Revolução Russa

Da luta por educação à revolução: como as mulheres ajudaram a transformar a Rússia em 1917

Em 1917, trabalhadoras estiveram na linha de frente da derrubada do czarismo e da construção de um novo projeto social

Por "Pão e paz", mulheres deram início à Revolução Russa
Por “Pão e paz”, mulheres deram início à Revolução Russa | Crédito: Reprodução

Na Rússia czarista, mulheres enfrentaram restrições ao acesso à educação e à participação política, construíram organizações próprias e tiveram papel decisivo no processo revolucionário. A história do Instituto Smolny ajuda a contar essa trajetória.

A Revolução Russa, cujo aniversário é celebrado em 7 de novembro, também foi resultado de décadas de organização e luta das mulheres por direitos, educação e melhores condições de vida. Em 1917, elas estiveram entre as protagonistas das mobilizações que derrubaram o czarismo e participaram da construção do processo revolucionário que transformaria a sociedade russa. Essa trajetória, no entanto, começou muito antes da tomada do poder pelos bolcheviques.

Na Rússia do século 19, o acesso das mulheres à educação era limitado e marcado pela desigualdade de classe. Enquanto meninas da aristocracia podiam frequentar instituições de ensino criadas especialmente para sua formação, a maioria das trabalhadoras enfrentava o analfabetismo, a exploração no trabalho e a ausência de direitos políticos. Ainda assim, a ampliação dos espaços de educação feminina abriu caminhos para a circulação de ideias e para a participação de mulheres nos debates intelectuais e políticos.

Um dos exemplos dessa trajetória é o Instituto Smolny, em São Petersburgo. Fundado em 1764 por iniciativa da imperatriz Catarina, a Grande, foi uma das primeiras instituições estatais de educação feminina da Rússia, voltada inicialmente às meninas da nobreza. Ali, elas estudavam línguas, história, matemática e música, em uma formação destinada a preparar jovens para ocupar posições compatíveis com seu lugar na sociedade imperial.

Mais de 150 anos depois, o mesmo edifício se tornaria um dos principais centros da Revolução Russa. Em 1917, o Smolny abrigou o Soviete de Petrogrado e as estruturas de direção bolchevique. Foi dali que Lenin e seus aliados acompanharam e coordenaram os acontecimentos que levaram à derrubada do Governo Provisório. A mudança de função do edifício sintetiza uma das contradições daquele período: um espaço criado para formar as filhas da elite imperial passava a integrar uma revolução que tinha entre suas bandeiras a transformação das estruturas sociais.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a socióloga Tica Moreno, integrante da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, observa que a história do instituto ajuda a compreender como a educação feminina se relacionou com a formação de quadros políticos e com o desenvolvimento da luta revolucionária. Algumas das mulheres que se tornaram dirigentes bolcheviques tiveram acesso a uma formação que, embora restrita a determinados setores sociais, contribuiu para sua atuação política.

“Uma primeira coisa que aconteceu na Rússia foi a criação de uma das primeiras instituições de educação de meninas e mulheres, pensando nas meninas e mulheres da nobreza. Não era uma educação para o conjunto das mulheres da classe trabalhadora. E é bem interessante ver como várias das dirigentes bolcheviques eram mulheres que tinham recebido essa educação em economia política e outras áreas”, explica.

Em períodos nos quais o czarismo restringia o acesso feminino ao ensino superior, algumas precisaram buscar oportunidades de estudo no exterior. Esse movimento contribuiu para aproximar militantes russas de correntes socialistas e de organizações da esquerda europeia. A formação das mulheres favoreceu assim a construção de relações com outros setores da sociedade e com organizações políticas de outros países.

A luta das mulheres russas não se restringia às possibilidades de educação de uma parcela da população. Com o avanço da industrialização e o crescimento das cidades, um número cada vez maior de mulheres passou a integrar a força de trabalho, especialmente em setores como o têxtil. As condições de trabalho, os baixos salários, as longas jornadas e a precariedade da vida cotidiana fizeram parte das reivindicações que impulsionaram a organização das trabalhadoras.

A luta por direitos também se desenvolveu em articulação com a oposição ao regime czarista e com os movimentos socialistas. Mulheres participaram de círculos de estudo, organizações políticas, greves e manifestações, construindo formas de organização que relacionavam a emancipação feminina à transformação das condições de vida e trabalho da classe trabalhadora.

Essa presença teve um papel decisivo no início de 1917. Em 8 de março, data que corresponde a 23 de fevereiro no calendário juliano, então utilizado na Rússia, trabalhadoras de Petrogrado saíram às ruas em manifestações contra a guerra, a fome e a carestia. Os protestos deram impulso a uma onda de greves e mobilizações que se espalhou pela cidade e culminou na queda do czar Nicolau II, dando início à Revolução de Fevereiro.

A participação feminina não foi, portanto, um elemento secundário ou circunstancial do processo revolucionário. As mulheres estavam nas fábricas, nas manifestações e nas organizações políticas, contribuindo para a construção das forças sociais que questionavam a ordem imperial. Para Tica Moreno, é fundamental reconhecer essa atuação como parte da própria constituição do sujeito revolucionário russo.

“A Revolução Russa não teria sido a mesma sem a participação das mulheres nesse processo, nessa construção, fazendo parte do que foi o sujeito revolucionário na Rússia. Desde anos antes, já havia um processo intenso de organização das mulheres, estruturado sobretudo em um trabalho permanente com as mulheres trabalhadoras. Um trabalho relacionado às condições de vida e de trabalho, mas também a todo o processo de educação e conscientização dessas mulheres”, afirma.

Meses depois, em outubro, os bolcheviques chegaram ao poder, em um processo que teve no Instituto Smolny um de seus principais centros de articulação. A revolução abriu uma nova etapa de disputas sobre os direitos das mulheres e o papel do Estado na transformação das relações sociais. A ampliação da educação pública, as mudanças na legislação familiar, o reconhecimento de direitos civis e políticos e as iniciativas de socialização do trabalho doméstico passaram a integrar, em diferentes momentos, a agenda soviética.

Essas transformações não eliminaram as desigualdades entre homens e mulheres, tampouco foram lineares. A experiência soviética foi atravessada por contradições, limites econômicos e disputas políticas que afetaram a implementação e a continuidade de muitas dessas medidas. Ainda assim, a incorporação da emancipação feminina ao projeto de transformação social representou uma dimensão importante do legado de 1917.

Para Tica Moreno, a experiência das revolucionárias russas também evidencia que a emancipação feminina não poderia se limitar à conquista de direitos para mulheres das elites. Era preciso enfrentar as desigualdades de classe e as condições de exploração das trabalhadoras.

“Uma coisa é um projeto de classe que tem as mulheres da nobreza, da aristocracia, devidamente formadas, escolarizadas, esclarecidas, e o conjunto das mulheres trabalhadoras mantido numa situação de analfabetismo e de exploração do trabalho. […] É também a disputa política de classe dentro do que vai se constituindo como feminismo socialista”, afirma.

A trajetória das revolucionárias russas, portanto, ajuda a compreender que a luta por emancipação feminina não se desenvolveu de maneira isolada das disputas políticas e sociais de seu tempo. Da reivindicação pelo direito à educação à organização das trabalhadoras, a experiência que desembocou em 1917 foi marcada por alianças, conflitos e pela construção de um projeto que vinculava a transformação da vida das mulheres à transformação da sociedade.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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