No dia 17 de setembro deste ano, foi anunciado um reajuste no valor do Bolsa Família de 15,04%. Desde a retomada do atual modelo do benefício, em 2023, essa é a primeira vez que ele é atualizado de acordo com a inflação. Ele foi atualizado com base no Índice Nacional de Preços do Consumidor (INPC), o mais coerente para se utilizar nesse caso, pois ele mede a variação de preços numa cesta de produtos e serviços que são mais consumidos por famílias que recebem entre 1 e 5 salários mínimos. Esse reajuste ampliará a capacidade de consumo de itens básicos, como a alimentação, por exemplo.
Em 2003, quando o programa Bolsa Família foi criado, eu tinha 13 anos e estava na sétima série. Me lembro que ele fez grande diferença naquele momento, pois o valor do Bolsa Escola – programa anterior ao Bolsa Família – era muito inferior a este novo programa que chegava.
Tenho a memória de como isso nos proporcionou acesso a alimentos de melhor qualidade, compra de alguns eletrodomésticos que não tínhamos e até mesmo uma reforma no banheiro e instalação de um chuveiro elétrico. Esse programa, juntamente com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) foi responsável por garantir que milhões de crianças não passassem fome, a minha geração viu isso acontecer.
De acordo com os dados do Censo Escolar, o número de crianças que abandonaram a escola caiu aproximadamente 16,59% de 2002 para 2005, certamente esse foi um efeito positivo do Bolsa Família, pois este é um programa que requer a frequência de crianças na escola como um requisito. Me lembro da minha mãe falando o quão importante era não faltar às aulas, pois não podíamos “perder o bolsa”.
No minidocumentário No Devagar Depressa dos Tempos, dirigido por Eliza Capai, as mulheres contam sobre a diferença que a quantia recebida pelo Bolsa Família faz em suas vidas. Apesar de viverem em situação de privações, elas relatam que os seus filhos vivem melhor do que elas quando eram crianças: “Minha filha hoje já alcançou coisa que eu não alcancei, hoje meus filhos não passam fome”, disse uma das participantes do curta que se passa em Guaribas (PI), cidade que em 2003 possuía o menorÍndice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país e, por isso, foi escolhida como projeto-piloto do programa Bolsa Família.
É possível perceber as mudanças ocorridas na vida dos brasileiros, especialmente das mulheres, tanto por meio dos dados macroeconômicos como das histórias de vida: a minha, das minhas amigas da escola e das crianças de Guaribas. É inegável que a nossa vida melhorou a partir da primeira metade dos anos 2000, as políticas públicas de garantia de renda mínima – como o Bolsa Família e o Benefício Assistencial à Pessoa com Deficiência (BPC-LOAS) – tiveram e têm o papel de tentar resolver um problema emergente sério, que é a extrema pobreza. Os índices de acesso a energia elétrica e água encanada, taxa de escolaridade, taxa de mortalidade infantil, taxa de desocupação e tantos outros dados que podem parecer apenas números aleatórios representam como a vida dos brasileiros mais pobres melhorou.
Claro que os problemas não acabaram, mas agora eles são outros e, por isso, precisamos garantir o mínimo que já temos para pensarmos em soluções para os novos desafios, que são resultado de transformações do capitalismo.
Ter o básico nos possibilita sonhar, eu ousei entrar na universidade e, apesar das dificuldades, consegui. As crianças filmadas por Eliza Capai ousaram sonhar, expressaram seu desejo de acessar a universidade e se tornarem professoras, médicas, enfermeiras… Mas para sonhar é preciso não ter fome, é preciso ter onde morar, ter energia elétrica em casa e uma escola no bairro. É preciso ter o mínimo para que as crianças e os adolescentes ousem imaginar e desejar um futuro diferente para si próprias.
O reajuste de 15,04% pode não parecer tanto para você que está lendo este texto, mas saiba que para quem recebe, esse valor faz diferença. Não permitamos que o Brasil volte ao Mapa da Fome, como aconteceu em 2021, não temos o direito de retirar a possibilidade destas crianças sonharem. Somos também responsáveis por elas e isso é representado por meio do nosso voto.
*Ana Cristina Mélo é doutoranda em Economia Política Mundial e militante da Marcha Mundial das Mulheres.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


