Ao mesmo tempo em que as eleições de 2026 colocam em disputa dois projetos antagônicos de país, elas representam uma grande oportunidade para a participação popular no debate sobre o futuro do Brasil. Para que esse futuro traga justiça social e sustentabilidade, no entanto, é urgente que a agroecologia deixe de ser vista apenas como um conjunto de técnicas agrícolas e passe a ser debatida como projeto político.
Essa é uma das ideias que se destacaram nos encontros regionais realizados pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e pelas redes que a compõem, para debater a divulgação e realização de atividades por todo o país em torno da Carta Política da Articulação Nacional de Agroecologia, como parte da iniciativa Agroecologia nas Eleições 2026. A campanha é realizada pela quarta eleição consecutiva e traz o posicionamento eleitoral da agroecologia, propostas para candidaturas nos níveis estadual e federal e denúncias sobre ameaças enfrentadas por povos e territórios.
Além de propor técnicas de cultivo, a agroecologia fala sobre saúde, preço da comida, clima, água, recursos naturais, enfim, sobre o modelo de desenvolvimento do país. Mais do que uma escolha sobre como produzir comida, a agroecologia adota um compromisso com a defesa da democracia, da vida, das lutas feministas, antirracistas e da soberania nacional. Como projeto político, defende a democratização do acesso à terra por meio da reforma agrária integral popular e a garantia dos direitos territoriais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Sua agenda também se destaca por pautar a soberania alimentar, o Direito Humano à Alimentação Saudável e o combate ao racismo ambiental e à “guerra química” do agronegócio com o uso e pulverização aérea dos agrotóxicos, duas ferramentas de expulsão e violência no campo.
O atual sistema agroalimentar industrial é um dos principais vetores de uma “policrise” que afeta o clima, a economia, a saúde pública e intensifica as desigualdades sociais. Debater a agroecologia politicamente permite contestar soluções puramente técnicas e de mercado, como os créditos de carbono e a “economia verde”, que mantêm a lógica do lucro privado, enquanto transferem custos ambientais para os mais pobres.
Em contrapartida, a agroecologia propõe uma transformação estrutural, fundamentada na defesa da biodiversidade por meio dos saberes de povos indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades urbanas, priorizando a soberania alimentar e o direito à alimentação saudável.

O debate eleitoral, por sua vez, surge como caminho para levar as propostas dos movimentos populares para dentro do Estado, garantindo que a agroecologia seja apoiada por programas de governo e pautas legislativas, o que é fundamental para que as políticas públicas agroecológicas sejam fortalecidas e adaptadas às diferentes realidades territoriais.
Sarah Luiza Moreira, que integra a equipe nacional da iniciativa, explicou que a carta política da ANA é um importante instrumento de mobilização das redes estaduais e regionais. “A nossa estratégia é que as redes estaduais realizem atividades tanto com as candidaturas quanto com a sociedade, eleitoras e eleitores, para trazer a agroecologia para o centro do debate eleitoral. A ideia é que candidatas e candidatos apresentem também como suas propostas de campanha dialogam e fortalecem as pautas agroecológicas da classe trabalhadora e a defesa de direitos. Assim, vai ser possível que as/os eleitoras/es e as redes apoiem e escolham suas/seus candidatas/os” , disse Sarah Luiza.
Além disso, ao afirmar a agroecologia nas urnas, é possível confrontar as tendências neofascistas que ameaçam o Estado democrático de direito e a soberania nacional. Nos encontros regionais, Paulo Petersen, integrante do Núcleo Executivo da ANA, lembrou o quanto, apesar de o período eleitoral favorecer a circulação de ideias, o debate tem sido empobrecido por ataques pessoais que ocultam a discussão de projetos de país. Para ele, “afirmar a agroecologia nas urnas é uma estratégia para barrar o avanço da extrema direita e dos discursos de ódio, defendendo a democracia como condição inegociável para a construção de sistemas alimentares justos”.
A experiência acumulada pelas redes de agroecologia indica, ainda, que não basta eleger nomes; é preciso eleger projetos que se transformem em políticas públicas com impacto nos territórios. Fabio Pacheco, integrante da Associação Agroecológica Tijupá e da ANA Amazônia, destaca que, embora existam hoje cerca de 90 políticas públicas ativas em sua região, fruto da incidência do movimento popular, ainda há grandes desafios, especialmente na Amazônia, onde as políticas muitas vezes não são adaptadas à realidade local e enfrentam a hostilidade de governantes alinhados ao agronegócio.
Para Pacheco, a agenda política para 2026 deve focar em pontos estruturantes, como: a democratização do acesso à terra por meio da reforma agrária popular e a garantia dos direitos territoriais; o fortalecimento de ações como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), garantindo que o orçamento público apoie a produção da agricultura familiar e agroecológica; o enfrentamento aos agrotóxicos, com a implementação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara); a justiça climática e o combate ao racismo ambiental, protegendo os bens comuns e os modos de vida tradicionais contra o avanço do extrativismo predatório.
Essas e outras propostas são abordadas na Carta Política da ANA, disponível no site www.agroecologia.org.br
**Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

