Olá! Todos jogam as cartas agora de olho nos próximos quatro anos.
.O golpe está aí. Sem precisar fugir para Miami, a Faria Lima se declarou líder da oposição no Brasil. E mesmo sem se autoproclamar presidente, o mercado financeiro quer usurpar o resultado das eleições e tomar as decisões sobre o futuro do país. Depois de abraçar sem vergonha a candidatura de Flávio Bolsonaro e já imaginar futuros ministros e decretos, a Faria Lima foi atropelada pelo resultado das urnas junto com o bolsonarismo. A primeira demonstração de que não ia aceitar o resultado veio logo no dia seguinte, quando derrubou a bolsa e inflacionou o dólar, apoiada pelo terrorismo da mídia. Na prática, o mercado quer que Lula adote o projeto derrotado nas urnas. Nesta semana, o mercado entrou em polvorosa pela simples possibilidade de Lula se encontrar com o economista André Lara Resende e ouvir sua proposta para baixar a taxa de juros. A formulação de Resende, como analisa Luis Nassif, não mexe no modelo macroeconômico vigente desde o Plano Real. Mesmo assim, caiu como uma bomba porque, afinal, o autor é um economista liberal, não-marxista, não-petista, um dos pais do Plano Real, dizendo que existem outros caminhos para baixar os juros, que não sejam mais austeridade e corte de gastos. O Exército da Faria Lima ganhou o reforço de Gabriel Galípolo. O Banco Central não só interrompeu a queda da taxa, como justificou com um comunicado duro que dá eco a todas as preocupações do mercado, endossando as previsões de alta da inflação e insinuando a necessidade de cortes. Completando a tabelinha, o mercado já apresentou sua pauta: manter a Selic em 13,75% por todo o próximo semestre. A lista de exigências dos sequestradores inclui ainda que Lula anuncie logo o novo Ministro da Fazenda — mais motivo de pânico ou alívio — e que se pronuncie assumindo compromissos com o corte de gastos. Mas, segundo Julia Duailibi, o presidente deve frustrar tanto quem quer subordinação ao mercado quanto quem espera medidas radicais. Lula não dará carta branca ao mercado, mas também não vai abrir mão das promessas de campanha. O provável ajuste deve seguir em busca do centro da meta de superávit, manter o gatilho que exclui determinadas receitas do cálculo de gastos, aumentar a flexibilidade para bloquear ou contingenciar, cortar gastos tributários e fazer um pente-fino nas despesas.
.Estamos contratando. Na prática, a transição para o novo governo já começou. A estratégia de Lula para fechar o ano é botar o pé no acelerador antes que a avalanche de deputados e senadores do PL assumam seus mandatos. Foi assim que o presidente conseguiu uma sequência de vitórias que contribuíram não só para sua reeleição, mas também para dar o tom do novo mandato: o fim da escala 6×1, a ampliação do teto dos MEIs e a PEC da Segurança Pública. Mais do que vencer, a estratégia governista visa cooptar os parlamentares do Centrão e parte da direita para a agenda governista, com forte apelo popular, enfraquecendo e desarticulando a oposição. Porém, as relações com o Congresso não prometem ser fáceis nos próximos anos. Além do toma-lá-dá-cá das emendas, que deve continuar, o Planalto já iniciou as negociações para contemplar a base aliada com ministérios, convertendo cargos em votos, tarefa que, por enquanto, ficará com Edinho Silva, presidente do PT. O problema é que a governabilidade não é a única variável a ser levada em conta na indicação de ministros, pois estes definirão também os rumos programáticos do governo. Evidentemente, a pasta mais cotada é a da Fazenda, para a qual têm sido cogitados nomes como o atual ministro Dario Durigan, o governador do Piauí Rafael Fonteles, e o vice-presidente Geraldo Alckmin, também cotado para o novo Ministério da Segurança Pública. Outro velho dilema é quem assumirá a Defesa, cargo tradicionalmente entregue a alguém próximo aos generais e distante da esquerda e que costuma sofrer com o fogo amigo petista, como os favoritos do momento. Além disso, na relação do Planalto com o Congresso, tudo dependerá de quem comandará as presidências da Câmara e do Senado a partir de fevereiro. Por ora, de olho nas próprias reeleições, Hugo Motta e Davi Alcolumbre têm trabalhado em colaboração com o governo. Mas ambos também acenam para a oposição, buscando apoio da direita, como fez Alcolumbre ao defender o mandato de senador Flávio Bolsonaro, que passou ao trabalho remoto. Por sua vez, o bolsonarismo já escolheu seu candidato para enfrentar Alcolumbre, o senador Rogério Marinho, cuja pauta central deve ser (surpresa!) a anistia aos golpistas de 8 de janeiro. Mas, além de sofrer com o rescaldo da fuga de Flávio Bolsonaro e da derrota dos Republicanos nos Estados Unidos, Marinho terá que pacificar as relações com a direita tradicional, representada pela candidatura de Tereza Cristina (PP-MS) à presidência do Senado. E, enquanto o bolsonarismo afunda, Tarcísio de Freitas arruma a casa e aguarda, sabendo que o tempo está a seu favor.
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*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


