele não. Suas questões eram humanas e de justiça. Ele tentava também se desglamourizar através de seus personagens e de seus trabalhos.
Num filme de Murilo Salles sobre o fim da ditadura e sobre a luta armada, de 1984, o impecável “Nunca Fomos Tão Felizes”, Cláudio Marzo constrói um militante que reencontra o filho e precisa deixar no ar a verdadeira ocupação dele. O título já é uma ironia sobre tempos em que nada podia ser falado e tudo deveria ser mascarado. E essa camuflagem ia do macro de um país ao micro de um núcleo familiar desestruturado. O ator constrói um tipo de personagem que se revela em poucas palavras, contudo em muita intensidade. Cláudio foi de uma abnegação à vida para a construção das cenas que impressiona, assim como a proeza de fazer uma história de imensa capacidade dramática.
“Cansei de ser Galã” é um documento de alto nível de um ator que foi sério e concentrado no que fez, mas também de um cidadão que soube se colocar em momentos seminais da vida. Um homem que se entregou em sua verdade, ainda que muitas vezes não soubesse exatamente qual era ela. Era um ser humano em busca incansável. Uma procura de si mesmo e olhando a estrada que o filme percorreu, temos a impressão de que a vida foi pouca pra ele ainda. Faltava muito a entender consigo mesmo. O fio da vida pode ser um mistério. Para o artista brasileiro, pode ser o espelho de toda uma nação.
Cláudio Marzo amou, sentiu, pensou e se entregou a um país inacabado, como somos todos nós brasileiros. Mas isso só prova que a arte é tão grandiosa e complexa quanto a vida. Conheçam esse ator brilhante que foi Cláudio Marzo. Um ator que tinha coragem de correr o risco e o risco de ser quem ele queria ser.
O documentário, de Bento Marzo e Eduardo Ades, é uma declaração de amor ao artista, mas também a nós, brasileiros, antes de tudo. Não percam! O Festival do Rio 2026 foi muito feliz ao incluir esse documento cinematográfico de primeira na seleção desse ano, e o Brasil de Fato se orgulha de artistas como esse.
* Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta e da produtora Poética Marginal.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

