O curso de água que abastece a comunidade indígena do Parque do Mate, em Campo Largo (PR), na Região Metropolitana de Curitiba, está seco há cinco meses. As famílias da retomada indígena kaingang, que ocuparam o espaço desde 2022, denunciam a irregularidade do abastecimento hídrico. Esse córrego existe desde o antigo engenho, no fim do século 19.
O Parque Histórico do Mate, também conhecido como Antigo Engenho de Mate da Rondinha, é um remanescente da economia ervateira paranaense. Construído por volta de 1870, o conjunto preserva a tecnologia dos engenhos hidráulicos que utilizavam a água do Rio Rondinha, desviada por um canal, para movimentar a roda d’água e acionar o maquinário.
Tombado pelo Estado do Paraná em 10 de julho de 1968 (Processo 19/68) e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1985, o local é um patrimônio histórico. Após anos de abandono pelo poder público, encontrou na comunidade indígena kaingang da aldeia Kógunh Já Má seus atuais guardiões.
O açude que abastecia o parque e a comunidade está seco. A água vem do Rio Rondinha, através de um desvio artificial que abastecia o antigo engenho. Esse desvio, que alimentou o desenvolvimento econômico do Paraná, foi interrompido, deixando a comunidade indígena sem acesso à água.

Omissão que enfraquece a luta indígena
O cacique Jafé Cassemiro, liderança da aldeia, relata que, quando chegaram, o açude estava cheio de peixes e o rio alimentava não apenas a comunidade com comida, mas também com lazer. “A água descia para o açude. As crianças se banhavam, pescavam, a gente irrigava as hortas. Agora não dá nem para jogar uma linha de anzol”, lamenta.
Ele conta que a interrupção não é a primeira, mas tem sido a mais longa e dolorida. Vivem ali 38 famílias, incluindo mais de 60 crianças.
O abandono do Parque do Mate antecede a ocupação indígena. De acordo com a professora Emi Lorenzetti, do curso de Tecnologia em Agroecologia do Instituto Federal do Paraná (IFPR) – campus Campo Largo, o local estava inativo e sem manutenção há mais de uma década, com a estrutura se deteriorando.

Desde 2022, os indígenas que ocuparam o local têm mantido o território. A comunidade realiza a limpeza da área, o plantio árvores nativas, como as araucárias, e a manutenção do espaço. Jafé relata o acordo feito com o governo para assumir o cuidado com o espaço: “A gente fez várias reuniões com o estado, com o município, em que eles afirmaram [a permissão] de ficar aqui, com um termo de compromisso, de cuidar aqui do Parque do Mate”, explica.
Enquanto cuidam do território, sofrem com o corte de água, que atinge diretamente a segurança alimentar e nutricional da comunidade. “Sem essa fonte, fica inviável qualquer projeto, até mesmo para a sustentabilidade do local”, afirma a professora Lorenzetti, que acompanha a retomada indígena desde o início. Ela lembra que os peixes que habitam o lago estão morrendo na lama: “Onde há água, há vida. E hoje a comunidade está sendo privada disso.”
O que diz o poder público?
Em janeiro de 2026, o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção aos Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná (MPPR) fez uma visita institucional à aldeia Kókhun Já Má, no Parque do Mate, a convite da própria comunidade. A visita teve como objetivo conhecer as condições de moradia e planejar ações futuras de infraestrutura coletiva, incluindo saneamento, iluminação e acesso à água e energia elétrica.
Na ocasião, foi produzido um relato formal ao órgão com a necessidade de regularização do fornecimento de água e energia elétrica para as moradias. As demandas foram registradas pelo MPPR para análise e eventual articulação institucional.
Procurado pelo Brasil de Fato Paraná, o MPPR esclareceu que a 4ª Promotoria de Justiça de Campo Largo, responsável pelo acompanhamento da questão hídrica, tem um procedimento administrativo em curso para monitorar os impactos ambientais na aldeia. No entanto, segundo o órgão, “até o momento não chegou à Promotoria notícia relacionada ao citado esvaziamento de um açude devido ao bloqueio de um desvio do Rio Rondinha.”
O MPPR informou ainda que, na 1ª Promotoria de Justiça, tramita o Procedimento Administrativo nº MPPR-0023.23.000778-5, que acompanha as tratativas de formalização da reivindicação territorial e outras diligências estruturantes.
A prefeitura de Campo Largo informou que o caso é de responsabilidade do governo do Paraná e do Instituto Água e Terra (IAT), entidade autárquica vinculada à Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo.
Procurado, o IAT respondeu, em nota, que localizou no sistema oficial três “Declarações de Uso Insignificante” para captação superficial no Arroio Rondinha, afluente do Rio Verde, destinadas à irrigação de olerícolas. Segundo o IAT, a licença é para “pequenas parcelas de água” e uma equipe de fiscalização deve ir ao local verificar irregularidades. O órgão não explica como captações “insignificantes” teriam o poder de secar um açude histórico e deixar a comunidade sem água.

A atuação da Funai e o Grupo de Trabalho
O indigenista Mauro Leno Silvestrin, servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e que acompanha o caso, esclarece que a situação do Parque do Mate é tratada por um Grupo de Trabalho (GT) interinstitucional, que reúne diversas secretarias estaduais, órgãos federais (como o próprio IAT, a Funai e a Defensoria Pública da União), o MPPR, a Defensoria Pública do Paraná, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o IFPR. Segundo ele, todas as decisões relativas ao parque e à comunidade indígena passam por essa instância colegiada.
Silvestrin explica que é necessário um processo de desassoreamento do rio para restabelecer o fluxo da água — o que já foi encaminhado pelo GT. A execução dos mutirões de limpeza depende da compra de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para garantir a segurança dos voluntários.
Segundo ele, a Secretaria de Cultura do Estado e o IAT ficaram responsáveis por tentar adquirir esses equipamentos, e a Defesa Civil foi consultada sobre a possibilidade de doação. “Estamos aguardando a compra desses equipamentos de proteção para poder fazer os mutirões e desassorear o rio”, afirma o indigenista.
Jefé conta que as famílias já subiram o córrego para desassorear o curso em duas ocasiões, mas que, dessa vez, o poder público pediu para a comunidade aguardar medidas do Estado.
Como se deu a denúncia
A denúncia sobre a seca do açude que abastecia o parque foi feita pelos próprios indígenas durante um encontro da Rede EcoAção Socioambiental RMC, projeto executado pelo Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), em parceria com a Itaipu Binacional.
A rede aplica questionários e se reúne com catadores, agricultores familiares, povos originários, comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e instituições de ensino. A partir dos dados, um dos objetivos da iniciativa é consolidar “diagnósticos participativos” e articular comunidades e grupos da Grande Curitiba.


