Talvez seja um pouco injusto começar esse texto pela minha narrativa pessoal, já que essa experiência, definitivamente, não foi individual. Mas o professor Ungaretti, o jornalista Wladymir Ungaretti, que faleceu nesta sexta-feira, 6 de novembro, foi quem, na minha formação, me permitiu enxergar o jornalismo com toda a sua potência. Pode parecer paradoxal, mas a verdade é que essa delimitação de “isso é bom jornalismo, isso é só ‘showrnalismo’ e ‘perfumaria’” é, em realidade, não limitadora, mas libertadora.
Ungaretti ensinou, a mim e a centenas de jornalistas (alguns aprenderam melhor, outros pior), a infinitude das possibilidades de liberdade e como a busca pelo conhecimento pode nos empurrar nesse caminho, no qual subversão, radicalidade e liberdade são formas diferentes de dizer e viver a mesma coisa.
Eu entrei na faculdade de jornalismo porque gostava de escrever e porque via no jornalismo uma chance de ajudar a mudar o mundo. Mas tinha 17 anos e essa ideia ainda era bastante abstrata e errática. Naquele momento, o Ungaretti já dava aulas na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) há uns 15 anos, e, entre outras coisas, tocava com os alunos duas revistas, a 3×4 e a Sextante. Conheci ele a partir do convite de uma colega para me juntar a um pequeno grupo e produzir uma edição especial da 3×4, por fora da grade curricular regular, com o tema “Indígenas”. Foi no trabalho de construção dessa revista que tive meus primeiros contatos com o Ungaretti e com o jornalismo.
Este texto vai ficar longo para os tempos de hoje, talvez ninguém ou quase ninguém chegue ao final agora, mas o próprio Ungaretti ensinou que fazemos textos e fotos não só para agora, mas, principalmente, para registrar a história, para dar ao futuro elementos para olhar para o que é hoje o presente. Ele queria que suas fotos e textos fossem utilizados daqui a muitos anos para que as pessoas do futuro olhassem para o mundo de hoje e integrassem essa perspectiva ao olhar retrospectivo: o Ungaretti queria atrapalhar os planos de quem gosta de contar a História apenas sob o olhar dos vencedores, dos de cima, e por isso registrava, em texto ou imagem, tudo o que era marginal e que, no futuro, talvez ficasse invisível.
Ele “flanava” pelas ruas, por livros, por reportagens, por imagens. Esse flanar fazia com que suas referências se misturassem e complementassem, complexificando seu olhar sobre o mundo. O melhor é que ele absorvia tudo e devolvia para o mundo em seus próprios textos, fotos, aulas e conversas. Tudo para combater a invisibilidade, para lançar luz sobre o que o poder e a loucura do sistema querem apagar.
As conversas com o Ungaretti sobre as pautas para a revista 3×4 iam muito além das pautas que iríamos apurar e dos textos que iríamos escrever. A preocupação dele não era com detalhes técnicos, distanciamento do olhar, construção do “lide”, etc., mas com os problemas de fundo: como aprender a ouvir os entrevistados para além do que diziam, como entender aquelas histórias em sua profundidade histórica, cultural e humana, como ir à raiz das histórias, como produzir material jornalístico que, no dia seguinte, não servisse apenas para embalar peixe.
A produção dessa revista foi meu primeiro trabalho jornalístico e, da visão que construí naquele momento sobre o jornalismo, não me desviei mais. Na verdade, em alguns momentos a expandi, em outros a encolhi, puxei para um lado, puxei para o outro, mas sempre a partir daquela base. Tudo o que fiz depois como jornalista se relaciona com a forma como minha visão foi moldada a partir do Ungaretti.
Não é uma experiência individual
Falo da minha própria formação, mas sei que não é uma experiência individual: Ungaretti deu aula na Fabico por 25 anos e, de uma forma ou de outra, centenas de jornalistas foram impactados por sua forma única de estar em sala de aula e, mais do que isso, nos corredores da faculdade e nas ruas da cidade. Porque suas aulas não respeitavam paredes.
Para cada encontro em sala de aula, ele chegava carregado de jornais, revistas e livros, que espalhava pela mesa, grudava no quadro-negro ou dispunha pelo chão. Ele gostava de dizer que não se via como professor, mas como jornalista. Mesmo assim, chegava sempre bem cedo, muito antes do horário das aulas, para terminar de preparar o que iria falar, para reler textos que considerava fundamentais e para se concentrar para a atividade febril de ensinar que desempenharia pelas horas seguintes.
As aulas traziam tantas referências, conexões e inspirações que, em diversos momentos, se tornavam caóticas. O Ungaretti parecia eletrificado, sacudindo à nossa frente reportagens de jornais, puxando de um canto da mesa um livro que aprofundava o tema de certa reportagem, catando no chão um outro que complementaria a discussão por outro ângulo. E assim iam os encadeamentos, sem parar nem quando chegava o final da aula formal, porque aí estava sempre disponível para seguir a conversa — primeiro nos corredores da Fabico, depois tomando um café ou, mais tarde, uma cerveja.
Antes de entrar na Fabico, nos anos 1990, o Ungaretti trabalhou como jornalista em diversos veículos. Ele falava muito de seus tempos da Rádio Continental. Também falava muito de sua participação na luta contra a ditadura, como jornalista e como militante — não que essas atividades fossem excludentes, pelo contrário.
Ungaretti fez da sua vida, em todos os espaços, uma bandeira da liberdade e da radicalidade. Não se atinha a convenções, a limites ou a aparentes contradições. Aceitava suas próprias contradições e as exercia com gosto. Era uma pessoa extremamente fraternal, preocupada em ajudar e ensinar, mas nem sempre era fácil de lidar, porque não recuava, porque não aceitava menos do que tudo. Ele foi uma pessoa complexa também porque refletia a complexidade do mundo que, como poucos, foi capaz de enxergar. Não gostava das amarras e formalismos acadêmicos, mas era feliz em sala de aula, orientando pesquisas e aprendendo junto com os alunos. Não gostava da institucionalidade, nem de corporativismo, mas se manteve por décadas filiado ao Sindicato dos Jornalistas. Era um anarquista convicto, mas nunca deixou de defender os governos de Lula e Dilma, mantendo sempre um aguçadíssimo espírito crítico.
A radicalidade e a profundidade de cada fala do Ungaretti dialogavam com a prática que exercia em todas as suas atividades. Ele queria aguçar o próprio olhar e o dos outros, fazer ver o que era escondido, fazer gritar o que era calado. Como professor, como jornalista e como fotógrafo — e fotojornalista —, ele queria iluminar o que era marginal, fossem recortes das cidades, fossem pessoas invisibilizadas, esquecidas, rejeitadas. O olhar cuidadoso e fraterno sobre o que para a maioria é objeto de repulsa e de negação. As texturas e formas que ele buscava como imagem em suas fotos também estavam ali como conceito, como discurso e como bandeira.
O Ungaretti foi um revolucionário, um marginal, um subversivo, uma bandeira da liberdade e do jornalismo comprometido com as lutas sociais. Não gostava de dizer que era professor, sempre ressaltava que era JORNALISTA. Mas a verdade é que, com suas falas e com sua prática, ensinou dezenas ou centenas de alunos a serem melhores jornalistas e melhores cidadãos, mais críticos, indignados e capazes de olhar para as coisas além da superfície.
Uma máxima que ele gostava de repetir trata dos trotskistas: que têm uma função fundamental de puxar os governos para a esquerda, mesmo que não ganhem. O próprio Ungaretti também teve, de alguma forma, essa função: mesmo que nem todos consigam ser livres como ele, as suas ideias, palavras e ações nos oferecem uma possibilidade constante de entender que nada é natural, que tudo pode ser transformado. A liberdade como objetivo e exercício, a radicalidade como caminho, a subversão como urgência. Ele viveu tudo isso intensamente e, assim, se manteve jovem, por se manter curioso, interessado e em movimento. E, agora, se mantém vivo.
Um olhar para além do tempo presente
Os livros que recomendou aos seus alunos foram a base da formação de muitos. Incontáveis vezes chegou em sala de aula, ou em um café, ou em um bar, brilhando inteiro pela descoberta ou redescoberta de algum autor que ajudava a explicar o mundo sob um olhar inesperado. Ele puxava da essência de escritores, historiadores, artistas e fotógrafos o que poderia ser incorporado às suas próprias reflexões e vivências e assim o fazia: produzia imagens pensando em Flusser e Robert Capa, olhava para a História a partir de Hobsbawm, flanava pela cidade de mãos dadas com João do Rio. E reunia tudo isso em suas derivas, fotografando com estética artística e olhar jornalístico pedaços da realidade que ajudavam a contar histórias muito maiores do que o tempo presente.
Muitas dessas fotos ilustraram contracapas do Jornalismo B, jornal que editei por vários anos e que sempre contou com as colaborações e o estímulo do Ungaretti. Ele foi um estimulador da mídia alternativa, isso também é bom lembrar. Desde a revista O Dilúvio, outro marco do jornalismo alternativo em Porto Alegre, até seu próprio blog, o Ponto de Vista, nascido na primeira onda de blogs políticos e jornalísticos, passando também por seus perfis nas redes sociais, onde nunca deixou de publicar fotografias e pequenas reflexões.
Ele gostava de lembrar a análise do Hobsbawm de que o século XX só terminaria quando Fidel Castro morresse. Essa análise faz a realidade do mundo passar por cima do que é convencionado, se impor como a realidade que de fato é, feita de movimento. No nosso pedaço de mundo, o jornalismo do século XX também teve uma Era encerrada com a morte do Ungaretti.
É bastante clichê, mas a certeza mais clara neste momento é que o Ungaretti segue vivo pelas suas ideias e pela sua capacidade de transmiti-las. A missão a que se propôs, de transformar radicalmente o mundo, foi, dentro das possibilidades que tinha, plenamente cumprida, porque transformou muita gente, porque muitos jornalistas formados a partir da influência dele não esquecem, ou ao menos de vez em quando se lembram, que JORNALISMO É SUBVERSÃO.
*Alexandre Haubrich é jornalista ungarettiano, doutor em Comunicação pela UFRGS, diretor do SindjoRS
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


