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‘Vivemos uma dicotomia entre uma vitória e uma não-derrota’, diz Don L; rapper volta ao Recife neste sábado (7)

Rapper cearense analisa as eleições, destaca o sucesso no Tiny Desk e show neste sábado na Concha Acústica da UFPE

Apresentação será na Concha Acústica da UFPE; noite contará com artistas locais
Apresentação será na Concha Acústica da UFPE; noite contará com artistas locais | Crédito: Isabel Gandolfo/Divulgação

Cerca de um ano após sua última passagem pela capital pernambucana, o rapper Don L volta ao Recife neste sábado (7), na Concha Acústica da UFPE, trazendo pela primeira vez em muito tempo um show solo, fora de festivais. O cearense apresentará os arranjos e as encruzilhadas do capitalismo tardio no Brasil de seu último disco, “Caro Vapor Vol. 2: Qual a Forma de Pagamento”, lançado em 2025, e revisitará outros momentos de sua trajetória em uma noite especial. 

Em conversa com o Brasil de Fato PE, Don L afirma acreditar que a energia de seu show certamente será influenciada pela energia política que seu público pernambucano vive. Declaradamente de esquerda radical – “sou mais guerrilheiro do que MC”, diz um verso seu – ele acredita que será uma noite contaminada pela euforia de uma plateia embalada pela sensação local de dever cumprido, em um estado que elegeu sem-terras e comunistas para a Câmara Federal e um senado destoante daquele escolhido pela maioria do país. 

“Vivemos momentos muito tensos. Sinto que teremos essa energia de descompressão e vontade de celebrar a vida no show. Por mais que nossas conquistas, pontuais e táticas, ainda sejam insuficientes para mudar nossa vida agora, elas já são uma não-derrota”, declara Don L.

O rapper coloca em perspectiva: o triunfo precisa ser celebrado, mas os caminhos de luta ainda são longos. “Elegemos o Congresso talvez mais à direita da história desde a ditadura, mas aprendemos também que só a mobilização popular muda algo de forma estrutural no país. Então vivemos essa dicotomia entre uma vitória e uma não-derrota”, afirma. 

No palco, o enfoque será seu último álbum, que trilha por arranjos e batidas brasileiras para narrar as ferramentas de sedução e contradição do país, entre bets, big techs, exôdos, lifestyles e amores. O artista também revisitará outros trabalhos com um tempo de apresentação que a sua turnê por festivais não permitia. Um momento, de certa forma, de transição da formatação de seu show.

Don L teve sua passagem pelo projeto Tiny Desk Brasil celebrada, tornando-se o segundo mais visualizado da história. Ele apresentou seu trabalho acompanhado por uma banda e novos arranjos, experiência que pretende levar para as apresentações do próximo ano. 

Contudo, Don L destaca que seu atual formato, no qual vem acompanhado pelas vozes de Alt Niss e Terra Preta, além do DJ Roger nas picapes, também é dono de uma energia que alcança a vivacidade de uma banda a partir da abertura ao improviso. “Quando estou com DJ, ele não é apenas um cara que dá play nos instrumentais. Ele é uma banda, trabalhando em cima dos pads e performando muita coisa ao vivo”, elabora o rapper. Com picapes ou instrumentos, os rumos são os mesmos: organicidade e dinamismo. “Vivemos um momento de esgotamento, sobretudo com as IAs atuando em criações engessadas. Então a imperfeição e o improviso têm cada vez mais valor por serem humanos”, complementa. 

É também um momento em que Don L observa os rumos do rap no país, suas lutas e suas possibilidades de futuro. Por mais que tenha observado algumas movimentações de infantilização no ritmo recentemente, ele acredita que tal fenômeno não chegou a se concretizar e o hip-hop brasileiro segue ocupando seu lugar de contracultura, graças à histórica capacidade de autodefesa de sua comunidade. O artista encontra possibilidades estéticas para muito além de um caráter panfletário. 

“Eu não gosto que categorizem meu rap como ‘consciente’ ou ‘de mensagem’. Eles me parecem muito panfletários e pouco sedutores. E eu busco o sedutor. Cantar não uma orelhada, mas um estilo de vida e uma forma de ver o mundo. E isso vem de tudo o que eu ouvia e me formou, como Racionais, Marcelo D2, Chico Science. Algo na borda da cultura, que você ouve e vê possibilidades de festa, amor, visão de mundo e estilo”, conclui Don L. 

O show de Don L é a principal atração do Baile do Andrew, que ainda contará com o DJ Iury Andrew recebendo a rapper Bione, Zoe Beats com Relikia e Léo da Bodega, além das discotecagens de Mau Lopes e Afrobeat. Os ingressos estão disponíveis na plataforma Sympla.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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