Dando sequência nesta série das “lições” do Irã para o continente latino-americano, neste curto artigo observamos as relações exteriores da República Islâmica.
Acredito que esta seja a “lição” mais dura e duradoura. Após a vitória da revolução nacional que culmina na proclamação da república como hoje se conhece, a orientação mais premente seria a de busca pela normalização das relações internacionais no espaço da Ásia Ocidental. Seria o “caminho mais prático”, normalizar a partir do trânsito compartilhado com as rotas de óleo e gás pelo Estreito de Ormuz e seguir em busca de novos mercados para o petróleo cru iraniano. Apesar do Golfo Pérsico ter permanecido com suas rotas abertas para a exploração imperialista até março de 2026, todas as demais partes de “normalização” não ocorreram.
A “normalidade” não ocorreu, até porque a percepção – correta – de que os Estados Unidos e Israel eram os maiores responsáveis pela longa duração da monarquia absolutista e entreguista dos Pahlavi foi (e é), um dos grandes fatores de motivação da república. Não se trata “apenas” de oposição simbólica, mas de determinação e objetivo permanente. Toda a presença do imperialismo ocidental no Irã foi (e segue sendo) maléfica e a criação da Anglo-Persian Oil Company (em 1909) e o subsequente golpe de Estado através da Operação Ajax em agosto de 1953 não poderiam ser simplesmente “esquecidos”.
Logo, a presença de bases militares imperialistas na Ásia Ocidental deveria ser vista como permanente ameaça assim como a existência de um “país artificial”, a colônia sionista apelidada de Israel. A correlação é exatamente esta. Seria (segue sendo), impossível o desenvolvimento de uma integração continental diante da ameaça de intervenções estadunidenses de forma direta ou indireta.
Após 1979 – com a vitória da revolução nacional iraniana e a proclamação da República Islâmica – e depois de 1989, com a vitória na guerra de agressão do Iraque (financiado pelos EUA) contra o Irã, Teerã não se isolou e nem aceitou a dominância anglo-sionista na região. Outro paralelo que pode ser feito. A diferença é substantiva. Cuba, como ilha revolucionária, se opôs ao imperialismo desde o primeiro dia da vitória em Havana em 1 de janeiro de 1959. Apesar de todo o empenho dos irredutíveis cubanos, o país não é industrializado, grande falha (erro forçado) da cooperação com a União Soviética(URSS) com a ilha no período da Guerra Fria. Agora, padece de escassez energética e pode estar colapsando (espero que não).
Desta forma, podemos observar que o anti-imperialismo é constitutivo da República Islâmica do Irã, mas a economia política nacional sempre acompanhou este condicionamento. Teerã desde o dia 01 de sua revolução esteve sob sanções do sistema financeiro internacional dominado pelos EUA. A necessidade acompanhou a capacitação do país. Como a vitória se deu ainda durante a Guerra Fria, o Irã se posiciona de forma autônoma sem dispor a sua economia como complementar de potência alguma. Na década de 1940, durante o pós-2a Guerra, as tensões com a União Soviética chegaram ao limite, incluindo a formação de uma república soviética (em 1946) dentro do seu território, com a criação da República de Mahabad, de maioria curda. A experiência foi de curta duração, as sequelas duraram até a vitória de Washington sobre Moscou e o consequentes fim da experiência soviética.
A herança desta tensão foi um mal-estar permanente com a URSS e ainda maior com o imperialismo dos EUA. A tentativa de integração do Irã sempre foi dentro da Umma Islâmica e em especial com o xiismo ampliado. Outra correlação que pode ser feita. Os países latino-americanos deveriam priorizar a si mesmos e em escala ampliada, as relações e a cooperação com os países africanos.
Se o conceito de “América Latina” é até contestado (por preciosistas eurocêntricos), julgando-o por sua origem na diplomacia francesa no século 19, a proximidade de nossos povos e países pode ter alguma correlação na busca da Umma como espaço de centralidade e governança coletiva. Mas, atenção. Não adianta evocar o “sonho de Bolívar” ou a “epopeia de San Martín de los Andes” e no dia a dia pensar como europeu ou estadunidense de segunda categoria e terminar reforçando a maldição agro-mineral primária exportadora até o final dos tempos. Depois, para se “perdoar”, basta com evocar o “pragmatismo” ou o mantra da preguiça intelectual: “as condições não estão dadas companheiro”.
O Irã nunca se rendeu ao argumento comodista e jamais se furtou de alterar as condições objetivas, sustentando sua posição com inteligência, mas indo às últimas consequências. Pode servir de lição para os tempos que vivemos no Continente Latino-Afro-Indo Americano.
*Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista da HispanTV Brasil, doutor em ciência política, tem pós-doc em economia política internacional e é professor de relações internacionais.
**Para mais textos e análises sobre o Irã e Ásia Ocidental, acesse: https://hispantv.substack.com/
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

