A luta histórica das mulheres negras está sendo reconfigurada pelos sistemas digitais e pela inteligência artificial (IA). Então, neste mês de reflexão da resistência da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, acredito que cabe a questão: Quem controla os algoritmos que decidem quais vozes aparecem, quais são silenciadas e quais são atacadas?
Vamos saber…
A luta das mulheres negras continua nos algoritmos
“No século XXI, a luta das mulheres negras também passa pela disputa dos algoritmos, da inteligência artificial e do simples ato de habitar as plataformas digitais de forma ativa, porque é nesse espaço que se reorganizam as relações de poder, visibilidade e participação democrática”.
Como destacou Lélia Gonzalez, é inegável que o feminismo, como teoria e prática, tem desempenhado um papel fundamental nas nossas lutas. Precisamos conscientemente ampliar a reflexão da exclusão das mulheres negras e sua luta que também acontece no ecossistema digital. Estamos falando de uma exclusão que é econômica; é política, mas também uma disputa de quem pode falar, de quem é escutada, de quem produz conhecimento e de quem ocupa espaços de decisão seja nos ambientes privados, seja nos ambientes públicos. Hoje essa disputa atravessa as plataformas digitais.
Se antes o silenciamento acontecia nas instituições, hoje ele também é produzido por plataformas, algoritmos e sistemas de IA. A inteligência artificial intensifica o cenário da disputa e para compreender isso é preciso considerar que a IA não é uma ferramenta, não é mágica e não é neutra. Ela influencia a visibilidade dos corpos e suas narrativas na Internet e, por consequência, pode inferir na reputação das pessoas no contexto digital e fora dele, consolidando o ciclo de silenciamento e exclusão.
Conforme sinalizou Sueli Carneiro, o “racismo é um sistema de dominação, exploração e exclusão que exige a resistência sistemática dos grupos por ele oprimidos, e a organização política é essencial para esse enfrentamento”. Logo, é preciso estarmos vigilantes às tentativas de despolitização da inteligência artificial, pois somente a entendendo como tecnologia política teremos capacidade de disputá-la.
A circulação de discursos e a produção de informação também são afetadas por essa dinâmica desigual que se impõe no cenário da disputa das vozes das mulheres negras nesses espaços. O algoritmo não privilegia essas vozes graças à memória e continuidade histórica dos dados, além de que as plataformas possuem interesses comerciais, e por vezes ideológicos, nas relações estabelecidas. Mas não podemos cair aqui no debate que os algoritmos “escolhem” prejudicar mulheres negras. Não é disso que se trata e levar para este lado enfraquece o argumento.
O que a literatura (Safyra Noble, 2021) mostra é que os sistemas de recomendação, moderação e ranqueamento em IA são otimizados para determinados objetivos de engajamento, retenção, publicidade, marketing digital, detecção automática, dentre outros. Isso associado a sociedades desiguais e dados enviesados, tendem a ampliar e reproduzir desigualdades. E já podemos destacar aqui que o algoritmo privilegia aquilo que gera maior engajamento.
Segundo Safyra Noble, parte do desafio de compreender a opressão algorítmica é entender que as formulações matemáticas que orientam as decisões automatizadas são feitas por seres humanos. Embora frequentemente pensemos em termos como ‘big data‘ e ‘algoritmos’ como sendo benignos, neutros ou objetivos, eles são tudo menos isso.
Soberania digital também é uma pauta feminista e antirracista. O debate sobre o desenvolvimento de tecnologias nacionais é importante, mas mais relevante ainda questionarmos também quem desenvolve, quem regula, quem participa, quem é protegido, quem continua invisível. Não haverá soberania digital enquanto mulheres negras continuam sendo sub-representadas nos espaços de decisão sobre IA, ciência, inovação e governança tecnológica.
Quero dizer que o 25 de Julho não é uma data abstrata, é um momento de cobrança e militância nas ruas e nas redes digitais.
O corpo que ocupa espaço público muda o tipo de violência que recebe
“É preciso que a gente acabe com essa escalada de violência política e de gênero, direcionada àquelas que expressam verdades.” (Benedita da Silva).
Não é novidade que mulheres negras estejam na base da pirâmide de violência no Brasil. O que menos se discute é que essas desigualdades não desaparecem quando a mulher negra ocupa um espaço de poder, ela se transforma.
Quando o corpo que ocupa a tribuna, a prefeitura ou o mandato parlamentar é negro e é mulher, a violência que recebe esse corpo recebe muda de intensidade, não muda de natureza. Ela se torna mais pública, mais consentida socialmente, e, agora, mais automatizada.
Em março de 2026, um sistema de reconhecimento facial usado pela Polícia Civil de Pernambuco incluiu as fotografias das deputadas federais Duda Salabert e Erika Hilton, ambas mulheres trans, em uma lista de suspeitas de crimes no Recife. Não havia semelhança física plausível que justificasse o erro. Não houve, tampouco, alguém programando o sistema com intenção deliberada de atacá-las.
E é exatamente aí que mora o problema mais incômodo. Não é preciso que alguém programe um algoritmo para ser racista ou transfóbico. Basta que esse algoritmo aprenda, sem questionar os dados e os mesmos padrões de suspeição que policiais humanos já direcionavam a corpos negros e trans muito antes de qualquer sistema de inteligência artificial existir.
Caso como esses não são isolados. Prefeitas, vereadoras e deputadas negras vêm sendo alvos de fake news e deepfakes, montagens e campanhas de desinformação que, cada vez mais, se apoiam em ferramentas de IA de acesso trivial e custo quase nulo.
O que antes exigia perícia técnica específica para forjar ou manipular uma imagem hoje é produzido com um simples comando (prompt) em segundos, por qualquer pessoa, com um aplicativo de IA generativa gratuito.
O modus operandi da violência política de gênero atualmente entra em cena quando o espaço digital se torna mecanismo de exclusão democrática. Desse modo, tal violência online não é um problema individual, como alguns querem nos fazer acreditar. Ela produz efeitos democráticos ao reduzir participação de mulheres na esfera política, produz autocensura, afasta mulheres da política nas redes online e físicas. Quando os ataques são direcionados às mulheres negras nas redes não é apenas atacar pessoas. É limitar quais projetos de sociedade conseguem ocupar o espaço público.
Quando essa violência é amplificada pelas plataformas digitais e potencializada por tecnologias de IA, seja pela recomendação de conteúdos, pela automação de ataques, pela criação de imagens manipuladas ou pela dificuldade de moderação e identificação dessas incidências, ela deixa de ser apenas interpessoal e passa a integrar uma infraestrutura de exclusão política.
Observatório da Violência Política de Gênero na Internet
“Quem já possui grande alcance tende a receber ainda mais visibilidade”.
É tentador tratar esses episódios como bugs, erros pontuais de um sistema que, no geral, funciona bem. Essa leitura é confortável demais. Um sistema que decide quem é suspeito, quem é visível, quem é crível diante da opinião pública, é um sistema político. E todo sistema político sempre teve dono, sempre serviu a algum interesse, sempre distribuiu poder de forma desigual entre quem já tinha mais e quem já tinha menos. Chamar isso de neutralidade técnica não é engano e nem ingenuidade. É estratégia para não responsabilizar ninguém.
É diante desse cenário que venho coordenando o Observatório da Violência Política de Gênero na Internet, um painel elaborado com o apoio de inteligência artificial, lançado em março de 2026, com um objetivo simples de expor e denunciar a partir de mapear, documentar e tornar visível o padrão de ataques que mulheres, sobretudo mulheres negras e trans, enfrentam na vida pública digital.

Essa iniciativa acadêmica, do LTI Digital (lti.ufba.br) articula inteligência artificial e compromisso social, fortalecendo o enfrentamento às desigualdades e a defesa da democracia. Até o momento, o painel já mapeou mais de sete milhões de incidentes envolvendo violência política de gênero no ecossistema digital de oito países da América Latina. Defendemos que, diante do apagão de dados sobre este assunto, é preciso produzir evidências científicas sobre como a violência digital afeta a participação das mulheres na política.
Antes de combater qualquer violência é preciso nomeá-la com precisão, e a tecnologia que a amplifica não pode continuar escondida atrás do discurso de que é só um algoritmo.
A reflexão que deixo pra você hoje é que neste 25 de julho, a homenagem mais honesta às mulheres negras que vieram antes de nós, de Tereza de Benguela às parlamentares que hoje enfrentam ataques automatizados, é recusar o conforto da neutralidade e perguntar, sem medo: quem programa, quem se beneficia, e quem paga o preço quando a máquina decide.
E para finalizar recupero as palavras da Deputada Benedita da Silva (PT): “Nós, mulheres negras, não queremos guetos. Buscamos igualdade em tudo o que desejamos para o país com sua pluralidade étnica, não apenas para nós, mas também para outras mulheres e comunidades”.
Quero também recuperar Angela Davis “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. E nesse sentido, essa citação me remete a compreensão que o ataque às mulheres nos espaços digitais é uma tentativa de paralisar as mudanças sociais.
Fontes citadas:
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011.
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2015.
NEVES, Barbara Coelho. Algoritmos do poder: os vieses políticos da inteligência artificial. Salvador: LTI Digital-Amazon, 2026. Disponível em: https://www.amazon.fr/dp/B0H8K416FD?spcref=PRINT_LISTING .
NOBLE, Safiya Umoja. Algoritmos da opressão: como o Google fomenta e lucra com o racismo. Tradução de Silvia de Souza Santos. Santo André: Editora Rua do Sabão, 2021.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

