Dez dias depois do segundo turno das eleições presidenciais, indígenas de diferentes povos caminharam do Largo da Candelária até a Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, na quarta-feira (4), para denunciar a violência política contra comunidades indígenas e cobrar a demarcação de terras. O ato foi articulado principalmente pelos coletivos de estudantes indígenas da Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), com a participação de aldeias do estado, outros coletivos indígenas, sindicatos, movimentos sociais e diferentes setores da sociedade civil.
A manifestação foi motivada sobretudo pelas denúncias de ataques contra os Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul, após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além de exigir proteção às comunidades ameaçadas e investigação dos casos, os manifestantes aderiram à campanha #AssinaLula, que cobra do governo federal o avanço da demarcação de 73 terras indígenas, que aguardam só a assinatura presidencial.
O ato integrou uma mobilização nacional, com manifestações também divulgadas em Brasília, Belo Horizonte e Iguatu (CE), segundo o Exército dos Povos Indígenas, uma das articulações responsáveis pela convocação nas redes sociais.
Violência política após eleições
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) reuniu mais de 30 denúncias de violência contra indígenas durante o período eleitoral, com destaque para os Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul. Os relatos incluem ameaças, agressões e assassinatos, investigados por órgãos como o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF).
Em Tacuru (MS), dois servidores municipais admitiram à Polícia Federal ter gravado áudios com ameaças de envenenar a água consumida pelos indígenas da Aldeia Sassoró. Nas gravações, as ameaças são associadas ao voto dos indígenas no Partido dos Trabalhadores (PT). Em depoimento, os servidores alegaram que não pretendiam cumprir as ameaças. Ambos foram afastados de suas funções.
Após visita do Ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, e da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello na região, o governo federal também anunciou medidas de proteção às comunidades indígenas, incluindo o reforço da Força Nacional.
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No Rio de Janeiro, a cacica Neusa Guarani, da Terra Indígena Tekoha Jevy, em Paraty, afirma ter recebido ameaças de morte após as eleições. Coordenadora do Setorial Indígena do PT no estado e candidata a deputada estadual, ela relata que grileiros, posseiros e agentes ligados à especulação imobiliária intensificaram as pressões contra a comunidade.

Estudantes indígenas articulam mobilização
No Rio, a organização do ato partiu principalmente dos coletivos de estudantes indígenas das universidades públicas, em diálogo com estudantes de outros estados. A articulação buscou construir uma resposta conjunta às denúncias de violência e ampliar a participação de aldeias, organizações indígenas e outros movimentos sociais.
“A mobilização aqui no Rio de Janeiro também estava sendo construída em diálogo com coletivos de estudantes indígenas de outros estados”, conta Yan Marques, indígena do povo Puri e integrante do Coletivo de Estudantes Indígenas da UFF (CEI-UFF).
Segundo ele, a organização começou antes da ocupação das ruas, com reuniões, conversas e articulações para viabilizar a participação de diferentes comunidades. Um dos esforços foi garantir a presença de indígenas Guarani da aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá. Além deles, a caminhada contou com representantes da Tekoa Jevy, em Paraty, e lideranças da Aldeia Marak’anà, na capital.
Para Yan, os coletivos universitários cumprem um papel que vai além da representação estudantil, aproximando as reivindicações dos territórios indígenas dos debates dentro e fora das universidades.
“A luta indígena não está restrita aos territórios ou às aldeias. Ela também acontece nas universidades, nas cidades, nas instituições e nas ruas”, afirma. O estudante destaca ainda que a articulação entre diferentes estados ajuda a romper o isolamento dos indígenas nas universidades e a fortalecer redes de apoio e organização política.

Demarcar é proteger
A cobrança por segurança nos territórios veio acompanhada de outra reivindicação: o avanço das demarcações de terras indígenas. Por meio da campanha #AssinaLula, a Apib e suas organizações regionais cobram do presidente Lula medidas para concluir, ainda em 2026, os processos de demarcação de 73 terras indígenas que já passaram pela etapa declaratória.
Em carta enviada ao presidente no dia 29 de outubro, as organizações também exigiram medidas urgentes de proteção às comunidades ameaçadas e reafirmaram a reivindicação pela demarcação de todas as terras indígenas até 2030. Para o movimento indígena, a demora na regularização dos territórios prolonga conflitos fundiários e deixa comunidades expostas a invasões, ameaças e outras formas de violência. A demarcação é reivindicada não apenas como garantia de um direito constitucional, mas como medida de proteção à vida.
A cobrança ocorre em meio às disputas sobre o marco temporal. Embora o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha rejeitado a tese que condiciona os direitos territoriais indígenas à ocupação das terras em 5 de outubro de 1988, propostas para estabelecer esse critério continuam em discussão no Congresso Nacional.
“Mais do que participar de um ato, estar nas ruas é reafirmar que seguimos vivos, organizados e em luta. E que nenhuma conquista acontece sem mobilização coletiva”, conclui Yan Marques.

