Olá, faltando pouco tempo para as eleições, a única certeza é que não se tem certeza de nada.
.Nunca antes na história desse país. Em muitos aspectos, essa é uma eleição diferente das anteriores. A começar pelo papel pouco decisivo da economia. A inflação estabilizada, o crescimento moderado e o desemprego em baixa não garantem a Lula uma vantagem folgada sobre seu principal adversário. O mesmo vale para a política social, que parece incapaz de fidelizar o eleitorado. O que não mudou foi a ladainha da direita de que as urnas eletrônicas não são confiáveis. Outra novidade é o desinteresse do centrão na disputa presidencial e a prioridade dada às cadeiras legislativas, em especial ao Senado. O que não é novidade é a dificuldade dos candidatos em apresentar projetos para o futuro. Ou seja, mais uma vez temos uma disputa com os olhos no retrovisor. Em compensação, nunca antes tantos temas foram politizados e se tornaram centrais para as eleições, como a violência contra as mulheres, o STF, os jogos de azar e as crenças religiosas. Apesar disso, a polarização entre bolsonarismo e lulismo não só se manteve como se intensificou. O sintoma é que a posição do eleitorado se calcificou e os escândalos revelados dia a dia, em especial envolvendo Flávio Bolsonaro e seu entorno, não foram capazes de alterar substancialmente o quadro. E mesmo com um grande número de pesquisas que tentam entender o que está acontecendo, não é possível prever quem vai ganhar ou perder. Um dos motivos é o peso dos “eleitores BBB” — com baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento, que definirão o voto na última hora. O que, na pesquisa Idea, corresponde a 31% das pessoas que dizem ainda poder mudar de voto para presidente, das quais uma parte expressiva talvez queira resolver a disputa no primeiro turno e pratique o voto útil. E, caso a tendência se confirme, quem sairá prejudicado são os candidatos nanicos. A tendência por resolver tudo no primeiro turno também deve prevalecer em pelo menos 11 disputas estaduais, segundo o instituto Quaest.
.Mudo é um poeta. Lula e Flávio Bolsonaro devem chegar ao segundo turno depois de uma primeira rodada em que sempre foram coadjuvantes. Na prática, André Mendonça, Daniel Vorcaro, Donald Trump, as bets, Fábio Porchat e Nossa Senhora tiveram muito mais protagonismo do que os líderes das pesquisas. No caso de Flávio, não ter protagonismo não é um problema para um candidato que foi escolhido notoriamente para representar o pai. E, quanto menos Flávio aparecer, melhor, para não ter que dar explicações sobre o vasto emaranhado das relações com Daniel Vorcaro — cuja extensa lista de “irmãos” agora inclui Roberto Campos Neto e Luciano Huck. Além disso, sigilo é fundamental para o trabalho da Rockbridge Network, a entidade do vice-presidente dos EUA, JD Vance, que está atuando ilegalmente na campanha de Flávio. E, ainda que Donald Trump não tenha publicizado sua preferência entre os candidatos brasileiros, a destinação de US$ 1 milhão para financiar ataques ao STF demonstra quem Washington prefere que esteja no Planalto nos próximos anos. Tanto que os Bolsonaros já chamam de “Reforma Marco Rubio” o plano que pretendem implementar no Itamaraty caso vençam. É verdade, ainda, que Flávio contou com a complacência da grande mídia e da Faria Lima para não ser espremido na campanha e ser pouco incomodado sobre as relações com Vorcaro. Além disso, enquanto Lula era constantemente cobrado a escrever uma carta de compromissos com o mercado financeiro, ninguém pediu que o filho do pai condenado por golpe de Estado escrevesse uma carta se comprometendo a respeitar a democracia.
.Fica tudo para depois. A proibição das bets e o apoio popular à medida em todas as faixas de renda, além de um crescimento entre os católicos, foi suficiente para dar um respiro a Lula na reta final do primeiro turno, mas nada que seja suficiente para cantar vitória. No segundo turno, o candidato petista não terá apoio de nenhum dos nanicos que ficarem para trás e vai ter que agregar novos eleitores por conta própria. A estratégia do PT deve ser apostar no tema econômico e, finalmente, a equipe de campanha entendeu que não basta comparar os governos Lula e Bolsonaro, mas é preciso apresentar propostas para o futuro. Neste sentido, é possível que, no segundo turno, Lula penda para a esquerda, já que suas últimas intervenções nos comícios miraram nos fundos partidários, nas emendas e no orçamento secreto. E voltou a falar em reforma do Judiciário, com mandatos para ministros do STF e até em um conselho para a escolha dos indicados. Mas este já é o terceiro turno, porque, independentemente de quem vença as eleições, três problemas esperam pelo próximo presidente. O primeiro é o STF e como resolver uma crise institucional que parece não ter fim. Ao contrário, se algum dia os ministros da Corte já foram os “adultos na sala”, hoje estão banalizadas as ofensas entre Vossas Excelências e a anulação mútua das medidas uns dos outros. Além disso, a crise do STF passa também pela conclusão da novela do Banco Master, o que parece ainda estar longe, e que pode escalar caso Flávio seja eleito, pois o STF tem precedentes para continuar as investigações sobre ele. E há Donald Trump. No mínimo, há a questão do tarifaço e a negociação entre os dois países segue em suspenso, possivelmente até o fim das eleições. Com Flávio, já se sabe que vem o pacote completo, incluindo big techs e minerais críticos. Mas como Trump vai se comportar após uma derrota do seu favorito não é uma questão menor. E mais profunda ainda é a reflexão de Maria Hermínia Tavares: esta será a última eleição da Nova República. O pacto da Constituição de 1988 — economia liberal com conquistas sociais — terminou. O que virá depois disso e qual força terá capacidade de conduzir uma nova pactuação, isto continua em aberto e começa a ser respondido nestas eleições.
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*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


