Neste ano, a disputa eleitoral evidencia narrativas opostas sobre o futuro do desenvolvimento econômico, produtivo, social e ambiental do Brasil. De um lado, modelos pautados pela exploração desenfreada, pelos impactos dos megaprojetos nos territórios e pela mercantilização dos bens naturais, dos corpos e das vidas das mulheres; do outro, projetos voltados à valorização da vida, pela ética do cuidado e da justiça socioambiental.
É imprescindível, nessa conjuntura, compreender a agroecologia e o feminismo como pilares indispensáveis, que vão além da pauta técnica ou de gênero: consolidam-se como um projeto político de sociedade orientado pela justiça social, pela defesa do bem viver e da lógica do cuidado, pelo combate às desigualdades e pelo enfrentamento à emergência climática.
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados em julho deste ano, as mulheres continuam sendo maioria no eleitorado brasileiro, somando 52,84% do total. Mas, se são maioria, por que ainda são sub-representadas nos espaços de poder e representação política?
Essa disparidade é fruto das pressões estruturais impostas pelo sistema capitalista, patriarcal e racista que impera na nossa sociedade. A sub-representação reflete a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados, a distribuição desigual de recursos financeiros nas estruturas partidárias e a permanente violência política de gênero — que não reconhece as mulheres como sujeitos políticos, tenta desestimular e impedir a ocupação de cargos públicos por mulheres e, para isso, adota estratégias cruéis, como ameaças de morte e estupro a candidatas ou eleitas.
Diante dessas pressões, é necessário defender que a atuação parlamentar encare diretamente as diversas formas de violência vivenciadas pelas mulheres no cotidiano. Para isso, é necessário enfrentar o discurso de ódio disseminado nos últimos anos pela extrema direita no Brasil e no mundo. Não basta garantir a presença das mulheres nas urnas: é preciso levar mulheres com compromisso feminista para os espaços de poder e decisão. É por meio delas que as pautas relevantes à vida das mulheres — como o fim do feminicídio, do ódio contra as mulheres e de todas as outras formas de violência de gênero e de raça — podem se consolidar.
O encontro do GT Mulheres da ANA
Entendendo a urgência de eleger mulheres progressistas e feministas que coloquem a agroecologia no centro de suas propostas, o Grupo de Trabalho Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da ANA) promoveu um encontro on-line no dia 8 de setembro com candidatas aos cargos de senadora, deputada federal e deputada estadual de diversas unidades da Federação para discutir a integração dessas pautas em seus projetos políticos.
Segundo Sarah Luiza, integrante da coordenação do GT, o encontro reuniu candidatas para uma conversa na busca por conhecer suas histórias e entender como suas propostas dialogam com a agroecologia e o feminismo. “É muito importante ouvir como as histórias de vida e de luta dessas candidatas, seus posicionamentos e propostas indicam o tipo de representação que elas vão exercer como deputadas e senadoras. Significa muito para nós que as candidaturas consigam olhar onde estão as mulheres nos territórios, entender os desafios, a sobrecarga de trabalho e as diferentes formas de violência e de exploração a que essa população feminina está submetida. Além disso, é fundamental saber quais são as propostas que as candidatas apresentam para mudar a vida das mulheres”, afirmou.
O encontro reuniu as candidatas de diversos estados, entre elas:
- Dani Portela – Candidata a deputada estadual (PE) – PT
- Jô Oliveira – Candidata a deputada estadual (PB) – PCdoB
- Maria Madalena Nunes – Candidata a senadora (PI) – PSOL
- Rosa Amorim – Candidata a deputada federal (PE) – PT
- Maria da Consolação Rocha – Candidata a deputada federal (MG) – PSOL
- Marina Campos – Candidata a deputada estadual (MG) – PSOL
- Vanda Witoto – Candidata a deputada federal (AM) – MDB
Para Marina Campos, candidata a deputada estadual de Minas Gerais, falar sobre feminismo e agroecologia como política é também reforçar o compromisso histórico das mulheres na luta por justiça, reverenciando sempre a ancestralidade. “Nós, mulheres, nos erguemos diante de tantos envenenamentos. Somos protagonistas da prática da agroecologia, da soberania alimentar e da reforma agrária. Defendemos nossos territórios porque colocamos a vida acima do lucro e continuaremos fazendo política pública nas áreas da saúde pública e meio ambiente. Não seremos interrompidas. Faremos justiça e preservaremos a memória daquelas que morreram lutando contra as cercas do latifúndio, como Margarida Alves e tantas outras que nos antecederam”, afirmou.
Antes do bate-papo, foi apresentada a carta política “Por um Brasil Soberano e Agroecológico: aprofundar a democracia para construir um futuro com justiça, sustentabilidade e paz”, elaborada pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) para as eleições de 2026, com participação direta do GT Mulheres, que consolida demandas históricas do campo e propostas para a gestão pública e o Legislativo.
A carta situa a disputa eleitoral em um cenário de ameaças à democracia no Brasil e no mundo, marcado pelo avanço de discursos neofascistas, pelo aprofundamento do racismo, do sexismo e da LGBTQIAPN+fobia, e pela instalação de uma crise social, política, econômica, ecológica, cultural e alimentar, cuja face mais visível é a emergência climática. Identifica também ameaças concretas ao avanço da agroecologia, como a expansão do agronegócio e da mineração sobre territórios tradicionais, a flexibilização de normas ambientais e de agrotóxicos, o aumento da violência de gênero e racial no campo e nas cidades e o uso crescente de inteligência artificial e de plataformas digitais para disseminar desinformação.
Construir diálogos como esse revela que agroecologia e feminismo não são pautas isoladas, mas parte de uma mesma leitura sobre quem sustenta a vida no Brasil: as mulheres, seus corpos, territórios e modos de produzir e cuidar. Ao priorizarem a ética do cuidado, a soberania alimentar e o enfrentamento às violências de gênero, raça e classe, essas candidatas mostram que representar mulheres na política também significa disputar outro modelo de desenvolvimento. Um modelo que valorize os saberes tradicionais, compartilhe de forma equilibrada o trabalho doméstico e de cuidado entre sociedade e Estado, e combata a exploração dos bens naturais e a violência contra as mulheres.
*Manu Maia é integrante do Grupo de Trabalho Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da ANA).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


