A recepção ao Papa Leão XIV no Uruguai transcorreu em um clima de união institucional democrática. O atual presidente uruguaio, o esquerdista Yamandú Orsi, convidou para a solenidade na Plaza de la Independencia três ex-mandatários de direita.
Em seu discurso de boas-vindas, o presidente Orsi destacou a estabilidade geopolítica do país e a convivência pacífica entre os diferentes espectros políticos uruguaios. “Recebe-o este país, Uruguai. Um país onde o governo, os cidadãos que foram presidentes por diferentes partidos políticos, junto com o nosso povo, podemos nos sentar todos juntos, em paz e com alegria, para oferecer-lhe este abraço de boas-vindas”.

Por sua vez, o Papa Leão XIV elogiou a maturidade democrática e as conquistas socioambientais da nação sul-americana. “Em 2025, completaram-se quarenta anos ininterruptos de democracia no Uruguai, durante os quais, por decisão dos cidadãos, se sucederam diferentes governos. A autoridade pública encontra a sua razão de ser no serviço ao bem comum e é chamada a ser exercida no âmbito da ordem jurídica, respeitando a liberdade e a responsabilidade dos cidadãos”, declarou o pontífice.
Meio ambiente e inteligência artifical
Os discursos do pontífice e do presidente convergiram em diversos pontos, como ao falarem da importância de questões ambientais. Leão XIV ressaltou a transição energética do país como exemplo global: “Nas últimas décadas, o Uruguai transformou profundamente a sua matriz de produção de energia elétrica, que hoje se baseia quase inteiramente em fontes renováveis. Trata-se de um resultado notável que exigiu decisões sustentadas ao longo de anos e a participação de diversos setores.”
Ambos trataram ainda dos possíveis impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Orsi citou a encíclica Magnifica humanitas (2026) para alertar sobre limites éticos. “O avanço tecnológico não pode ir contra o inerente à nossa condição humana; e, quando afeta negativamente o emprego, não podemos apenas pensar em termos de porcentagens, reconversão ou em chave de mera subsistência. Estamos diante de um dilema antropológico-social que o senhor identificou claramente”, apontou o presidente uruguaio.
Alinhado a essa preocupação, Leão XIV enfatizou o valor central da dignidade humana frente às inovações técnicas. “O desenvolvimento destas tecnologias deve ampliar as capacidades humanas, facilitar as tarefas e criar possibilidades, procurando garantir que a pessoa que trabalha não seja reduzida a uma mera peça dispensável em meio ao processo produtivo”, pontuou o Papa, citando ainda o ensinamento da encíclica Laborem Exercens (1981): “Convém recordar que ‘o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho’”.
Por fim, a defesa da diplomacia e da cooperação global encerrou a fala de Orsi, que defendeu a mediação como único caminho para o equilíbrio global. “O multilateralismo é muito mais que uma opção, é o convite permanente para nos sentarmos à mesa e evitarmos confrontos que, a esta altura, sabemos que podem adquirir dimensões catastróficas. Para a humanidade, a paz, o diálogo e a negociação são o único caminho possível”, concluiu.

