Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela Unicamp, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

De novo os militares querem advertir a Nação nas eleições de 2026

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Paulo Pinto/Agência Brasil
A condenação de militares é inédita não apenas pelos crimes que motivaram as condenações, mas pela instância em que ocorreu o processo: o STF | Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil

Nota dos clubes contra o governo Lula recupera uma velha tradição brasileira

Militares e política: nota dos clubes contra o governo Lula recupera uma velha tradição brasileira — a pretensão de setores da oficialidade de tutelar a República.

Chega a ser tedioso precisar escrever novamente sobre isso.

Militares da reserva são cidadãos. Podem votar, apoiar candidatos, criticar governos e manifestar suas opiniões. O problema começa quando deixam de falar simplesmente como cidadãos e recorrem às patentes, aos símbolos e às organizações militares para conferir autoridade institucional às suas posições políticas.

É o que faz a nota “Os riscos à Nação”, divulgada em 3 de agosto pela Comissão Interclubes Militares.

O documento não foi assinado simplesmente por três cidadãos insatisfeitos com o governo Lula. Seus autores apresentam-se como almirante, general e brigadeiro, presidentes dos clubes Naval, Militar e de Aeronáutica. Sob os símbolos dessas entidades, dirigem-se à sociedade para adverti-la sobre os rumos do país.

Não é detalhe protocolar. É parte da mensagem.

Outra vez, a tutela

A Constituição não atribuiu aos militares a missão de avaliar governos, advertir a sociedade sobre seus governantes ou indicar os caminhos da Nação. Muito menos lhes concedeu a condição de poder moderador.

Essa pretensão, porém, atravessa a história republicana brasileira.

Fortaleceu-se no Exército depois da Guerra do Paraguai e esteve presente na derrubada da Monarquia e na Proclamação da República. Reapareceu no tenentismo, na Revolução de 1930, na deposição de Getúlio Vargas, nas tentativas de impedir a posse de Juscelino Kubitschek e na crise que quase barrou João Goulart em 1961.

Em 1964, transformou-se em ditadura.

Durante 21 anos, os autoproclamados tutores da Nação decidiram quem podia governar, disputar eleições e exercer direitos políticos.

A redemocratização deveria ter encerrado essa história.

Não encerrou.

De 2018 à trama golpista

Em 2018, na véspera de o Supremo julgar o habeas corpus de Lula, então líder das pesquisas presidenciais, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, publicou mensagem interpretada como pressão sobre o Tribunal. Depois soube-se que ela havia sido discutida na cúpula da Força.

A democracia brasileira deveria ter reagido com firmeza.

Não reagiu.

Vieram Jair Bolsonaro, a ocupação maciça do governo por militares, generais convertidos em ministros e operadores políticos e, depois da derrota eleitoral de 2022, as articulações destinadas a impedir a transferência constitucional do poder.

Altos oficiais acabaram processados e condenados pela participação na trama golpista.

Ainda assim, a lição parece não ter sido aprendida.

Um manifesto em plena eleição

Agora, em plena campanha presidencial de 2026, os clubes militares voltam a advertir a Nação.

A nota fala em “falência moral, institucional e econômica”, “leniência com a corrupção”, “tolerância com o crime”, “revanchismo” e “clientelismo”. Ataca também a política externa do governo Lula.

Não é um documento técnico sobre defesa nacional.

É um manifesto político contra o governo.

Se três cidadãos o subscrevessem em seus próprios nomes, estariam simplesmente exercendo um direito democrático. Mas seus autores mobilizam patentes e organizações identificadas com Marinha, Exército e Aeronáutica para dar peso institucional à intervenção política.

É precisamente aí que está o problema.

Um general reformado não possui autoridade política maior que um professor aposentado. Um almirante da reserva não tem voto mais importante que um estivador. A patente não transforma opinião em mandato.

A democracia não pode continuar contemporizando

Depois de tudo o que aconteceu, também não bastam notas de repúdio e novas aulas sobre o papel constitucional das Forças Armadas.

Quando manifestações de militares ultrapassarem os limites da liberdade de opinião e configurarem infração prevista em lei, as autoridades competentes devem investigar e responsabilizar seus autores, com contraditório, ampla defesa e todas as garantias do Estado de Direito.

Não se trata de punir opiniões.

Trata-se de punir infrações.

A diferença é elementar.

Militares não podem ser perseguidos porque discordam do governo. Também não podem receber imunidade quando utilizam sua condição militar de maneira vedada pela legislação ou atentam contra a ordem constitucional.

Se houver infração, investigue-se.

Comprovada a responsabilidade, puna-se.

A recorrência desse comportamento não recomenda complacência. Recomenda exatamente o contrário.

O risco que a nota esqueceu

Há algo revelador no título “Os riscos à Nação”.

O documento enumera corrupção, criminalidade, dificuldades econômicas, política externa e polarização, mas ignora um risco que acompanha a República desde seu nascimento: a pretensão recorrente de setores militares de tutelar a sociedade e seus representantes eleitos.

O Brasil já pagou caro por isso.

Golpes, estados de exceção, cassações, perseguições, censura, tortura, mortes e 21 anos de ditadura deveriam ter sido suficientes para encerrar essa tradição. A recente participação de altos oficiais numa trama destinada a impedir a posse do presidente eleito deveria ter eliminado qualquer dúvida restante.

Não eliminou.

Por isso chega a ser tedioso repetir, 137 anos depois da Proclamação da República, o que deveria estar definitivamente assimilado: quartéis não tutelam governos, generais não arbitram a política e patentes não conferem autoridade sobre a vontade popular.

Militares da reserva podem fazer oposição, apoiar candidatos e considerar o governo Lula desastroso.

Façam isso como cidadãos.

Quando ultrapassarem essa fronteira e infringirem a lei, que sejam investigados, julgados e, se condenados, punidos.

Sem privilégios. Sem tutela. Sem medo de patente.

Porque entre os verdadeiros “riscos à Nação” está justamente a sobrevivência da velha crença de que militares têm o direito de dizer à República quais caminhos ela deve seguir.

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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