Brasil Popular

A coluna do Movimento Brasil Popular é publicada quinzenalmente às quartas-feiras. Escrita por militantes do movimento de todo o Brasil, ela aborda temas relacionados à política brasileira, luta ideológica e os desafios da esquerda na organização popular.

Para compreender a vitória dos Democratas nos EUA

EUA
O controle da Câmara dos Representantes e do Senado está em jogo nessas eleições, que definirão o restante do segundo mandato do presidente Donald Trump | Crédito: Mehmet Eser/Anadolu/AFP

E então, as urnas se abriram e o resultado foi histórico. Ocorreu o que se caracterizou como um 'Tsunami azul': uma ampla e massiva vitória do Partido Democrata

Antes de mais nada, é preciso dizer que realmente estes “são dias que estão abalando o mundo”. (Outubro e novembro são meses em que geralmente isso acontece na História, porque será? Mistérios do tempo). Para além das grandiosas manifestações que estão ocorrendo na França e na Itália, tivemos eleições decisivas em lugares que passaram por tais atos, como na Sérvia, em Israel e no Brasil. Mas, sem dúvida, o resultado das eleições mais aguardadas, por ocorrerem no “Centro do Capitalismo”, foram estas que aconteceram nos Estados Unidos na terça-feira (4). Vamos, então, ao longo deste artigo, compreender alguns fatores que levaram à derrota de Trump e seu movimento Make America Great Again (Maga) e de como esta derrota pode vir a mudar uma correlação de forças desfavorável à esquerda mundial.  

“É a economia, estúpido”, a célebre frase do estrategista de campanha de Bill Clinton nas eleições estadunidenses de 1992 valeu para a campanha de Trump há dois anos atrás e continuou valendo para este pleito “de meio de mandato” agora em 2026, em que estiveram em jogo todas as vagas para a Câmara de Representantes (o equivalente à nossa Câmara Federal) e pouco mais de um terço do Senado. A guerra contra o Irã levou a um aumento considerável dos combustíveis, numa sociedade profundamente “carrocêntrica”, o que levou também a um custo de vida muito mais elevado do que na administração Biden. Vimos comentaristas nos programas de TV aconselhando a população a trocar de proteína, já que o preço da carne bovina explodiu. 

A guerra comercial com a China não surtiu efeitos reais contra este país. Aliás, o aumento das tarifas a produtos de outros países não trouxe a tão sonhada “reindustrialização” do país, além de, na verdade, trazer problemas para o setor agrícola estadunidense, com a China deixando de comprar a soja do país e voltando-se para o Brasil. Tudo isto fez com que a população fosse levada a uma sensação de crise econômica generalizada, e isto se manifestou nos números baixíssimos (32%) nas pesquisas de avaliação do governo Trump. Só para termos uma ideia, aqui no Brasil, Lula marcava, segundo a última pesquisa Quaest, cerca de 48%. Trump prometeu a retomada da “Era de ouro” (anos 1950) e está entregando taxas altas de inflação (anos 1970).

Vale destacar também a perda de popularidade de Trump, também causada pelas ações do ICE, o temido Serviço de Imigração, agora super-militarizado, agindo com uma brutalidade que lembrava a Gestapo (polícia política) da Alemanha nazista, acabando por assassinar dois cidadãos estadunidenses covardemente em suas ações. Boa parte do público latino, aterrorizado com estes atos, voltou-se contra os republicanos, lembrando que parte expressiva deste público tinha votado em Trump em 2024. Além do público universitário, com uma perseguição implacável, resultando em prisões, deportações de estudantes, fim de programas que tratavam de temas como gênero e sexualidade, além do desfinanciamento ou ameaça deste se as universidades continuassem com tais projetos, além da resistência antisionista, que culminou em massivas manifestações de estudantes que se levantaram contra o genocídio em Gaza.             

E então, as urnas se abriram e o resultado foi histórico. Ocorreu o que se caracterizou como um “Tsunami azul”: uma ampla e massiva vitória do Partido Democrata. O mapa dos EUA foi pintado de azul em todas as regiões do país: Nordeste, Sul, inclusive o “Sul profundo”, o Meio-Oeste e Oeste. Destacamos aqui a eleição de governadores (até agora 28 estados para os Democratas e 20 para Republicanos) de estados como o Texas, sem dúvida um dos símbolos do conservadorismo estadunidense, elegendo, além de uma mulher para liderar o estado, um jovem senador, James Talarico, um pastor presbiteriano que combina sua profissão de fé com a denúncia da acelerada distância entre ricos e pobres em seu país. No Sul, o estado da Carolina do Sul elegeu outra mulher, Annie Andrews — desde o final do século passado, o estado não “se pintava de azul”. A Geórgia não só elegeu um democrata senador, Jon Ossoff, como também a primeira mulher negra para o governo deste estado. Para completar, o Mississipi, estado símbolo da segregação racial nos séculos passados, vai eleger Scott Colom, o primeiro senador negro do estado desde o final da Guerra Civil, há cerca de 150 anos. E, por fim, o Novo México elegeu Deb Haaland, a primeira indígena-americana que chegou a tal posto na História. As chamadas minorias norte-americanas obtiveram expressivas vitórias.   

Nos demais estados, onde inclusive Trump venceu em 2024, voltaram-se contra ele, elegendo ou senadores e/ou governadores democratas, como no chamado “Cinturão da Ferrugem:” Michigan, Ohio, Minnesota, Wisconsin, Illinois, Iowa. Todos estes elegeram senadores democratas. Outro estado do Meio-Oeste, o Kansas, não elegia um senador pelo Partido Democrata desde 1932. Vale destacar também a eleição de um senador abertamente gay na história do país pelo estado de New Hampshire, o democrata Chris Pappas. Além da maioria construída no Senado entre 52 e 54 senadores, os Democratas já conseguiram, até o momento em que escrevo este artigo, 247 deputados, uma maioria robusta. Esse resultado foi tão devastador para o presidente (esses governadores e senadores se elegiam com cerca de 20% até mais de 30% de votos de vantagem sobre o adversário republicano) que todas as ameaças que ele o fez antes de não reconhecer o resultado das eleições e instituir corte marcial não foram cumpridas diante desta perda única para uma liderança na Casa Branca. 

Perder uma das casas legislativas no meio de mandato presidencial não é tão incomum quanto se parece, mas as duas, não. As dificuldades que um Congresso controlado pela oposição pode causar a um presidente, como o número de CPI’s, mexer ou mesmo não aprovar o orçamento anual do governo, indo até a uma parcial interferência na política externa do país, desaprovando gastos de guerra, por exemplo, podem transformar Trump em um “pato manco”, expressão usada pelos estadunidenses para um presidente sem força política e mesmo institucional de levar sua agenda à frente.

Agora, sem falsa modéstia, o resultado das eleições brasileiras, em que o neofascismo foi derrotado com a reeleição de Lula, enfrentando justamente a máquina intervencionista do secretário de estado Marco Rubio (Big Techs, CIA, etc.), foi apresentado pela mídia corporativa americana ao seu público como uma vitória chocante e impressionante sobre as forças reacionárias, que nos EUA são representadas pelo Maga e o Trumpismo. Sabemos que as pesquisas já mostravam uma vitória dos democratas nestas eleições, mas não nesta dimensão que vimos após o fim do pleito eleitoral. Há uma possibilidade da maneira como se desenhou o resultado das eleições aqui e das similaridades entre Brasil e EUA em suas respectivas lutas em defesa de suas democracias liberais, que pode ter dado aquele empurrão final para o eleitorado estadunidense, para que ele possa ter se engajado mais do que até então. Temos sinais de que isso pode ter ocorrido, quando houve a proliferação de dicas de influenciadores de lá e manuais de como “votar como um brasileiro”, de como driblar os algoritmos das Big Techs, e a verdadeira invasão de apoio dos brasileiros nestas publicações. Pois bem, mais que resultados eleitorais, demonstrou-se que é possível construir uma grande Frente Antifascista mundial, que pode contribuir com a vitória de projetos frentistas e partidos progressistas e/ou de (centro) esquerda nas próximas eleições na Europa neste ano e no próximo, como também na Argentina.  

Por fim, voltando estritamente à questão da política dos EUA, é importante dizer que a vitória parlamentar do Partido Democrata este ano ou uma possível vitória mesmo para presidente em 2028 não mudará por completo a ideia das elites estadunidenses (que ainda controlam o partido) de proteger os interesses imperialistas do país e sua tentativa de frear o máximo que puder o seu declínio na hegemonia mundial. Não podemos ter ilusões quanto a isto: os democratas já articularam dois golpes em nosso país contra governos progressistas ou de esquerda (em 1964, com Lyndon B. Johnson, e em 2016, com Obama, para manutenção de interesses intactos. A não ser que haja uma mudança muito profunda e radical nas estruturas do partido. É verdade que estas eleições, bem como a de Mamdani na cidade de Nova Iorque ano passado, deram alguns sinais de mudanças, com o avanço de ideias de caráter socialista. Será que teremos um candidato a presidente nos EUA, assumindo não só estes ideais, como colocando em prática no tocante à sua relação com o mundo? Aí já é outra história. Fiquemos por enquanto com essa que já construímos exitosamente.     

*Por Fabiano Sousa, historiador e militante do Movimento Brasil Popular no Ceará.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Gia Matheus Almeida

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