Boletim Ponto

O Ponto é editado por Lauro Allan Almeida e Miguel Enrique Stédile, do Front – Instituto de Estudos Contemporâneos, e é publicado todas as sextas-feiras.

Chiqueirinho global

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Vídeo de IA de Jair Bolsonaro na convenção do PL que oficializou candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência acende discussão sobre novas tecnologias nas eleições de 2026.
Vídeo de IA de Jair Bolsonaro na convenção do PL que oficializou candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. | Crédito: Reprodução/YouTube PL

Na falta de aliados internos, Bolsonarinho não teve outra alternativa senão se apoiar na imagem do pai, supostamente sem autorização do próprio

Na falta de eleitores e com poucos aliados internos, Flávio apela ao que o mundo tem de pior.

.Solidão e sobrenome. Passados sete meses da indicação do sucessor de Jair, todas as pesquisas eleitorais apontam a estagnação e a impossibilidade de Flávio vencer Lula. Por isso, a convenção do PL foi marcada pelo desespero.

Não bastasse boa parte dos convidados ter ido embora antes mesmo dos discursos e com poucos nomes de peso, os principais protagonistas foram “um argentino” e “um avatar”, nas palavras de Ronaldo Caiado, referindo-se ao presidente Javier Milei e ao vídeo de Jair. Praticamente uma confissão de que a candidatura de Flávio não tem força própria.

Mas o problema não começou ontem. O centrão já vinha dando sinais de que a sucessão presidencial não seria prioridade e prefere guardar energias para eleger deputados e senadores, garantindo mais quatro anos de gordas emendas no Congresso. O que significa também não queimar os navios em uma possível vitória de Lula. E, depois que a federação do PP e do União declarou neutralidade, Flávio caiu no isolamento e corre o risco de ficar sem palanques estaduais em oito estados, que juntos somam um terço do eleitorado.

A única boa notícia para sua campanha é que a ex-ministra Tereza Cristina aceitou ser vice da chapa do PL, mas sua indicação ainda depende da confirmação da Federação União Progressista, que, por sua vez, depende de Ciro Nogueira receber um tratamento à la Michelle, um pedido de desculpas de Flávio. Aliás, a trégua com Michelle foi apenas aparente e as permanentes críticas internas passam a sensação de que a candidatura do enteado está sempre por um fio.

Na falta de aliados internos, Bolsonarinho não teve outra alternativa senão se apoiar na imagem do pai, supostamente sem autorização do próprio, e na extrema direita vizinha. Mas as duas apostas também trazem problemas. Assim como as vantagens do apoio de Trump são duvidosas, alguns aliados receiam dar tanto protagonismo para um sujeito grosseiro como Milei. Ainda mais porque Flávio precisa superar um altíssimo nível de rejeição e conquistar os votos dos eleitores de centro, e não estimular ainda mais seus apoiadores extremistas.

Já a aposta em usar um vídeo de IA abriu um grave precedente para a inviabilização legal de sua candidatura, além de deixar Flávio precocemente refém da boa vontade do TSE. E, como em política a fraqueza de uns é a oportunidade de outros, intensificou-se o fogo cruzado contra Flávio vindo de Ronaldo Caiado, que seria um candidato mais palatável para o agronegócio e para a Faria Lima, até fofocas maldosas vindas de Kim Kataguiri, enquanto Romeu Zema insiste em parecer mais bolsonarista que o próprio Bolsonarinho

.Um olho no peixe, outro no gato. As sucessivas trapalhadas do bolsonarismo permitiram que Lula abrisse uma vantagem nas pesquisas, que vai superando o empate técnico. Nada suficiente para um clima de “já ganhou”, pois, mesmo que o desemprego esteja em queda, a percepção do eleitor sobre a economia piorou, um salto de 23 pontos em comparação com o final do ano passado. De qualquer forma, a Faria Lima sinaliza com a possibilidade de tolerar um quarto governo Lula, com a condição de um novo ajuste para apertar ainda mais o arcabouço fiscal.

Estas eleições também trazem novos elementos em relação às anteriores: talvez seja a última eleição polarizada entre o lulismo e o bolsonarismo; o uso de Inteligência Artificial pode ser decisivo; e os Estados Unidos devem intervir diretamente no pleito. Imediatamente, Lula precisa lidar com essa última ameaça, pois o tarifaço está de pé, com os EUA mantendo estado de emergência contra o Brasil por mais um ano, usando como justificativa a prisão de Jair Bolsonaro, enquanto o Planalto segue com as estratégias de acionar a OMC e buscar novos mercados, sinalizando para Coreia do Sul e especialmente para a China.

Além disso, há uma preocupação com a possibilidade de Trump e Elon Musk coordenarem algum ataque por meio das redes sociais, principalmente na véspera das eleições. Nesse quadro, Milei foi apenas o estagiário enviado por Trump para cumprir o papel de animador de torcida e arruaceiro de campanha.

Pior foi a tentativa de Washington de enviar dois funcionários do Departamento de Estado para questionar as urnas eletrônicas, ecoando o discurso de Bolsonarinho na semana passada. Lula precisa ficar atento, mas, ao mesmo tempo, o governo também precisa funcionar.

Num último resquício do pacote de medidas populares, saiu do papel o programa para financiamento de motos e bicicletas elétricas com juros baixos para entregadores. Enquanto isso, medidas provisórias importantes estão perto do vencimento e a falta de atividade do Congresso pode afetar os preços dos combustíveis e do gás, entre outros.

Mesmo diante da inércia, o Planalto tem esperanças de destravar a votação da 6×1 antes das eleições. E se o Parlamento não tem previsão de voltar a funcionar, o STF volta do recesso a todo vapor com temas centrais na pauta, como as emendas e o orçamento secreto, a uberização e a pejotização, o mandato-tampão do governo do Rio e a Lei de Ficha Limpa.

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*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Geisa Marques

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