Ana Carolina Marsicano, pesquisadora UFPE

Pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp / UFPE). Pós-doutoranda na Unicamp.

Quando a política veste camisas de futebol

Os coletivos políticos Direita Coral e Direita Sport têm marcado presença nos atos políticos da extrema-direita em Pernambuco
Os coletivos políticos Direita Coral e Direita Sport têm marcado presença nos atos políticos da extrema-direita em Pernambuco | Crédito: Reprodução do Instagram

Direita Sport e Direita Coral recusam a definição de torcida organizada, mas transformam o pertencimento aos clubes em linguagem de mobilização política.

No futebol, vestir a camisa é uma maneira de dizer “nós”. As cores, os escudos e as bandeiras tornam visível um pertencimento coletivo que atravessa gerações, territórios e classes sociais.

Em Pernambuco, onde clubes tradicionais de futebol ocupam um lugar importante na vida popular, essa identificação também passou a ser mobilizada por movimentos políticos de direita. O fenômeno revela mais que uma aproximação entre futebol e eleições: mostra como identidades construídas fora da política partidária podem se transformar em recursos de organização e disputa por representação.

É nesse contexto que surgem, em 2022, os movimentos Direita Sport e Direita Coral, em meio à polarização da disputa presidencial e à mobilização de apoiadores de Jair Bolsonaro. Embora utilizem símbolos e referências dos clubes, ambos se apresentam como movimentos políticos, não como torcidas organizadas. Suas bandeiras combinam referências ao time e símbolos nacionais e políticos associados ao bolsonarismo. O futebol aparece, assim, como uma linguagem capaz de aproximar duas formas de pertencimento: a identificação com o clube e a adesão a um projeto político.

Mas o que explica o surgimento desses movimentos? Teriam nascido de iniciativas de torcedores que já compartilhavam posições políticas ou de articulações vinculadas a redes conservadoras e partidárias? Até que ponto sua formação também pode ser compreendida como uma reação à presença de coletivos progressistas e de esquerda no futebol brasileiro?

Essas hipóteses ganham relevância quando observamos que os grupos aparecem em um contexto de intensa mobilização bolsonarista, mas também de disputas anteriores sobre o significado político das arquibancadas. As evidências disponíveis permitem identificar seus posicionamentos e formas de atuação, mas ainda não nos deixa determinar as condições concretas de sua fundação.

Independentemente de suas origens, a atuação desses movimentos passou a alcançar espaços de organização partidária e eleitoral. Em 2024, bandeiras da Direita Sport e da Direita Coral estiveram presentes no lançamento do coletivo de juventude do Partido Liberal (PL) em Pernambuco, evento que reuniu lideranças como Nikolas Ferreira, Carmelo Neto e Thiago Medina.

Na ocasião, Nikolas chegou a afirmar que, em 15 anos, o Nordeste seria de direita, revelando uma disputa política que ultrapassa os limites do estado. A Direita Coral também apresentou Thiago Medina como “o vereador da Direita Coral” e voltou a divulgar candidaturas nas eleições de 2026.

Mas a disputa não é apenas eleitoral. Quando a Direita Coral afirma que o “time do povo também tem representatividade da direita”, procura reivindicar uma identidade coletiva que não pertence a um único campo político. A mesma operação aparece em publicações acompanhadas da afirmação “Pernambuco é Bolsonaro!”, que contestam simbolicamente a associação do estado ao apoio eleitoral a Lula.

Nos dois casos, o movimento procura apresentar a direita como parte de identidades populares e territoriais mais amplas. A torcida, o povo e Pernambuco tornam-se referências mobilizadas na disputa por reconhecimento político.

Essa operação ganha forma na bandeira da Direita Coral, que reúne o escudo do Santa Cruz, os rostos de Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho e as expressões “todo poder emana do povo” e “nós somos o time do povo”. A composição aproxima símbolos que não possuem necessariamente o mesmo significado para todos os torcedores, mas que passam a integrar uma narrativa política comum.

Na Direita Sport, a combinação entre o escudo rubro-negro, a bandeira brasileira e mensagens contrárias ao comunismo e ao socialismo também explicita a tentativa de associar a paixão pelo clube a uma identidade coletiva direitista.

Há ainda uma dimensão que ultrapassa as campanhas eleitorais. Parte da atuação das direitas contemporâneas acontece fora dos partidos, em espaços de convivência, formação e circulação de ideias. É nesse terreno que a noção de metapolítica ajuda a compreender o fenômeno. A disputa não se limita à conquista de votos, mas envolve a construção de referências culturais e identificações políticas no cotidiano.

Ao anunciar iniciativas de formação de lideranças e articulação comunitária, esses movimentos indicam que o futebol pode oferecer mais do que uma linguagem para campanhas. Pode funcionar como ponto de partida para redes de mobilização que atravessam diferentes períodos eleitorais.

Nada disso significa que os clubes ou suas torcidas compartilham uma mesma orientação política. As arquibancadas reúnem experiências sociais e posições ideológicas distintas, incluindo iniciativas antirracistas, feministas, antifascistas e torcedores que não se identificam com qualquer movimento político.

A novidade não está, portanto, na presença da política no futebol, mas nas formas pelas quais grupos específicos procuram transformar uma identidade compartilhada por milhares de pessoas em ponto de articulação para um projeto ideológico.

O caso suscita uma questão central para a compreensão das direitas contemporâneas: em que medida essas iniciativas contribuem para ampliar suas bases de apoio político ou apenas conferem maior organização e visibilidade a torcedores que já se identificavam com esse campo ideológico? Para responder a essa questão, é necessário examinar a atuação desses movimentos para além das redes sociais e dos eventos eleitorais, considerando as trajetórias de seus integrantes, suas formas de mobilização e suas articulações políticas.

Nesse sentido, os movimentos Direita Sport e Direita Coral evidenciam como as disputas políticas contemporâneas também se desenvolvem em espaços de sociabilidade cotidiana, mobilizando vínculos de identificação, lealdade e pertencimento construídos no universo futebolístico muito antes de sua expressão político-eleitoral.

Editado por: Vinícius Sobreira

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