Ana Carolina Marsicano, pesquisadora UFPE

Pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp / UFPE). Pós-doutoranda na Unicamp.

Não basta ser jovem: a disputa pelo sentido da renovação política

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A pesquisa “Juventudes: um Desafio Pendente” mostra que 57% dos jovens têm baixa confiança nos partidos | Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

Entre os 59 jovens eleitos em 2026 para o legislativo, 27 foram classificados como de direita, 18 de extrema-direita e 14 de esquerda

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada quando nos questionamos se os jovens brasileiros estão se tornando mais conservadores. Observar apenas as posições ideológicas de jovens à direita deixa escapar uma transformação mais importante: a juventude tornou-se objeto de disputa. Não se trata só de conquistar votos, mas de definir quem pode falar em nome de uma geração e o que merece ser reconhecido como renovação política.

Segundo o Monitor Jovem DX, entre os 59 jovens eleitos em 2026 para o legislativo, 27 foram classificados como de direita, 18 de extrema-direita e 14 de esquerda. As direitas somam cerca de 76%. Entretanto, esses números não mostram como esses atores conquistaram reconhecimento e reivindicam autoridade para representar uma geração.

Juventude não é apenas idade — pode ser identidade, estética, linguagem e posição política. Alguém pode falar em nome de uma geração sem ser demograficamente jovem. Ter 25 anos, por sua vez, não explica como se reivindica a condição de representante do novo.

Embora tenha 42 anos, Renan Santos, presidente do partido Missão e candidato à Presidência da República em 2026, coloca a juventude no centro de seu discurso político. Mas não se trata de qualquer jovem. O futuro do país estaria nas mãos daqueles considerados preparados para romper com um sistema identificado com a corrupção e o atraso. Trabalho, disciplina, empreendedorismo e produtividade aparecem como virtudes dessa nova geração, em oposição a figuras como a “novinha disfuncional” e o “nóia”, associadas à ostentação, à desestruturação familiar e à dependência.

Essa distinção revela que a disputa não ocorre apenas entre gerações, mas no interior da própria juventude. Ao estabelecer quem estaria apto a conduzir o futuro do país e quem representaria os problemas a serem superados, Renan Santos transforma a renovação política em uma questão de mérito e conduta moral.

Com Estefane Sampaio (Republicanos-DF), eleita deputada distrital em 2026, a questão assume outra forma. Com o cargo de coordenadora nacional do Garotas Republicanas, ela pergunta “quem serão as deputadas e governadoras de amanhã?” e “quem está preparando essas meninas hoje?”.

A nova geração não espera sua vez, precisa ser formada. E formar significa definir que tipo de mulher ocupará o futuro. Estefane reivindica protagonismo feminino, mas o associa à fé cristã e a atributos como “sensibilidade”, “delicadeza” e “toque feminino”. Dessa forma, liderar não exigiria abandonar o que seria propriamente feminino. Nesse discurso, renovação e tradição convivem sem contradição.

Carmelo Neto (PL-CE), eleito deputado federal, reivindica a juventude por outra via. Entra em universidades, percorre obras, visita hospitais e cidades do interior para “mostrar”, “provar” e “escancarar” aquilo que ele denuncia. A câmera confere às imagens aparência de prova, mas ele seleciona o que será visto. Sua autoridade combina presença física, fiscalização diante das câmeras e promessa de acesso direto aos problemas públicos. A juventude se torna um estilo de atuação: confrontar, circular e expor.

A eleição de Carmelo Neto também permite observar a relação entre visibilidade digital e vínculos familiares. Sua esposa, Bella Carmelo (PL), foi eleita deputada estadual com 130,8 mil votos, tornando-se a mulher mais votada para o cargo no Ceará, enquanto Carmelo recebeu 56 mil votos para deputado federal. Nas publicações de campanha analisadas, embora cada candidatura tivesse identidade visual própria, ambas eram divulgadas nos perfis do casal, inclusive com a legenda “Coragem em dose dupla!”.

A campanha conjunta evidencia como os vínculos conjugais também participam da construção de projetos políticos, mostrando que a renovação geracional pode conviver com formas tradicionais de organização do poder.

Estas reflexões partem de dados exploratórios do projeto “Juventudes conservadoras: antagonismos, articulações e mobilizações”, desenvolvido na Fundação Joaquim Nabuco, coordenado pelo pesquisador Joanildo Burity.

Sem representar toda a juventude conservadora, os casos revelam estratégias distintas: em Renan, ela é moralmente classificada; em Estefane, deve ser formada; em Carmelo, ganha visibilidade por meio da denúncia e da circulação de imagens. Não há uma única maneira conservadora de reivindicar a renovação. A disputa pelo novo ocorre também no interior das direitas.

Essas identidades se constituem em relação a adversários, valores religiosos e repertórios políticos. As lideranças não apenas reproduzem discursos, atualizam-nos e ampliam seu alcance, sem perder responsabilidade por suas escolhas.

Também importa perguntar quem forma essas lideranças. Os partidos importam, mas dividem com movimentos, organizações e plataformas digitais a produção de audiências, pertencimentos e autoridade. Alguns chegam aos partidos com visibilidade própria; outros encontram neles meios de ampliá-la. As plataformas não são vitrines: suas linguagens moldam o fazer político.

Contar quantos jovens foram eleitos em 2026 é importante, mas insuficiente. Precisamos perguntar quais projetos conseguem se apresentar como expressão de uma nova geração, quem participa de sua formação e quais juventudes ficam fora dessa promessa de futuro.

Renovação não é atributo natural da idade, nem projeto compartilhado por todos os jovens. É uma reivindicação atravessada por disputas de valores, autoridade e poder. Não basta ser jovem para representar o novo. A questão é quem define o que significa ser novo e quem transforma essa definição em legitimidade política.

Editado por: Vinícius Sobreira

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