Pode acontecer no lugar onde você mora. O alerta é evidente: os 399 municípios do estado estavam sob risco de serem atingidos por vendaval, chuva intensa e queda de granizo na última quinta-feira (5). Somente nos quatro primeiros dias de novembro, 38 municípios já haviam sido afetados por desastres climáticos e ambientais e, entre outubro e novembro, cerca de 194 mil pessoas foram afetadas por desastres ambientais, de acordo com a Defesa Civil.
E os números continuam preocupantes. Ao todo, apenas em 2026, 13 tornados foram registrados pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). O mais recente, de escala F2, atingiu a cidade de Maringá, na madrugada de segunda-feira (2). Esse cenário repete o rastro do ano passado: em 7 novembro de 2025, há exato um ano, Rio Bonito do Iguaçu (PR) sofria com a devastação causada pelo mesmo fenômeno, mas de nível F4.
“Nossa, mas vocês têm que rezar mais, hein!? Que o lugar de vocês foi castigado.” Jaqueline Baim, pedagoga e moradora de Rio Bonito do Iguaçu, conta que esse foi um dos comentários que ouviu após o acontecimento em sua cidade e que mais a afetou. “Isso dá uma sensação tão ruim na gente, por que será que eu ia ser escolhida para passar por isso?”, indaga ela, pesarosa.
A fala, ouvida por Jaqueline depois da tragédia, expressa uma das formas de interpretar acontecimentos extremos como se fossem fatalidades inevitáveis. Mas, um ano depois, a própria professora passou a olhar para aquele dia de outra maneira. “Eu percebo que muitas pessoas negam essa situação, inclusive, a possibilidade de que pode acontecer novamente outro evento, como vendaval ou destelhamento”, comenta.

Na tarde do dia 7 de novembro de 2025, Jaqueline aguardava pela irmã na frente de uma farmácia, na rua XV de Novembro, a principal de Rio Bonito do Iguaçu e uma das mais devastadas. Quando o vento forte começou, ela entrou no carro, abaixou a cabeça e segurou firme o freio de mão, acreditando que, com essa ação, poderia segurar o carro para que ele não voasse, como nos filmes sobre grandes catástrofes.
No sétimo mês de uma gestação de risco e sozinha no carro, Jaqueline se perguntava se morreria apenas ela ou toda a família, que também estava na cidade por ocasião da cerimônia de Primeira Comunhão do sobrinho. Quando o vento avassalador passou, ela lembra que saiu do veículo ainda meio tonta, sem saber o que havia acontecido. Do lado de fora, viu que o carro estava noutra posição, totalmente inversa da qual ela o havia estacionado. De dentro da farmácia, Jaqueline ouviu o chamado das funcionárias, dizendo para ela entrar e ficar segura lá dentro. O piso estava escorregadio, molhado e cheio de estilhaços de vidros, fazendo com que ela caísse e se machucasse.
Poucos minutos depois, avistou a irmã correndo em sua direção, balançando os braços e gritando pelo seu nome. “Quando eu a enxerguei deu aquela sensação [suspira]… Não fui só eu que fiquei viva”, lembra, emocionada. Juntas, foram atrás do restante dos entes queridos. Jaqueline lembra que, ao sair novamente à rua, todo mundo estava procurando por alguém. Após se encontrarem todos, foi que Jaqueline se deu conta de que precisava ir ao pronto-socorro, para cuidar dos ferimentos e também verificar se seu bebê estava bem, já que sua gestação era de risco.
Jaqueline, a irmã, o cunhado, os sobrinhos, o pai, a mãe, todos sobreviveram à tragédia que destruiu 90% da cidade de Rio Bonito naquela primavera. O desastre causou seis mortes — cinco pessoas em Rio Bonito do Iguaçu e uma no assentamento Nova Geração, em Guarapuava (PR) — e pelo menos 750 feridos, cerca de 9 mil pessoas afetadas diretamente na cidade. Em toda a região Centro-Sul, 11 municípios registraram destruição por conta da força do vento e da chuva.
Ainda hoje, um ano depois do acontecimento, ao andar pela cidade, percebe-se as marcas do tornado. Restos de telhas, ferros retorcidos, casas em reformas, terrenos vazios ou em obras, como o do Colégio Municipal Cerbi (Centro Educacional de Rio Bonito do Iguaçu), ainda fazem parte da paisagem.

Um histórico de eventos extremos
As marcas deixadas pelo tornado, no entanto, não estão isoladas de um histórico de eventos extremos na região. Segundo a professora Deise Maria Bourscheidt, doutora em Economia pela Universidade de Brasília e docente da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus de Laranjeiras do Sul, em 30 anos, de 1995 a 2025, foram 102 os desastres naturais registrados na região imediata de Laranjeiras do Sul (PR) e Quedas do Iguaçu (PR). A área inclui Rio Bonito do Iguaçu e outros sete municípios. A professora ressalta, contudo, que pode haver subnotificação desses acontecimentos em todo o território.
Em Rio Bonito do Iguaçu, ao longo desse período, foram registrados 13 eventos, já contabilizando o tornado de nível F4 de novembro de 2025. Os desastres somaram prejuízos monetários de mais de R$ 140 milhões, isso porque ainda não foram disponibilizados os dados oficiais dos prejuízos do setor privado, referentes ao tornado de 7 de novembro.
Os números, extraídos do Atlas Digital de Desastres no Brasil, porém, não contam sozinhos a dimensão de um desastre. De acordo com a pesquisadora, o impacto social e econômico não depende exclusivamente da quantidade de ocorrências, mas também do grau de vulnerabilidade e da capacidade de resposta local.

“A fragilidade social da região, incluindo fatores como renda e baixos índices de saneamento, bem como a falta de autonomia financeira dos municípios — todos eles possuem mais de 70% de suas receitas advindas de transferências dos governos estadual ou federal — podem agravar e dificultar a recuperação dos municípios diante dos efeitos dos eventos extremos”, afirma Deise.
Ela cita um exemplo simples de como o desastre se agrava de acordo com os níveis de vulnerabilidade: “Se a casa tiver laje, você vai ter uma proteção maior, mas se sua renda é menor e sua casa não tiver laje você perde o telhado e fica mais exposto.”

Um cenário que está mudando
A pesquisa sobre as consequências dos desastres naturais coordenada pela professora também aponta uma intensificação dos desastres na região nos últimos dez anos. O período acompanha um cenário de aumento da temperatura média do planeta. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico da Organização das Nações Unidas (ONU) responsável por avaliar a ciência relacionada às mudanças climáticas, a década entre 2016 e 2025 foi oficialmente confirmada como a mais quente da história desde o início dos registros climáticos globais.
Para Deise, os chamados desastres naturais não podem ser compreendidos apenas como fenômenos da natureza. Eles também estão relacionados à forma como a sociedade ocupa o território, produz e consome.
“É importante deixar claro para a população que um desastre natural também tem causa na ação humana. Ou seja, ele é agravado pela forma como nós organizamos a nossa produção e o nosso consumo. A causa antrópica [que resulta da ação humana sobre o meio ambiente] já está comprovada pelos relatórios do IPCC que, de fato, a forma como os seres humanos vêm organizando a questão produtiva está agravando tanto em termos de quantidade como em termos de intensidade os desastres naturais. Nós também somos responsáveis pelo que está acontecendo”, afirma.
Segundo a pesquisadora, o modelo econômico e produtivo baseado na agricultura convencional ou industrial, no monocultivo e no uso intensivo de agrotóxicos e adubos químicos precisa ser considerado. Ela destaca que, em nível nacional, o desmatamento e a mudança no uso do solo têm papel relevante nas emissões de gases de efeito estufa.
“As consequências não são lineares, mas funcionam dentro de um ciclo. Se por um lado o setor agropecuário é um dos grandes responsáveis pelo desmatamento, também é o que mais sofre com os prejuízos econômicos”, explica.
O clima de 2026
Esse cenário mais amplo se soma às condições climáticas específicas de 2026. Segundo a Cartilha Popular do Plano Popular Territorial para Enfrentamento dos Efeitos do El Niño no Paraná, o estado está situado em uma faixa de transição entre os climas tropical e subtropical e, em anos de El Niño, pode registrar chuva acima da média, temporais, cheias, erosão e deslizamentos.

O Paraná também está localizado no chamado Corredor de Tornados da América do Sul, região com condições favoráveis à ocorrência desse tipo de fenômeno. O contexto ajuda a compreender por que eventos extremos fazem parte dos riscos climáticos enfrentados pelo estado — e por que a população precisa estar preparada para eles.
Mas compreender a dimensão do problema não significa que seja fácil conviver com a possibilidade de que ele volte a acontecer.
Do medo à preparação
Depois do tornado, Jaqueline passou a temer qualquer mudança no tempo. Quando recebia os alertas da Defesa Civil no celular, o coração disparava. “Eu fiquei muito amedrontada. Eu chorava quando começava um tempo feio ou vento. Eu entrava em pânico e sentia que o Miguel [seu bebê, hoje com 9 meses] também ficava”, conta.
O que ajudou Jaqueline a elaborar o trauma foi a participação no primeiro Curso Brasileiro de Brigadas Populares para Enfrentamento de Catástrofes – Maria Natividade. A primeira turma foi formada em outubro deste ano, a partir de uma articulação entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa foi criada a partir da experiência da Brigada de Solidariedade formada já na madrugada do dia 8 de novembro de 2025, em Rio Bonito do Iguaçu.


“Quando me inscrevi no curso achei, de modo ingênuo, que ele ia possibilitar que eu não vivenciasse mais o ocorrido”, conta Jaqueline. “Mas, ao contrário, aprendemos que é possível sim vivenciarmos algo parecido novamente, mas a diferença é a de que estejamos mais preparadas para enfrentar as consequências.”
Para ela, o conhecimento também ajudou a transformar o medo em capacidade de resposta. “A gente falava com outras pessoas que também passaram pelo tornado sobre o que tínhamos vivido. Além do fato de entender mais sobre primeiros socorros, de saber como agir antes e depois caso vivenciasse uma situação dessas. Eu acho que em mim trouxe uma tranquilidade maior.”

A mudança também aparece na forma como Jaqueline passou a encarar os alertas e as orientações de prevenção: “E a outra questão é essa coisa do medo, da preocupação, precaução, olhar quais são as orientações. Eu acho que isso é algo muito forte, que antes eu não dava muita importância também, não dava muito ouvidos.”
Ela entende que o conhecimento adquirido no curso não deve ficar restrito a quem participou da formação. “Temos essa tarefa de socializar com outras pessoas o aprendizado que a gente teve. Nossa tarefa é ir compartilhando, orientando as pessoas”, conta.
A mesma perspectiva de formação e prevenção está presente em uma iniciativa coordenada por Deise na UFFS. O projeto de extensão “Desastres Naturais e Mudanças Climáticas: Capacitação de Jovens em Estratégias de Mitigação, Monitoramento e Impactos Socioambientais e Econômicos” trabalha com estudantes de escolas públicas estaduais de ensino médio e técnico de Rio Bonito do Iguaçu, Laranjeiras do Sul e Cantagalo (PR).
Para a pesquisadora, porém, a preparação da população precisa estar acompanhada de ações do poder público. Ela defende que a sociedade se organize para pressionar parlamentares e chefes dos Executivos por políticas capazes de responder melhor ao cenário de emergência climática.
Para Jaqueline, o primeiro passo é reconhecer que a possibilidade de novos eventos existe. “Como a gente nunca tinha vivenciado isso, próximo da gente, as pessoas devem ouvir que isso é possível de acontecer, tomar precauções, se informar sobre isso, entender o que é essa crise climática, entender o que é esse super El Niño”, alerta.
“Às vezes a gente fica nessa bolha de que isso nunca vai acontecer, não é possível. E a gente sabe que é possível”, destaca. Jaqueline também enfatiza que, por mais que sejam cada vez mais frequentes, esses eventos “não são naturais”.
Um ano depois de sobreviver ao tornado, Jaqueline já não espera que a próxima tempestade seja impossível. O que mudou é o que ela acredita que pode fazer diante dela.


