Manifestações em apoio a Lula ocuparam a Avenida Paulista e se espalharam pelo país, mas a cobertura dos principais veículos passou longe de dar a dimensão do que aconteceu nas ruas.
Milhares de pessoas ocuparam a Avenida Paulista neste domingo (11) em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A imagem registrada do alto impressiona: uma multidão tomou a avenida por vários quarteirões, reunindo estudantes, movimentos sociais, sindicatos, torcidas organizadas, fandoms, artistas e apoiadores da candidatura.
E não foi só em São Paulo. No mesmo dia, manifestações aconteceram em diferentes regiões do país. Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Maceió, Goiânia e cidades do interior tiveram atos. Em Niterói, no Grande Rio, a manifestação na Praia de Icaraí reuniu o equivalente a aproximadamente 10% da população do município.
Na segunda-feira (12), as mobilizações continuaram. Levantamento do Comitê Popular de Luta registrou 156 ações em 76 cidades brasileiras. Só no Rio de Janeiro foram duas manifestações no mesmo dia: 12 horas na Praia de Copacabana e 15 horas nos Arcos da Lapa.
Seria de se esperar que um movimento dessa dimensão, a duas semanas do segundo turno de uma eleição presidencial, ocupasse lugar central no noticiário. Não foi o que aconteceu.
Quem acompanhou os atos pelas redes sociais, pela mídia independente ou simplesmente estava nas ruas viu um país bastante diferente daquele mostrado pela imprensa tradicional. Mesmo a gigantesca na Avenida Paulista recebeu cobertura muito aquém de sua dimensão.
A multidão estava lá. No noticiário, quase não coube.
A Paulista que apareceu sem aparecer
A Avenida Paulista é velha conhecida da imprensa brasileira. Quando milhares de pessoas ocupam seus quarteirões, imagens aéreas dimensionam o público, especialistas interpretam o “recado das ruas” e a manifestação frequentemente se transforma em acontecimento político nacional.
Desta vez, a Paulista também estava lotada. (Há quem diga que estava mais lotada do que nunca.) Mas o tratamento foi outro.
A Folha de S.Paulo publicou uma fotografia da manifestação na capa desta segunda-feira. A chamada, porém, foi: “Lula na Paulista atrai milhares, Flávio discursa contra fake news”. Internamente: “Lula reúne multidão e mira jovens; Flávio mobiliza aliados e fala em combate a fake news”. De um lado, milhares de pessoas ocupando 12 quarteirões. Do outro, um encontro de Flávio Bolsonaro com aliados. Os dois acontecimentos foram emparelhados como movimentos equivalentes das campanhas.
O Globo seguiu caminho semelhante. Dividiu a capa entre Lula diante da multidão e Flávio Bolsonaro ao lado de aliados: “Em busca de votos, presidente mira rua, e Flávio, alianças”. Não é irrelevante a diferença entre dizer que “Lula mira a rua” e informar que milhares de pessoas foram às ruas. No primeiro caso, o sujeito é o candidato. No segundo, os manifestantes. E esse segundo sujeito praticamente desapareceu.
Mais impressionante foi O Estado de S.Paulo, que praticamente ignorou a mobilização. Estamos falando de uma multidão ocupando uma das avenidas mais importantes da cidade que o jornal carrega no próprio nome, a mesma Paulista cuja ocupação por movimentos de direita, em outros momentos, foi transformada em termômetro da opinião pública nacional.
Da mesma forma, a Globonews optou por noticiar — com grande destaque — uma competição universitária de robótica, enquanto ocorria o ato na Avenida Paulista. Também o G1 não mencionou as manifestações. Até às 23:00 do dia 11 de outubro, o feed do portal no Instagram não apresentava um único conteúdo sobre os atos que aconteciam Brasil afora.
A relevância jornalística de uma multidão não pode depender da cor das bandeiras que ela carrega.
Na televisão, o Brasil virou uma frase
No Fantástico, da TV Globo, a Paulista apareceu dentro do espaço dedicado à agenda eleitoral de Lula. Ao final, o repórter informou que também haviam ocorrido manifestações em outras capitais, sem mostrar uma única imagem. E acabou. Nesta segunda-feira, 12 de outubro, o Jornal Nacional mostrou rapidamente atos em outras capitais, como Rio de Janeiro e Fortaleza.
Televisão é imagem. Dizer que “houve manifestações em outras capitais” não produz a mesma informação que mostrar milhares de pessoas ocupando simultaneamente ruas brasileiras.
Não mostrar também é uma escolha editorial.
Brasília foi às ruas e o jornal da capital olhou para São Paulo
O caso do Correio Braziliense é especialmente contraditório. O jornal publicou uma grande fotografia da Paulista e, internamente, a reportagem “Tapete vermelho na Paulista”.
Mas Brasília também foi às ruas. Houve manifestação no Eixão do Lazer. Ainda assim, o principal jornal da capital não deu ao ato realizado em sua própria cidade espaço compatível com sua relevância.
A contradição aumenta algumas páginas depois: enquanto não dimensionava as mobilizações brasileiras, o Correio dedicou uma página inteira às manifestações na Europa, sob o título “Crise social ganha as ruas”.
A reportagem conectou protestos de estudantes na França e manifestações contra o custo da moradia na Espanha para identificar um fenômeno social e político europeu.
É exatamente a operação que não foi feita aqui.
No Brasil, atos simultâneos foram fragmentados. Não houve uma página reunindo São Paulo, Brasília, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e outras cidades para perguntar o que estava acontecendo nas ruas brasileiras.
Para enxergar um fenômeno político coletivo, aparentemente, foi mais fácil olhar para o outro lado do Atlântico.
Não é a primeira vez
Esse comportamento tem história. Em 2016, quando manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff ocuparam as ruas, a mídia não se limitou a registrá-las. Houve transmissões em tempo real, cobertura intensa e veículos que assumiram posição favorável aos atos.
Em 2021, o comportamento foi outro: manifestações pelo #ForaBolsonaro reuniram milhares de pessoas em mais de 200 cidades, mas receberam cobertura reduzida ou, em alguns casos, inexistente.
O caso mais famoso, no entanto, é o comportamento do grupo “O Globo” durante a campanha das “Diretas Já”, ainda nos anos 1980. A TV Globo chegou a mostrar uma manifestação com 1,5 milhão de pessoas (segundo estimativas da época), com o repórter dizendo que se tratava de uma festa pelos 430 anos de São Paulo. O próprio jornalista Roberto Marinho declarou, em entrevista à revista Veja em setembro de 1984, que segurou a cobertura das “Diretas Já”, mudando de postura apenas quando a adesão popular se tornou incontrolável.
O paralelo com 2026 é inevitável. Quando determinados grupos ocuparam a Paulista, as ruas foram apresentadas como manifestação da vontade popular. Agora, uma multidão na mesma avenida corre o risco de virar apenas mais um compromisso na agenda de um candidato.
Não se trata de exigir que a imprensa apoie Lula. Trata-se de exigir que o mesmo critério jornalístico seja aplicado independentemente de quem esteja nas ruas.
É possível cobrir e, ainda assim, invisibilizar
Silenciamento não significa necessariamente ausência absoluta de cobertura.
A Folha publicou a fotografia. O Globo publicou. O Correio também. A televisão mostrou alguns segundos. Mas não é preciso apagar completamente um acontecimento para reduzir sua importância pública.
É possível cobrir e, ainda assim, invisibilizar.
As redes sociais e a mídia independente tornaram essa operação mais perceptível. Fotografias aéreas, vídeos e transmissões permitiram ver a Paulista de cima, acompanhar manifestações ausentes dos jornais e enxergar Brasília. Permitiram, sobretudo, comparar. Uma postagem sobre o ato de Copacabana em 12 de outubro, por exemplo, comparava quatro fotos: uma do ato realizado e outras três referentes aos shows gratuitos de Madonna, Lady Gaga e Shakira, realizados na mesma praia.
Os grandes meios têm liberdade para escolher manchetes, fotografias e pautas. Mas liberdade de imprensa não significa o descompromisso com a agenda pública.
Neste fim de semana não faltaram fatos, imagens, personagens ou relevância social e política. Faltou à mídia tradicional uma cobertura capaz de noticiar a dimensão do que estava acontecendo no país.
Estamos discutindo o direito à comunicação. E, em plena disputa sobre os rumos do país, estamos discutindo também democracia.
*Marcia Corrêa e Castro é jornalista, doutora em educação, fundadora da organização Bem TV Educação e Comunicação e integrante do DiraCom.
**Ramênia Vieira é jornalista, mestranda do PPGCOM-UnB, integrante do DiraCom e coordenadora do Observatório De Olho na Censura.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


