Pós derrota de Trump

COP31, Asean, Mercosul, G20: Lula aproveita reveses da extrema direita para fortalecer multilateralismo

Planalto vê espaço para ampliar alianças e normalizar relações com os EUA após reeleição de Lula e midterms

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumprirá agendas internacionais enquanto compõe seu próximo governo.
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumprirá agendas internacionais enquanto compõe seu próximo governo. | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia na próxima semana uma série de compromissos internacionais: a COP31, na Turquia; a cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), nas Filipinas; o Mercosul, no Uruguai; e o G20, nos Estados Unidos. Reeleito para um quarto mandato, Lula pretende aproveitar os encontros para fortalecer o multilateralismo, em meio às derrotas eleitorais do presidente estadunidense Donald Trump.

A avaliação de fontes do Palácio do Planalto ouvidas pelo Brasil de Fato é que a vitória de Lula no Brasil e a derrota dos republicanos nas eleições legislativas dos EUA abriram uma oportunidade para recuperar a cooperação internacional, enfraquecida pela política unilateralista de Trump.

Somam-se ao cenário de reveses, ainda, o resultado das eleições em Israel, em que Benjamin Netanyahu não conseguiu formar maioria para seguir governando, e a renúncia de Santiago Peña, no Paraguai, um dos aliados mais fiéis à política estadunidense na América Latina.

O governo brasileiro também identifica condições mais favoráveis para normalizar as relações diplomáticas com os estadunidenses e para abertura de novos mercados a partir de relações bilaterais.

A defesa do multilateralismo marcou o discurso do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, na Cúpula Ibero-Americana, realizada nesta quinta-feira (5), em Madri. Representando Lula, o chanceler criticou as políticas de hegemonia e as esferas de influência, defendeu uma ordem internacional baseada na cooperação e condenou o bloqueio estadunidense a Cuba. “A era das arrogâncias unilaterais, dos protetorados e da diplomacia da força já passou”, afirmou Vieira.

Clima e Ásia serão prioridades do quarto mandato

A primeira viagem internacional de Lula após a reeleição será à COP31, em Antália, na Turquia. O presidente participará da cúpula de líderes nos dias 11 e 12 de novembro, quando o Brasil encerrará sua presidência da conferência climática, exercida desde a COP30, realizada em Belém (PA).

O discurso de Lula deverá enfatizar a importância da ciência, do financiamento climático e do cumprimento dos compromissos internacionais. O governo brasileiro pretende defender instrumentos como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), as metas de redução de emissões e o combate ao desmatamento.

Na terça-feira (3), a presidência brasileira da COP30 apresentou dois mapas do caminho, com propostas para acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis e interromper a devastação florestal. Os documentos serão levados à conferência na Turquia como parte do legado brasileiro.

Depois da COP31, Lula seguirá para as Filipinas, onde terá uma agenda bilateral com o governo local e participará da cúpula da Asean, prevista para começar no dia 15. A visita integra a estratégia de diversificação das relações comerciais e diplomáticas do Brasil.

Segundo avaliações compartilhadas no Planalto, a aproximação com a Ásia deverá ser uma das prioridades da política externa no quarto mandato. O interesse brasileiro vai além da abertura de mercados para produtos agropecuários e inclui cooperação em ciência, tecnologia e inovação.

Lula e o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, durante encontro em Jacarta, em outubro de 2025; aproximação com países asiáticos é uma das prioridades da política externa brasileira para o quarto mandato. (Foto:  Ricardo Stuckert /PR)

Planalto vê oportunidade para normalizar relações com os EUA

A derrota dos republicanos nas eleições legislativas é interpretada pelo governo brasileiro como um fator de enfraquecimento da estratégia de Trump para a América Latina. A avaliação é que, passada a eleição presidencial brasileira, a continuidade das hostilidades contra o governo Lula traria poucos benefícios políticos ao presidente estadunidense.

A expectativa, porém, não é de uma mudança imediata na política externa dos EUA, mas de uma normalização pragmática das relações bilaterais. O Planalto considera que os interesses convergentes entre os dois países são maiores do que as divergências e não identifica motivos estratégicos para uma nova escalada de tensões.

Entre os problemas que o governo brasileiro pretende superar estão as restrições à concessão de vistos e à circulação de autoridades, agravadas durante os ataques do governo Trump ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao processo eleitoral brasileiro. A situação também envolve o tratamento dispensado à embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, e a autorização para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília.

O ministro Mauro Vieira participará, nos dias 9 e 10 de novembro, de uma reunião de chanceleres do G7, em Paris, na França, onde há possibilidade de uma conversa bilateral com o secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, que poderá contribuir para a retomada da normalidade diplomática.

As negociações comerciais, por outro lado, continuaram mesmo durante os momentos de maior tensão. A última reunião oficial entre representantes dos dois governos sobre o tema ocorreu em setembro, nos EUA.

Lula e Trump estão confirmados na agenda internacional de dezembro, quando ocorrerá a cúpula do G20, em Miami, nos dias 14 e 15. Até quinta-feira (5), nenhum dos governos havia solicitado formalmente uma reunião bilateral entre os presidentes.

Integração regional enfrenta obstáculos

Antes do G20, Lula deverá participar da cúpula de chefes de Estado do Mercosul, marcada para 4 de dezembro, em Montevidéu, no Uruguai. A reunião ocorrerá em meio às dificuldades de integração do bloco, especialmente pelas divergências entre o governo brasileiro e o presidente argentino, Javier Milei.

No Planalto, a avaliação é de que, mesmo com as travas impostas por Milei, a integração sul-americana precisa avançar a partir de interesses comuns, mesmo entre governos com orientações políticas distintas. A cooperação no combate ao crime organizado, na segurança das fronteiras e na proteção da Amazônia e outros biomas compartilhados aparece entre as possibilidades para fortalecer as relações regionais.

A aprovação da PEC da Segurança Pública pelo Senado, na terça-feira (3), também deve fortalecer essa dimensão da política externa brasileira. A proposta, que aguarda promulgação, amplia a atuação da Polícia Federal em crimes de repercussão internacional e a coordenação do governo federal no setor. Na avaliação do Planalto, o enfrentamento às organizações criminosas que atuam além das fronteiras brasileiras exige maior cooperação policial e diplomática com os países vizinhos.

De acordo com as fontes ouvidas pelo Brasil de Fato, o governo brasileiro também não trabalha com a expectativa de uma mudança radical na política dos EUA para a América Latina após as eleições legislativas. A aposta é preservar relações pragmáticas, ampliar parcerias comerciais e fortalecer os mecanismos de cooperação internacional sem abandonar posições brasileiras sobre soberania, democracia e mudança climática.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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