Bares pela Democracia

O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.

Listas de boicote e o convite ao diálogo

Festa da vitória em Porto Alegre após confirmação da reeleição de Lula
Festa da vitória em Porto Alegre após confirmação da reeleição de Lula | Crédito: Rafael Rosa

Vimos agora que a desinformação pode ser combatida com troca de ideias. Há uma grande parcela de pessoas que podemos disputar

Assim como nas eleições de 2022, após a extrema-direita perder mais uma em 2026, começaram a aparecer listas de boicotes a bares e outros comércios que apoiaram a candidatura do Lula. Um perfil no X, em especial, pegou a ideia e a identidade visual do projeto Sleeping Giants, mudou seu nome para Sleeping Zap e, obviamente, aplicou de uma forma toda torta.

Divulgaram uma lista requentada da eleição anterior com alguns locais que nem existem mais e tentaram provocar marcas a retirar seu patrocínio a artistas e portais que, na interpretação deles, são de esquerda. Até o Luciano Huck foi denunciado, para se ter ideia do nível da paranoia.

Ainda que seja uma tática que, como já ficou demonstrado antes, esfria e some, deve-se ter atenção. Porque não se trata de um boicote a grandes empresas, como já aconteceu com o Magazine Luiza, ou quando a própria esquerda o fez contra Riachuelo, Havan e afins. São pequenos locais que podem sofrer consequências financeiras sérias, levando ao fechamento de suas portas e demissões, ou seja, é uma iniciativa irresponsável que advoga contra os trabalhadores, incluídos os pequenos empresários. Assim como a demissão de pessoas que votaram no PT.

Além deste tipo de perseguição, há a violência física. Ao longo dessa eleição, a violência política foi alarmante, com inúmeros relatos de agressões vindas do lado bolsonarista, que resultaram até em morte, e que podem se voltar após o período eleitoral contra as pessoas que frequentam e trabalham em determinado estabelecimento. Temos ainda um governo municipal e estadual que também são de extrema-direita, que incentivam a violência quando não são eles próprios a praticá-la. É colocado um alvo em nossas costas.

O que também já vimos acontecer foi a formação de uma rede de solidariedade inversa, na qual a lista do boicote se transformou em um guia de locais a serem obrigatoriamente visitados. De toda forma, o mapeamento, a identificação e a perseguição a indivíduos e estabelecimentos associados à esquerda no Brasil possuem raízes históricas profundas. Podemos citar dois episódios que marcam a nossa sociedade até hoje: a Constituição de 1937, que instituiu o Estado Novo, e o início da militarização da polícia.

A Ditadura Vargas cumpriu a cartilha básica das ditaduras ao concentrar o poder no Executivo, suprimir direitos da população, censurar a imprensa, extinguir partidos, prender e matar opositores. Conforme consta no texto de introdução àquela constituição, a justificativa foi atender ao estado de apreensão criado no país pela infiltração comunista, tudo muito bem arquitetado pelo que ficou conhecido como Plano Cohen.

Sobre a militarização da polícia, ela aconteceu no ano de 1969, auge da Ditadura Militar, implantada também sob a desculpa do medo do comunismo. O que aconteceu foi que, até aquele ano, o policiamento de rua era feito por agentes de caráter civil, como é a Polícia ou a Guarda Civil atualmente. A PM ficava nos quartéis, sem contato com a população, sendo acionada apenas em casos que ficaram registrados em seu brasão, que conta com 19 estrelas que representam, por exemplo, a atuação no combate à Coluna Prestes, Guerra do Paraguai, Canudos, Revolta da Chibata, repressão à greve operária de 1917 e a “Contrarrevolução de 1964”.

Como bem sintetiza esta matéria do Outras Palavras: “A Polícia Militar paulista ostenta como atos heroicos e marcos históricos da corporação a atuação em atividades de clara repressão ao próprio povo”. Então, a partir de 1969, esta foi a polícia escolhida para atuar nas ruas com os cidadãos. A ideia de que há um inimigo interno a ser combatido, que são historicamente as pessoas de esquerda, passou a fazer parte do funcionamento comum da segurança pública brasileira. Encerrada a ditadura, restou à PM identificar outro inimigo, focando no controle social baseado no genocídio da juventude negra.

Portanto, não é novidade o mapeamento e perseguição de pessoas de esquerda, o que ainda habita o imaginário dos órgãos de segurança. Policiais militares, guardas civis, seguranças do metrô e de locais públicos privatizados, como o Anhangabaú, estiveram envolvidos em ocorrências de agressões e impedimento de campanhas políticas da esquerda no primeiro e no segundo turno. Assistimos, mais uma vez, a força policial atirando bombas e gás de pimenta por motivos eleitorais.

Tudo isso acontece pelas lentes do bolsonarismo, mas não só. Ao longo dos períodos de ditadura em que a política de Estado era não se discutir política, formaram-se ao mesmo tempo grupos conscientes da situação, que foram usados como desculpa para o endurecimento do regime, e parte da população que acreditava no discurso oficial ou passou a desacreditar das instituições. É o inverso da despolitização: é a política imposta sob uma ótica que detém uma máquina de propaganda por trás dela.

É o que ocorre com a fábrica de fake news organizada no governo Bolsonaro pelo gabinete do ódio e que, nestas eleições, mostrou a sua cara mais nefasta com o apoio explícito de governos estrangeiros, em especial dos EUA, e as redes sociais. Some-se a isso o histórico ódio ao petismo propagado pelas grandes mídias brasileiras e pronto: temos o anticomunismo 2.0.

Ninguém passa ileso às décadas de propaganda anticomunista, inúmeras matérias e editoriais diários durante todos os anos de governo petista, alertando sobre os extremos perigos do socialismo a ser implantado. A diferença é que esse cruzamento entre interesses de países conectados às big techs atinge um patamar de controle social que nenhuma ditadura na história imaginou ter.

Mesmo com esse time todo, somado ao mercado financeiro lutando contra, Lula saiu vencedor desta eleição em um movimento histórico do povo brasileiro que influenciou o mundo todo. Sim, é possível combater e vencer as máquinas de ódio.

Mais do que isso, o que ficou claro foi que a frente de esquerda deve ser ampla e aberta ao diálogo. Nem todo eleitor do Flávio Bolsonaro é fascista, como deu para perceber nas inúmeras conversas que tivemos que ter para virar votos. Pesquisas da época das manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff indicavam que apesar da maioria das pessoas que estavam ali se dizerem de direita, elas concordavam com serviços públicos gratuitos, como saúde e educação, que são pautas da esquerda.

Vimos agora que a desinformação pode ser combatida com troca de ideias. Há uma grande parcela de pessoas que podemos disputar nesse imaginário anticomunista delirante, e não há como ignorar os 56 milhões de votos em Bolsonaro e a composição do Congresso.

Que nós, frequentadores e trabalhadores de locais que se propõem a conversar, possamos usar essas eleições e os seus efeitos em uma permanente luta anticapitalista. Contra uma campanha de boicote, devemos abrir uma campanha de diálogo. Nos bares sempre haverá democracia.    

*Luiz Guilherme Ferreira é advogado, dono de bar e integrante do Bares Pela Democracia. Atuou na luta pelo Parque Augusta, onde é conselheiro atualmente, e nas ocupações artísticas Casa Amarela e Ouvidor 63, além de outras pautas sobre direito à cidade.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato

Editado por: Gia Matheus Almeida

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