Assista

‘Entramos na história’: lançamento de documentário do BdF sobre alfabetização popular traz debate com educandos e educadores em SP

'Mãos que Educam, Mãos que Alimentam' mostra como método e luta contra a fome transformaram a vida de 18 mil pessoas

Lançamento de documentário do BdF trouxe debate no Sesc São Bento, em São Paulo
Lançamento de documentário do BdF trouxe debate no Sesc São Bento, em São Paulo | Crédito: Vitor Shimomura

Ao ver educadores e educandos retratados no novo documentário do Brasil de Fato, “Mãos que Educam, Mãos que Alimentam”, é possível entender como “entramos na roda da história”. A percepção é da pedagoga e militante do MST Paula França, que foi uma das debatedoras durante o lançamento do filme exclusivo do BdF realizado no Sesc São Bento nesta sexta-feira (6).

“Nas jornadas de alfabetização, nós víamos filmes da década de 1960, quando alunos do método cubano liam cartas para o presidente, como foi na Nicarágua. Hoje, são os educandos que podem se ver nesse filme. Nós vemos como entramos na roda da história”, disse.

O evento marcou a estreia do documentário que retrata histórias de vida impactadas pelas jornadas de alfabetização e das cozinhas solidárias promovidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) por meio do projeto Mãos Solidárias.

Também fizeram parte da mesa de debates a educanda Janeide Barbosa, o membro da coordenação nacional do Mãos Solidárias David Zamori, e o deputado estadual Eduardo Suplicy.

“É um projeto muito rico de saberes e de histórias”, contou Janeide. Ela foi uma das pessoas alfabetizadas nas jornadas em São Miguel Paulista, no estado de São Paulo. Além disso, ela coordena uma cozinha solidária e foi daí que veio a oportunidade de retomar os estudos.

“Eu sou do Nordeste, venho do Agreste de Pernambuco, onde não havia muita familiaridade com a escola. A emoção foi demais. Só quem vive que sabe o momento que a gente passa e teve no nosso dia a dia, na nossa vida”, disse.

As jornadas nasceram no seio do programa Mãos Solidárias, que tinha como centro inicialmente as cozinhas solidárias, iniciativa encabeçada pelo MST durante a emergência sanitária da Covid-19. Com o aumento da fome e da pobreza, diversas cozinhas foram abertas para produção de refeições que eram distribuídas à população vulnerável.

“A jornada de alfabetização chega da necessidade de fazer mais”, explicou David Zamori. “A alimentação é uma parte, há muito mais para ser feito. Hoje, além de fortalecer os trabalhos das cozinhas, o Mãos Solidárias busca formas de fazer mais, entrar com outros projetos para fortalecer a organização nos bairros”.

Para o militante do MST e um dos coordenadores do projeto, o personagem principal da jornada “são os educandos, os que se propuseram a todo dia ir fazer aula”.

“Esse método depende da pessoa ir todo dia às aulas. Isso é um esforço enorme, a gente sabe. Para pessoas idosas, avós e avôs, há muita demanda em casa, então foi um esforço grande”, afirmou.

Ao longo de um ano, a iniciativa reuniu cerca de 18 mil educandos e 1,5 mil educadores em mais de 1,3 mil turmas de alfabetização espalhadas pelo país. O documentário percorreu territórios de Pernambuco, Paraíba e São Paulo, onde cozinhas populares, garagens e associações de moradores se transformaram em espaços de aprendizagem.

Método cubano

Um dos destaques do projeto é a utilização do método cubano “Sim, eu posso”. Criado por Cuba na década de 1990, ele já foi aplicado em vários países e é responsável pela alfabetização de mais de 10 milhões de pessoas em todos os continentes.

Paula França explicou as raízes do método e lembrou que, no Brasil, o responsável por guardar o projeto é o MST.

“A primeira experiência foi em 2006, no Piauí. O método se mostrou eficaz, com 80% de êxito, então decidimos espalhar. As experiências principais no início foram nos assentamentos do MST e só depois passamos a atuar junto com o poder público”, contou.

A pedagoga também explicou que o método é totalmente pensado e voltado para a formação de pessoas adultas, pois conta com vídeos em formato de “novelas” e “com a associação entre letras e números”, por isso tem pouca evasão e muita eficácia. “Isso faz com que esse aprendizado seja mais rápido.

Um exemplo bom, lembra França, foi na Venezuela. “Eles conseguiram erradicar o analfabetismo em várias edições da Missão Robinson, no período do ex-presidente Hugo Chávez”, disse.

‘Bom documentário’

O deputado estadual Eduardo Suplicy elogiou o documentário e disse que ele “retrata boa parte da vida do povo que vive em dificuldade social”.

“O documentário é bom para conhecermos as dificuldades dos personagens dessa história. Ele contribui para que tenhamos melhor consciência da situação socioeconômica de muitos brasileiros”, destacou.

Suplicy ainda lembrou do seu projeto de criação de uma renda básica de cidadania e disse que “se [o projeto] já estivesse em vigor, a condição de vida dos personagens do documentário teria mudado completamente”.

Produzido pelo Brasil de Fato e pelo Centro Popular de Mídias, o documentário tem realização do Instituto Federal do Paraná e do Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi). A direção é de Afonso Bezerra, com produção executiva de Ana Rosa Carrara e Cibele Lima. A direção de fotografia é de Vitor Shimomura, a direção de arte, de Beatriz Zupo, e a montagem, de Gabriela Peres.

Editado por: Gia Matheus Almeida

|

Newsletter