LITERATURA INSÓLITA

Colunista do Brasil de Fato, Carlos Castelo explora horror e humor em ‘In Extremis’

Autor de mais de 20 livros, escritor piauiense reúne 34 contos em nova obra publicada pela Teju Jagua

Em pré-venda pela editora Teju Jagua, ‘In Extremis’, de Carlos Castelo, reúne 34 contos de horror e literatura insólita
Em pré-venda pela editora Teju Jagua, ‘In Extremis’, de Carlos Castelo, reúne 34 contos de horror e literatura insólita | Crédito: Divulgação

O piauiense de Teresina Carlos Castelo, colunista do Brasil de Fato, é um escritor do insólito e do horror. Tudo com ótimo humor, com toques de inspiração e realidades diferenciadas de Edgar Allan Poe e Ambrose Bierce, dois autores que escreviam textos macabros e de humor. No novo livro, “In Extremis”, em pré-venda pela editora Teju Jagua, ele explora com maestria esse estilo.

Castelo escreve com alegria e humor sobre o cotidiano e seus descompassos e regras conhecidas. Mostra situações corriqueiras que são transformadas em fatos monstruosos.

Aos 68 anos, tem também uma carreira jornalística agitada. Não para. Escreve para várias publicações, entre elas Estadão, Rascunho, O Dia, Fórum, Brasil 247 e o Brasil de Fato, no qual publica crônicas e aforismos. No Estadão, trabalha no caderno E+ (Entretenimento), com crônicas usando sempre uma linguagem alegre e sarcástica. Escreve também sobre literatura.

Atualmente, mora em São Paulo. “Não tenho ainda planos de ir a feiras, vamos ver o que acontece após o livro sair no mês que vem pelo país afora”, diz. O nome completo do escritor é Carlos Antônio de Melo e Castelo Branco.

“In Extremis” tem 204 páginas e 34 contos. Castelo diz que as narrativas exploram o horror psicológico. A expressão latina in extremis, que significa “no último momento” ou “em situação extrema”, dá nome a histórias protagonizadas por personagens diante de circunstâncias-limite. Ao longo das narrativas, as fronteiras entre vida e morte, razão e delírio, natureza e sobrenatural tornam-se cada vez menos definidas.

Formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo, é autor de mais de 20 livros e transita pela crônica, pelos aforismos — as chamadas Casteladas — e por narrativas que exploram o humor ácido e os absurdos do dia a dia. Entre suas obras estão “Risos no hospício”, “Dentro de mim mora a sombra” e “Orações insubordinadas”. Publicado em 2025, “Dentro de mim mora a sombra” marcou sua estreia na literatura insólita.

Atividades variadas

Com atividades variadas, também transita na música e no humor. É um dos sócios-fundadores e idealizadores do célebre grupo de humor musical Língua de Trapo, surgido nos anos 1980, assinando letras de canções conhecidas como “Concheta”, “Xingu Disco” e “Os Metaleiros Também Amam”. Também foi cocriador do álbum “O Último CD da Terra” (2016), indicado ao Grammy Latino.

Tem também carreira premiada no setor publicitário, incluindo reconhecimentos no Festival de Cannes, na França, e atuou em grandes agências ao longo de sua trajetória. Sobre isso escreveu:

“Quem faz criação publicitária acaba tendo um sem-número de duplas. Tive diretores de arte de todos os temperamentos: falantes, taciturnos, ansiosos, emburrados, marrentos. Um deles, ainda hoje meu amigo, praticava surfe como religião. Fazia bate e volta de São Paulo ao Guarujá, saindo de madrugada para voar sobre a prancha. No escritório, o mar também aparecia. Em qualquer briefing.

Fazíamos um anúncio para tratores quando ele se inclinou sobre o rough:

— Imagina esse visual: um marzão azul, ondas fortes… e o trator em cima da água.

Olhei para o layout.

— E a mensagem? — perguntei.

— O campo encontra o mar.

Na reunião, o cliente ouviu a proposta em silêncio. Depois perguntou se o trator podia aparecer numa plantação de batatas. Meu amigo anotou: território conservador. E pediu mais um tempo para explorar caminhos.

Nos dias seguintes, tentou o oceano para sandálias, absorventes e até uma campanha de vinhos. Ele queria mostrar a garrafa do produto com uma mensagem chegando pela maré. A campanha foi veiculada. Trator no campo, céu azul, tudo como esperado. O diretor de arte não disse nada. Mas a expressão dele era a de quem nunca tinha visto um anúncio tão seco.”

Carlos Castelo é um escritor do insólito e do horror
Carlos Castelo é um escritor do insólito e do horror | Crédito: Arquivo pessoal

A larva e seu alimento

Castelo contou ao Brasil 247 que, na narrativa de abertura de “In Extremis”, uma larva que se alimenta de um cadáver começa a absorver as memórias e a consciência do morto. A história aborda questões relacionadas à identidade e à possibilidade de sobrevivência para além da existência física.

Em outro conto, chamado “Mãe”, uma cultura de fermentação natural transforma a rotina de uma família em um pesadelo orgânico. Já em “O último fruto”, um casal em situação de rua encontra uma cidade misteriosamente deserta, em uma trama que aproxima questões sociais de elementos do imaginário apocalíptico.

Outros contos partem de situações aparentemente banais. Em “Café da manhã”, uma conversa cordial durante uma hospedagem se transforma gradualmente em uma experiência aterradora. Em “Os dezenove iguais”, um concurso literário sobre inteligência artificial e terror tecnológico conduz a questões sobre autoria, repetição e perda de identidade.

“Carlos Castelo escreve com a caneta numa mão e a ironia na outra”, segundo definição da Agência Pública. “Entre a melancolia e a gargalhada, cultiva o sarcasmo como quem cuida de um jardim. É especialista em debochar de um Brasil – e de um mundo – que insistem em se levar a sério demais”, acrescenta a apresentação. Ele também se define como um frasista.

As histórias percorrem diferentes ambientes, das ruas de São Paulo às paisagens do interior do Brasil. Espaços domésticos e territórios associados a crenças populares também integram o universo criado pelo escritor.

A coletânea incorpora elementos do horror corporal, do terror existencial, da ficção especulativa e das tradições populares brasileiras. Entre os temas abordados estão a degradação física, a solidão, as transformações dos seres vivos e a presença de forças ancestrais que escapam à compreensão humana.

É admirado pelos leitores. Uma delas, Camila Caetano, disse no Instagram: “Acabo de me dar conta que ler seus textos faz parte da minha rotina matinal. Mal sabem eles o quão está complexo achar oxigênio no oceano seco dos dias de hoje”.

Crônica no Rascunho

O jornal de literatura Rascunho publica as crônicas de Castelo. Entre tantas, aqui vai uma, muito interessante, com a devida licença do autor.

O filósofo de coquetel

Um homem que troca experiências por poses transforma cada visita a museus em performance e revela o encanto raso de parecer profundo

Ari Nhotim não nasceu, foi inaugurado. Com direito a vernissage, vinho branco morno e um discurso sobre a curadoria da própria existência. Desde cedo, demonstrou sinais de erudição seletiva: aos oito anos, já dizia que não gostava de brincar de bola porque preferia experiências lúdicas mais conceituais. O que, traduzido, significava empilhar tampinhas e chamar de instalação.

Seu nome não é coincidência. Ari Nhotim vai a espaços culturais não para ver, mas para ser visto — vendo. Caminha placidamente entre as obras, mãos para trás, testa franzida, parecendo decifrar o sentido da vida, quando, na verdade, tenta lembrar o nome do artista que acabou de ler na plaquinha.

Ele domina a arte do comentário vazio com uma precisão quase científica. Diante de uma tela branca, murmura: “Interessante como o silêncio visual dialoga com o caos interno do observador”. Como acontece nesses ambientes, todos em volta acham uma sacada inteligentíssima. Afinal, ninguém quer se revelar menos culto do que aquele cidadão tão letrado. O que, diga-se de passagem, é mais fácil do que parece.

Ari Nhotim tem um vocabulário próprio, composto por palavras como “ressignificação”, “interseccionalidade estética” e “ruptura narrativa”, usadas de forma aleatória, como tempero em comida ruim: não melhora, mas disfarça.

Seu maior medo é ser descoberto. Por isso, evita as perguntas diretas. Quando alguém lhe pede opinião sobre um livro, responde:

— Prefiro não limitar a obra a uma interpretação linear.

Traduzindo: não leu.

Quando indagado sobre um filme de arte, costuma dizer:

— A experiência sensorial supera a narrativa.

Traduzindo: dormiu no meio do longa-metragem.

Mas é em Inhotim, o lugar real, que Ari Nhotim atinge seu auge. Lá é onde se sente em casa, ou melhor, em exposição. Tira fotos despretensiosas, sempre olhando para o horizonte, como se estivesse contemplando alguma coisa profunda, quando, na verdade, está tentando dar a ideia de que contempla algo insondável.

Ele não aprecia a arte, mas a ideia de ser alguém que aprecia a arte. É um colecionador de impressões, nunca de experiências. Sai dos lugares com mais fotos do que memórias, mais frases prontas do que pensamentos próprios.

E, no entanto, há algo admirável em sua pessoa. A dedicação é inegável. Ser raso com tanta consistência exige muito esforço. E ele estudou: não os conteúdos, mas as poses. Pois, em um mundo onde parecer é mais importante do que ser, Ari Nhotim é, sem dúvida, um grande mestre.

Por outro lado, se repararmos bem, talvez todos tenhamos um pouco dessa profundeza da superfície de Ari Nhotim. Na real, ele só tem mais prática.

Referências literárias

Edgar Allan Poe foi um escritor, editor e crítico literário estadunidense, integrante do romantismo em seu país. Nasceu em 1809, em Boston, e morreu em Baltimore, em 1849, aos 40 anos. Deixou vasta produção de horror, com destaque para “O Corvo”, “O Gato Preto” e “O Solar Maldito”.

Ambrose Bierce foi um crítico satírico, escritor e jornalista estadunidense, particularmente conhecido pela obra “O Dicionário do Diabo”. Seus contos foram reunidos em português no volume “Os Contos Completos de Ambrose Bierce”, publicado em 2010 pela Eucleia Editora. Nasceu em 1842, no condado de Meigs, em Ohio, e desapareceu no México em 1913, aos 71 anos. As circunstâncias de sua morte permanecem desconhecidas.

Editado por: Marcelo Ferreira

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