A chegada de Pedro Alliana à Presidência do Paraguai, na sexta-feira (6), após a destituição de Santiago Peña em meio à crise do banco Ueno, foi recebida com otimismo por integrantes do governo de Javier Milei, na Argentina. Segundo um funcionário argentino ouvido pelo canal TN, o novo presidente paraguaio é “ainda mais à direita e próximo das ideias de Milei que Santiago Peña”.
A avaliação encontra respaldo em declarações recentes do político de 52 anos, que construiu sua carreira política no tradicional Partido Colorado e, no último período, se aproximou do discurso regioso e de lideranças conservadoras internacionais.
Durante a campanha presidencial de 2023, Alliana afirmou que seu partido defendia os ensinamentos de Deus e da Bíblia, além da vida, da família e da propriedade privada. Apresentou a legenda como uma barreira contra o aborto e a chamada “ideologia de gênero”.
Ex-governador do departamento de Ñeembucú, deputado e ex-presidente da Câmara e do Partido Colorado, Alliana chegou à vice-presidência em 2023, na chapa de Peña.
Do Partido Colorado ao conservadorismo religioso
A projeção nacional de Alliana ocorreu dentro do Honor Colorado, corrente do Partido Colorado liderada pelo ex-presidente Horacio Cartes, que governou o Paraguai entre 2013 e 2018. Empresário com negócios nos setores financeiro, tabagista e agropecuário, Cartes consolidou sua influência sobre a legenda e foi o principal articulador da eleição de Peña e Alliana. Seu governo adotou políticas de liberalização econômica e ampliou as parcerias com o setor privado.
O Partido Colorado sustentou a ditadura de Alfredo Stroessner (1954–1989) e governa o Paraguai desde 1947, com exceção do período entre 2008 e 2013, quando Fernando Lugo foi presidente.
Cartes foi alvo de sanções financeiras dos Estados Unidos, em 2023, durante o mandato de Joe Biden, por acusações de corrupção e pagamento de propinas a autoridades. Ele nega as irregularidades. As sanções foram retiradas pelo governo Donald Trump em outubro de 2025, decisão comemorada publicamente por Alliana.
A defesa de pautas religiosas já aparecia no discurso do novo presidente paraguaio em 2018, quando dirigia o Partido Colorado. Durante um evento do Instituto Republicano de Política Estratégica, organização partidária que adotava o lema “Deus, Pátria e Família”, Alliana declarou: “Dizemos não ao aborto e defendemos os valores fundamentais que temos como nação: nossa história e nossos princípios cristãos”.
O discurso também ganhou destaque na campanha de 2023. Alliana afirmou que países estrangeiros pretendiam introduzir o aborto e a chamada “ideologia de gênero” no Paraguai e classificou o Partido Colorado como uma muralha de defesa da vida e da família.
Naquele ano, defendeu a revogação de um acordo de cooperação educacional entre o Paraguai e a União Europeia, alegando que os recursos estrangeiros poderiam financiar conteúdos relacionados a gênero nas escolas. A União Europeia negou que tivesse qualquer ingerência sobre o currículo escolar paraguaio e esclareceu que o financiamento não estava condicionado à adoção de conteúdos educacionais.
Um estudo do Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral (IDEA Internacional) identificou semelhanças entre a propaganda utilizada na campanha de Peña e Alliana e os materiais divulgados por Jair Bolsonaro contra Lula em 2022. Segundo a pesquisa, as campanhas recorreram a comparações sobre aborto, gênero, censura e segurança pública para caracterizar seus adversários.
O anticomunismo também aparece em manifestações do dirigente colorado. Em janeiro de 2022, Alliana comemorou o retorno de seu partido ao poder em 1947, descrevendo o episódio como uma reação popular ao comunismo. Historiadores paraguaios contestaram a interpretação, recordando que a mudança política ocorreu após um autogolpe do general Higinio Morínigo.
Aproximações com Trump, Milei e Netanyahu
Nos últimos anos, Alliana estreitou relações com integrantes do governo Donald Trump. Em agosto de 2026, reuniu-se com o secretário de Estado Marco Rubio e o subsecretário Christopher Landau, nos Estados Unidos.
Em entrevista ao jornal Infobae, afirmou que as relações entre os dois países atravessavam “um momento extraordinário” e que poderiam estar em seu melhor período histórico.
Alliana defendeu o Escudo das Américas, iniciativa de Trump voltada a consolidar a hegemonia dos EUA na região, com agenda oficial em torno da cooperação regional em segurança e ao enfrentamento do crime organizado. Também manifestou apoio à Pax Silica, programa estadunidense de desenvolvimento de cadeias de fornecimento de tecnologias e minerais críticos.
Durante a visita, os dois países firmaram um memorando de cooperação nuclear civil, e Alliana destacou o potencial de exploração de reservas de urânio no território paraguaio.

A cooperação militar também foi ampliada pelo acordo Sofa, assinado em dezembro de 2025 e aprovado pelo Congresso paraguaio em março de 2026. O tratado permite a presença temporária de militares e funcionários civis estadunidenses no Paraguai, concede imunidades a esse pessoal e autoriza os EUA a exercer jurisdição penal sobre ele em território paraguaio.
Na Argentina, o novo presidente paraguaio estabeleceu contato direto com Santiago Caputo, um dos principais assessores políticos de Javier Milei. Os dois se reuniram na Casa Rosada em dezembro de 2025. Posteriormente, Alliana agradeceu publicamente ao estrategista argentino por presenteá-lo com um exemplar de El Monje, livro sobre sua trajetória política.

Outra aproximação ocorreu com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. Alliana visitou Israel em outubro de 2026, reuniu-se com o dirigente e reafirmou o apoio do Paraguai ao governo israelense.
Em entrevista ao jornal The Jerusalem Post, declarou que o país manteria sua aliança estratégica com Israel apesar dos custos políticos. Defendeu também o direito israelense de “proteger seu território” e a ampliação da cooperação bilateral nas áreas de segurança e tecnologia.
Na política interna, Alliana apoiou a reforma do sistema previdenciário dos servidores públicos paraguaios, que provocou protestos de professores em 2026. A proposta estabelecia mudanças nas regras de aposentadoria e nas contribuições dos trabalhadores. Após a mobilização sindical, o então vice-presidente participou de negociações que resultaram em modificações no projeto.

Antes da queda de Peña, Alliana se preparava para disputar a Presidência em 2028. Sua candidatura chegou a provocar um conflito com Cartes, que retirou o apoio ao seu projeto eleitoral. O dirigente recebeu respaldo de governadores e parlamentares colorados, enquanto Peña apoiava sua pretensão de sucedê-lo.
Para Cony Oviedo, dirigente da Coordenação Nacional de Organizações de Mulheres Trabalhadoras Rurais e Indígenas, a substituição de Peña não representa uma mudança na estrutura de poder. “O problema não se resolve com a saída de um presidente”, afirmou ao Brasil de Fato. Segundo ela, o Partido Colorado continuará no comando do país sem assumir as responsabilidades pela crise.
Alliana também foi atingido pelo escândalo do Ueno. O então vice-presidente confirmou possuir um certificado de depósito de 4 bilhões de guaranis (cerca de R$ 3,5 milhões) aplicado no banco. A Câmara dos Deputados rejeitou o pedido de impeachment contra ele por 48 votos a 30, enquanto aprovou o processo contra Peña. A existência do investimento não comprova participação nas irregularidades investigadas.
A destituição de Peña, apoiada por Cartes, antecipou a chegada de Alliana ao poder, mas também modificou seus planos eleitorais. Pela Constituição paraguaia, ele deverá completar o mandato até agosto de 2028 e não poderá disputar a reeleição presidencial.

