África & Diáspora

A coluna tem como objetivo ser um espaço de diálogo sobre temas históricos e contemporâneos do continente africano e da diáspora africana. A diáspora africana refere-se à dispersão de populações do continente africano pelo mundo, um movimento impulsionado principalmente pelo tráfico transatlântico de escravizados entre os séculos XVI e XIX. Esse deslocamento forçado de cerca de 12 milhões de pessoas moldou profundamente a cultura, a economia e a sociedade nas Américas, com o Brasil recebendo a maior parte desse contingente. Hoje, os povos da diáspora são vistos como uma extensão do próprio continente africano – uma “África ampliada” unida pela memória, pela luta antirracista e pela afirmação da identidade negra. O diálogo entre a África e suas diásporas continua vivo, servindo como um pilar para a educação, a história e a construção de sociedades mais justas e conscientes de suas raízes.

Sobre a autora: Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”

Dossiê Guiné-Bissau: 53 anos de independência (Parte 1)

Amílcar Cabral (centro) e grupo de mulheres combatentes
Amílcar Cabral (centro) e grupo de mulheres combatentes | Crédito: Fundação Mário Soares

A Guiné sempre resistiu à imposição e subjugação por parte do colonialismo português, comenta o professor Carlos Cardoso

Por Elisabete Vitorino*

No último 24 de setembro, foi comemorado 53 anos de independência da Guiné-Bissau. Para entender melhor o processo de independência e gerar um dossiê sobre o país, entrevistei o professor Carlos Cardoso, formado em antropologia social e filosofia e doutor em Filosofia pela Universidade Friedrich Schiller, na Alemanha.

Professor Carlos Cardoso | Crédito: Arquivo pessoal/Carlos Cardoso

Atualmente, Cardoso é diretor do Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral (Cesac), membro da Comissão da Guiné-Bissau para a elaboração da História da Luta de Libertação Nacional e professor de filosofia na Universidade Católica da Guiné-Bissau.  

Elisabete Vitorino – A história política da Guiné-Bissau foi moldada pela Luta Armada de Libertação Nacional contra o domínio português, seguida por um longo processo de reconciliação que definiram o Estado moderno. Na sua visão, como analisa o processo de independência da Guiné-Bissau?

Carlos Cardoso – Para responder à sua pergunta, eu começaria por dizer que o processo de Independência da Guiné-Bissau foi um processo longo que durou 11 anos. Um processo marcado por vários episódios, obviamente, episódios que consubstanciaram as diferentes fases por que passou esse processo. Nós tivemos essencialmente três fases: uma primeira, em que se reclamava uma autonomia dos povos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde; uma segunda fase, em que podíamos dizer que foi a fase da ação direta; e, a terceira fase, a fase da luta armada. Diga-se que o que motivou a passagem por essas diferentes fases foi a resistência que o colonialismo português ofereceu à ideia de conceder independência aos países que, digamos, se encontravam sob sua tutela enquanto colônias, nomeadamente, a Guiné e Cabo Verde. É uma luta que teve esta característica de ser uma luta muito organizada, porque o próprio colonialismo português também tentou organizar-se e tudo fazer para impedir que esses povos acedessem a independência. Usou vários métodos para impedir isso. Nomeadamente, um método mais violento numa primeira fase, perseguindo os nacionalistas que iam aparecendo e à medida que a consciência revolucionária ia ganhando espaço.

Mapa da Guiné-Bissau | Crédito: Reprodução

Mas esse mesmo sistema colonial também usou outras táticas para impedir a independência. A uma dada altura, ele começou a implementar determinadas políticas que deviam fazer, digamos assim, nascer a impressão de que esses povos viviam sem nenhuma discriminação. Uma figura famosa que esteve ligada à implementação dessa política foi António de Spínola. Esse senhor tentou combinar ações psicológicas com uma repressão severa dos combatentes da liberdade da Guiné e de Cabo Verde, criando certas medidas como a construção de aldeias, de obras sociais, a promoção de uma elite bastante restrita, concedendo bolsas de estudos, tendo de combinar com essa tática, digamos assim, com o que chamou a política da “Guiné Melhor”. Tentando combinar essas medidas sociais e psicológicas com medidas de repressão, criou, por exemplo, os Comandos Africanos, que era um Comando essencialmente constituído por guineenses, à quem o colonialismo português tentou convencer de que eles é que de fato estavam a lutar pela preservação do colonialismo sob, obviamente, a bandeira portuguesa, e que ao mesmo tempo estavam a lutar pela proteção das populações da Guiné.

Esse processo de Independência foi de fato um processo sinuoso, contrariamente ao que aconteceu em outros países, inclusive colonizados por Portugal. A Guiné sempre resistiu à imposição e subjugação por parte do colonialismo português. Inclusive as ditas guerras de pacificação que tiveram lugar nos finais do século XIX e duraram até ao primeiro quartel do século XX foram porque existia uma feroz resistência em relação à subjugação colonial.

Podemos dizer que durante essas fases foram usados vários meios, várias táticas para sempre combater o colonialismo português. Em uma fase que se chamou fase da ação direta, vamos assistir a pequenas ações de sabotagem aos empreendimentos portugueses na Guiné. Tanto assim foi que ela foi de alguma maneira partilhada com outros movimentos de libertação. Porque é preciso dizer que durante os primeiros anos de resistência ao colonialismo vários movimentos de libertação, nomeadamente, a (FLING) Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné, o MLG (Movimento de Libertação da Guiné) e vários outros movimentos também reclamavam a independência da Guiné.

Nessa primeira fase, o PAIGC, que é o Partido Africanos para Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde vai partilhar esse esforço de libertação da Guiné e Cabo Verde com outros movimentos da libertação. Na terceira fase, que é a fase da luta armada propriamente dita, vamos assistir a uma concentração de forças por parte do PAIGC. O PAIGC afirma-se cada vez mais como o único movimento verdadeiramente capaz de se impor não só a nível daquilo que era a luta contra a dominação colonial, mas também a nível regional e internacional como o único movimento de luta verdadeiramente contra a colonização portuguesa. Portanto, é um movimento que vai combinar justamente as ações armadas com a diplomacia e a construção de uma vida nova nas zonas libertadas.

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Revolucionários guineenses | Crédito: Reg Lancaster/Daily Express/Hulton Archive/Getty Images

O PAIGC, a partir de 1963, dá início à luta armada, mas em 1964 já tinha começado a libertar certas zonas da dominação colonial e começou a construir nessas zonas ditas “zonas libertadas”, uma vida nova. As populações sentiam-se cada vez mais cômodas, cada vez mais confortáveis nessas zonas libertadas porque o PAIGC começou a implantar uma administração que abarcava não só a vida militar e política das populações, mas também a vida social e econômica. Tudo isto faz parte desse esforço de libertação que conduziu de fato à construção de uma vida nova. As escolas são fundadas, os alunos podem frequentar as escolas ainda nas matas, que eram consideradas zonas libertadas. Havia hospitais onde os guerrilheiros podiam ser tratados e havia sobretudo o embrião de uma justiça popular que era implementada nessas zonas libertadas. É um processo longo, é um processo complexo com contradições também porque em 1964, por exemplo, quando o PAIGC teve de realizar o seu primeiro congresso, ainda nas matas, houve um movimento de correção dos comportamentos dos combatentes. É de fato também um processo caracterizado por esse tipo de contradições, contradições dentro do próprio movimento. Contradições entre os próprios guerrilheiros, contradições entre aqueles que se portavam mal relativamente às populações. Houve um amplo movimento de correção desse tipo de comportamento desviantes relativamente àquilo que eram os interesses e os objetivos da luta. É aí, de fato, que o PAIGC começa a afirmar-se como o verdadeiro movimento revolucionário interessado na construção de uma vida nova para as populações da Guiné e Cabo Verde.

A particularidade dessa luta, desse processo de independência é que foi um processo que almejava a independência de dois países. Os povos da Guiné e Cabo Verde uniram-se à volta do PAIGC para levar a cabo essa luta pela independência. Essa particularidade obviamente também provocou, originou certas contradições que tinham de ser ou foram resolvidas não na sua globalidade, não na sua totalidade. As contradições que começaram a surgir, por exemplo, em relação à direção da luta: quem devia dirigir a luta, quem eram os que estavam nos lugares de comando, quem é que estava no campo de batalha. Houve uma série de contradições que precisaram de ser resolvidas ao longo da luta. Resumindo, poderíamos dizer que foi um processo bastante sinuoso, com altos e baixos, que teve, por exemplo, um dos momentos marcantes que foi o assassinato de Amílcar Cabral em 1973, que fez a luta entrar numa dinâmica diferente daquela que vinha tendo até aqui.

*Elisabete Vitorino é paraibana, assistente social, mestra em Serviço Social e especialista em Saúde Mental pela UFPB. Atualmente é doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. Foi professora do curso de graduação de serviço social na Univerdidade Federal do Recôncavo da Bahia e professora formadora do curso de Aperfeiçoamento em Educação para as Relações Étnico-Raciais, promovido pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) no Campus dos Malês. É autora do livro “Serviço Social e atuais tendências do exercício profissional na saúde mental em João Pessoa/PB”.

**Este texto integra um dossiê, no qual a colunista Elisabete Vitorino entrevista o professor Carlos Cardoso sobre a independência da Guiné-Bissau. As demais partes serão publicadas nesta coluna.

***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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