Amigas da Terra Brasil

Amigas da Terra (ATBr) é uma organização que atua na construção da luta por justiça ambiental. Quinzenalmente às segundas-feiras, publicamos artigos sobre justiça econômica e climática, soberania alimentar, biodiversidade, solidariedade internacionalista e contra as opressões.

O Brasil é de quem trabalha: viva a ousadia do povo brasileiro!

Maré vermelha tomou conta da Redenção, em Porto Alegre, nesta segunda (19)
Maré vermelha tomou conta da Redenção, em Porto Alegre, nesta segunda (19) | Crédito: Carolina Colorio

Nem a Meta, nem a grande mídia; sabemos qual é a escolha no dia 25!

A-li-e-na-ção é o processo pelo qual o trabalhador perde o controle daquilo que ele produz, e com isso se desconecta de sua humanidade, de sua história, de suas relações sociais. Talvez essa seja a palavra que mais explica o momento político-eleitoral que atravessamos no Brasil. Afinal, como explicar que estudantes bolsistas universitários anunciem seu voto para o bolsonarismo, que já cortou suas bolsas? Ou entender por que servidores públicos votam no mesmo partido que precariza seus direitos e privatiza seus postos de trabalho. Ou ainda, como os que vivem da venda da sua força de trabalho optem por projetos que acabam com programas sociais.

É no desalento gerado pelo próprio capitalismo que a extrema direita fascista cresce no Brasil. Cresceu tanto que abocanhou o centrão e vários sobrenomes de peso da política nacional. Mas o que eles vendem? Nada além de um ódio desmedido e insano. O projeto é o desmonte, para o privilégio de um grupo de políticos e seus amigos. E milhões de pessoas votaram no primeiro turno neste projeto. 

Examinando o programa de governo de Flávio Bolsonaro, não encontramos as palavras fome, agroecologia, agricultura familiar. Aliás, peculiar é o recorte sobre o meio ambiente, nas palavras dele: “Meio-ambiente: o ativo verde no Brasil”. Um incrível programa de governo que diz fazer tudo sem explicar como conciliar o inconciliável neste país. Afirma que irá respeitar os povos da floresta e preservar a “autonomia” para decidir, mas vindo de um partido que tentou revogar a Convenção n.º 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), retirando o direito de consulta dos povos indígenas e povos e comunidades tradicionais. 

Páginas e páginas de falácias escritas para vender o pão e promover o caos. Olhando mais de perto, Flávio afirma que irá preservar a Amazônia contra o crime, sendo que o filho é herdeiro do legado do pai, que teve em Ricardo Salles o ministro do Meio Ambiente que mais liberou o desmatamento e a derrubada da floresta. Recordemos os efeitos da liberação do garimpo artesanal e as suas consequências para todo território Yanomami. O bolsonarismo é um projeto anti-meio ambiente e natureza, que reitera uma visão colonialista sobre o campo, as águas e as florestas.

Que não nos tomem como otários. Metade dos apoiadores diretos do bolsonarismo está envolvida em denúncias de crimes sexuais, violência doméstica, entre outros. É triste estarmos vivas como feministas para presenciar uma jovem mulher eleita deputada afirmar que não existe feminicídio no país. De fato, esse ser vive engajado em bolhas virtuais que não permitem o acesso a livros para aprender que o Brasil vive recordes de mortes de mulheres por serem mulheres; foram mais de 1.571 casos apenas em 2025.  

Um programa de governo que almeja proteger as mulheres para fortalecer as famílias leva anos de luta feminista para superar a divisão sexual do trabalho de volta a casa. A proposta de “Brasil por elas” é a inclusão digital. E que, dentre suas ações, prevê um pacote de internet. E, para violência doméstica, vamos nos sentir seguras, já que teremos o título de propriedade das casas em nosso nome. Isso porque, com a escritura, vamos nos proteger da invasão, dos socos, das armas, dos estupros. Um texto que menciona “violência doméstica” apenas uma única vez.

E, para vocês, povos indígenas e quilombolas, o projeto bolsonarista relegou três menções, às suas terras, para decidir sobre atividades produtivas. De um texto que não menciona agricultura familiar nem agroecologia, mas prevê flexibilização de licenciamento ambiental, fica a pergunta: quando haverá e como será essa autonomia? Importante frisar, por outro lado, que há menção expressa à Ferrogrão, às hidrovias no Rio Tapajós e à mineração em larga escala, e à expansão de cadeias produtivas no Norte do país.

A proposta é clara: soberania é papo de esquerdista, visão ideológica. Porque a soberania de verdade é abrir mercados. Então, quando todas as nossas terras raras, florestas e águas estiverem nas mãos dos Estados Unidos e da ânsia trumpista, sobrarão bem pouco para nossa autonomia. E a nós, trabalhadoras e trabalhadores, não resta nada mais do que sermos força de trabalho (quase escrava) aos interesses sempre externos. 

E o direito à cidade? Bom, cidades definitivamente são problema de seus prefeitos e prefeitas; como outrora na pandemia, o bolsonarismo nada entende do federalismo. Para um plano de governo que entende que um dos problemas do Nordeste são as enchentes, não precisamos dizer que não haverá nem projeto de integração nacional para além dos corredores logísticos do agro e da mineração. Mesmo no cenário de crise climática, o plano não tem nem sequer menção a desastres. Além da incrível e única menção ao clima.

Do outro lado, temos o homem que tirou esse país diversas vezes da fome. Que, no seu retorno ao poder, em 2023, retomou mais de 75 programas federais extintos, relegados ou marginalizados do Governo Bolsonaro. Não é uma escolha difícil. Olhe na sua geladeira hoje e pense nela na pandemia. Lembra das filas do SUS? Da fila do osso? Da falta de vacina?

Você não precisa das redes sociais e nem das big techs para direcionarem o que você pensa. Você é povo brasileiro; sua história e seu suor são sua memória. São as dores que te ensinam. Em que governo foram seus melhores anos de vida? Quando o nosso país cresceu exponencialmente? Não se enganem, tudo o que os machistas, extremistas, fascistas, donos do poder querem é que você pense que precisa deles para viver bem. Quando, na verdade, eles precisam de você.

Na semana passada fizemos história. A classe trabalhadora, os estudantes, as mulheres, foram às ruas lutar para que sigamos um país tendo direitos. Defender a Constituição e as garantias democráticas. A independência do poder judicial, especialmente em tempos em que um Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atua em favor de seus interesses.  

E para não dizer que não anunciamos a esperança… Viva a ousadia de um balconista de farmácia que, atento à realidade que o cerca, foi capaz de propor um movimento pelo fim da escala 6×1 e conquistar aquela que é uma das maiores vitórias da classe trabalhadora no país! Um trabalhador apropriado de sua dignidade, uma deputada comprometida e um presidente com consciência de classe transformam a vida de milhares de brasileiros e brasileiras!

Amigas da Terra Brasil

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

|

Newsletter