“Quando você olha por muito tempo para o abismo, o abismo também olha para você”. A frase é de Friedrich Nietzsche, brilhante como muitas outras do filósofo alemão. Quer dizer que aquele olhar que vem das trevas pode nos enfeitiçar, degradar e consumir.
Assim estivemos, contemplando o abismo, nos últimos meses deste aterrador ano de 2026. Com direito a noites mal dormidas, terrores noturnos, bruxismo, dores no corpo e na alma, nervos estraçalhados e uma tensão insuportável.
Mas sobrevivemos e aqui estamos embriagados com a fraternidade, o fervor, a beleza e a coragem das ruas. E pela tomada das redes. Sobrevivemos, apesar do voto de 59.826.04 brasileiros e brasileiras que alegremente optaram pelo abismo de Nietzsche.
Hipnotizados pela vertigem, eles e elas ingeriram um coquetel de paradoxos.Depositaram sua segurança nas mãos de um personagem íntimo de assassinos de aluguel. Viram nele aquela pureza sacrossanta que aniquilaria a corrupção, pouco importando sua ficha corrida e as acusações de lavagem de dinheiro, peculato, apropriação indébita e organização criminosa, e a prática compartilhada com o clã Bolsonaro de adquirir 55 imóveis com dinheiro vivo.
Que ainda responde a inquéritos no STF sobre mais lavagem de dinheiro e de conexões suspeitíssimas com parça e possível sócio, hoje foragido. Um senador da república que implora milhões e acaricia o maior patife da história recente do Brasil com o afetuoso tratamento de “mermão”.
Um patriota que implora por sanções e bombardeios contra seu próprio país e um defensor da família cristã afeito à surubas no lago Paranoá.
Mas 64.256.232 eleitores e eleitoras rejeitaram o precipício.
Por uma tremenda e simbólica coincidência, a recusa ocorreu no dia 25 de outubro, data que assinalou os 51 anos do assassinato sob tortura do jornalista Vladimir Herzog nas masmorras do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi, do II Exército, em São Paulo. Corria 1975 e provocou a primeira grande manifestação de rua após a decretação do Ato Institucional 5, o AI-5, sete anos antes.
Podemos dizer que o voto no dia 25 também foi um voto de ódio e nojo à ditadura que a ultradireita tentava, outra vez, exumar.
Simbólica também foi a ordem como os fatos se deram a partir da derrota no 1.o. turno. No dia seguinte, segunda-feira, 5 de outubro, estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), saíram em passeata no Rio contra a ameaça fascista. Os jovens acenderam o rastilho.
Expontaneamente, outras universidades federais reproduziram a ação nos dias seguintes. Logo, vieram os partidos, movimentos sociais, sindicatos, ONGs e multidões se puseram a marchar pelo país até a véspera do dia da decisão.Naquele momento, o movimento do arco atingiu o outro extremo: em cadeiras de rodas, apoiados em bengalas e andadores, carregadas por familiares ou caminhando com suas próprias forças, os velhos foram votar, ajudando a derrubar a abstenção e a reeleger outro velho.
Foi a última eleição de Lula e foi, para muitos desses seus eleitores, o derradeiro voto na vida.
Foi a última grande batalha da geração de 1968, a que ajudou o mudar o mundo. A geração daqueles meninos e meninas que eram adolescentes ou jovens adultos nos anos 1960. A de Lula e de seus companheiros de jornada. Lula, José Genoíno, Zé Dirceu, Olívio Dutra e outros estarão perto dos 90 anos quando chegar 2030. Também Chico, Gil, Caetano, a santíssima trindade da MPB, que nunca se afastou da linha de frente da democracia e da justiça social.
A grande notícia é que as ruas, as redes e os votos apontaram a chegada de outra geração. São homens e mulheres de todos os estados, das capitais ou do interior, deputados e deputadas eleitos pelas siglas que apoiam Lula. São eles e elas, aliados aos que já estão no Congresso e nos governos e assembleias estaduais, que conduzirão a chama pelos árduos e tumultuados anos que nos aguardam.


