Olá, enquanto tenta entender de onde veio o rolo compressor que a atropelou, a esquerda corre desesperada atrás do atraso.
.Atordoados. Todos foram surpreendidos pelo resultado das urnas. Os dados de votação e as análises no calor da hora indicam alguns fatores que podem ter sido determinantes para o desempenho de Lula no primeiro turno. O primeiro é bem conhecido e refere-se às fragilidades do próprio governo. Trata-se da ausência de um projeto de futuro, com uma campanha mais voltada para a história e o legado de Lula do que para aquilo que pode efetivamente melhorar a vida das pessoas. Em outras palavras, o lulismo aceitou a condição de ser o menos pior, o que pode ter contribuído para o aumento nas abstenções que provavelmente prejudicaram o candidato petista. Outro diagnóstico já conhecido é a perda da narrativa sobre a economia. Apesar de os dados serem relativamente positivos, como crescimento do PIB, controle da inflação e desemprego em baixa, o que prevaleceu foi a sensação de um aumento do sofrimento econômico puxado pela elevação do custo de vida que ocorreu no mundo todo após a pandemia. A isso soma-se o endividamento familiar e a precarização do trabalho. Outro fenômeno foi a desidratação de Lula nas cidades do interior, inclusive entre aquelas mais afetadas pelo tarifaço de Trump, o que indica uma forte atuação do agronegócio contra o governo. Houve ainda uma supremacia da direita nas redes sociais. O atrito entre o governo e as big techs cobrou seu preço — com sabotagens às postagens pró-Lula, sites ilegais de criptomoedas e publicações irregulares nas redes sociais. Essa última, apenas mais uma conivência do TSE, comandado por Kássio Nunes, com o vale-tudo da direita. Mas também é verdade que a campanha de Lula investiu pouco na disputa virtual. Porém, há o outro lado da moeda. Para além do voto útil em Flávio, o bolsonarismo mostrou-se mais forte do que parecia. Exemplo disso é que, dos 20 candidatos que utilizaram o sobrenome Bolsonaro, 13 se elegeram ou ficaram como suplentes. O PL, que já vinha crescendo nas últimas eleições, se tornou, sob o comando de Rogério Marinho, um partido mais orgânico e ideológico, consolidando-se como a contraface do PT. O retrato dessa polarização foi a desidratação dos partidos de centro, a derrota de algumas figuras políticas já carimbadas e uma certa tendência à renovação de lideranças, principalmente à direita.
.O que fazer? Passada a ressaca do primeiro turno, o desafio da campanha petista é duplo: compreender os motivos da derrota e esboçar a estratégia de virada. O problema é gigante e o tempo é curto. Lula saiu com mais de 2 milhões e 200 mil votos atrás de Flávio, numa disputa em que a abstenção chegou a 21% do eleitorado e quase 5% de votos brancos e nulos, e tem até dia 25 de outubro para virar o jogo. Além disso, ao contrário de Flávio, Lula chega ao segundo turno sem receber o apoio de nenhum dos outros candidatos ou de novos partidos. A avaliação é de que o tom bem comportado e republicano da campanha no primeiro turno não colou. A única certeza é que a campanha precisa ganhar corpo. Felizmente, enquanto a esquerda ainda tentava entender o que estava acontecendo e remoía a própria derrota, uma onda de mobilizações estudantis tomou conta das principais cidades do país. Sem planejamento centralizado, a campanha ganhou as ruas e extrapolou as universidades. Nesse cenário, o problema é achar a combinação ideal entre radicalização, trazendo de volta o Lula do velho testamento, e o diálogo com um eleitor insatisfeito que votou em outro candidato, ou não foi votar, e não está disposto a conversar. Lula também precisa se desvincular do STF, insistindo em uma reforma do Judiciário, dialogar com um trabalhador insatisfeito e abraçar a pauta de segurança pública, um dos temas em que a direita sempre corre na frente. A síntese dessa segunda fase da campanha é: “Para o povo trabalhador, proteção; para o bandido, a prisão“. Além de ir aos debates televisivos, a partir da contribuição dos parlamentares jovens de esquerda eleitos, Lula foi aconselhado a “botar a cara” nas redes sociais, fazendo vídeos curtos em que fala diretamente com seus eleitores. O alvo da campanha deve ser ampliar a votação nas tradicionais bases do petismo, as classes C e D, o eleitorado do Nordeste que se absteve, além de reverter a enorme derrota sofrida no Sudeste. Nesse caso, a tramitação do fim da escala 6×1 no Senado não só ajuda a campanha petista a se reaproximar do trabalhador precarizado, mas principalmente joga a contradição no colo de Flávio.
.Programa do fim do mundo. A condição de primeiro colocado no primeiro turno coloca a campanha de Flávio numa nova situação, a de ter que dizer, afinal, do que trata seu programa. Não que alguém fosse realmente ficar surpreso ou ainda acreditasse que Flávio era “o Bolsonaro moderado”. Mas o impacto é sempre maior vindo da boca do próprio candidato, sem suposições, nem hipóteses. Todos sabem que a liberdade do pai e a anistia aos golpistas de 8 de janeiro vêm em primeiro lugar, assim como os ataques ao STF devem prosseguir e a volta da política de desregulamentação para as armas. É possível também apostar que as bets voltarão. Também não será surpresa se, no alinhamento ao Trumpismo, o Brasil aderir ao Escudo das Américas, iniciativa liderada por Washington supostamente para perseguir o narcotráfico. Mas vejam só que a reforma do Judiciário inclui uma redução da maioridade penal. E, de repente, o que eram reformas, já virou uma proposta de mudança da Constituição. Até aqui, o mercado está efusivo com Bolsonarinho, já que o pacote econômico de Flávio consiste no sonhado corte em educação, saúde e aposentadorias. E, como se viu depois do sincericídio de Valdemar da Costa Neto, que não negou o apreço dos Bolsonaros por novos golpes de Estado, a Faria Lima não está nem um pouco preocupada que eliminar a democracia também faça parte do pacote. Na verdade, as dúvidas na turma do mercado são se os cortes que Flávio promete não deveriam ser maiores e se os Bolsonaros serão mesmo capazes de realizar os sonhos da Faria Lima. Assim como os militares, que acham ótimo que Flávio e Trump queiram o exército dos EUA nas nossas fronteiras, mas ter bases militares aqui, talvez seja demais. Como o eleitor vai reagir às propostas de Flávio? Veremos nos próximos dias. O recuo da proposta de reforma da Constituição pode ser um sinal de que as coisas não serão tão simples no segundo turno. Mas, para o PL e a turma do Centrão, o clima em Brasília é de “já ganhou”, tanto que, na mesma medida em que recebeu o apoio dos partidos do bloco, Flávio já negociou cargos e ministérios.
.Cada um por si. Enquanto o segundo turno não acaba, as instituições supostamente continuam funcionando. No Congresso, o Centrão vai poder se livrar do nome fantasia para finalmente se assumir como um direitão. Pautas como redução dos direitos, redução da maioridade penal e negação da mudança climática vão fazer a tabelinha entre a bancada do Boi, Bala, Bíblia e Bets com um hipotético governo Bolsonaro. Inclusive, entre os aliados de Flávio, já começaram as disputas pelas presidências da Casa. Sóstenes Cavalcante na Câmara e Tereza Cristina e Rogério Marinho de olho no Senado. E, nenhuma surpresa, Arthur Lira também consta na lista dos favoritos. A incógnita é o que farão Davi Alcolumbre e Hugo Motta neste cenário, pois, mesmo que o Republicanos tenha declarado apoio a Flávio, a permanência de Motta na cadeira é improvável pelo apoio público a Lula. Mas as tensões maiores estão, obviamente, no outro lado da Praça dos Três Poderes. Os sinais dos bastidores indicam que o STF estaria disposto a um “grande acordo nacional”, que implicaria na liberdade de Jair Bolsonaro e, quem sabe, entregar a cabeça de Dias Toffoli. Mas, como Toffoli é irmanado em Vorcaro como Flávio, também não seria surpresa que ele se salvasse, aderindo à bancada de André Mendonça e Kassio Nunes. Neste caso, o mais provável é que o sacrificado para pacificar o STF com a extrema direita seja mesmo Alexandre de Moraes. O vídeo de Michel Temer apoiando Flávio é também um sinal de que “ninguém solta a mão de ninguém” não existe na direita. Assim como os encontros de Flávio com Gilmar Mendes. O que não significa que Moraes não vai cair atirando ou sem resistir, como visto no pedido de prisão de Eduardo Bolsonaro.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.‘Papai, por que você votou no Hitler?’. Conrado Hübner Mendes escreve sobre os riscos da normalização do fascismo pelo pragmatismo político ou frustração eleitoral.
.Flavio x Lula: como escândalos podem ter favorecido virada. A estranha eleição em que o eleitor, indignado com a corrupção, votou no corrupto. Na Pública.
.Como a extrema direita transformou o antifeminismo em máquina de votos no Congresso. Como se formaram e como atua a bancada de mulheres antifeministas. No Intercept.
.Como uma rede extremista no X articulou a falsa associação de Lula à pedofilia. Aos Fatos disseca a campanha suja da direita na reta final do primeiro turno.
.416 milhões trabalham para alimentar o mundo sem ganhar o suficiente para viver. O Joio e o Trigo mapeia as condições de trabalho nos sistemas alimentares.
.Juventude ativista: quais temas engajam os jovens hoje? A pesquisa “Juventudes: Um desafio pendente“ traça um perfil da militância jovem. Na Revista Gama.
.Os motivos que levaram à revolta dos estudantes na França. Nas ruas desde setembro, os estudantes franceses colocam Macron contra a parede. Na DW.
*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.


