Em São Paulo, milhares de brasileiros cantam em coreano. Os três shows do BTS, marcados para 28, 30 e 31 de outubro, tiveram ingressos esgotados. Segundo a CNN Brasil, a procura superou 3,7 milhões de ingressos. Uma multidão mobilizada por sete artistas de um país situado a quase 18 mil quilômetros.
O espetáculo é musical. Mas a história por trás dele é econômica, política e cultural.
No fim dos anos 1990, a Coreia do Sul tomou uma decisão estratégica: transformar cultura em indústria nacional e instrumento de influência mundial. Durante o governo Kim Dae-jung, criou políticas de financiamento, infraestrutura e exportação cultural. Em 2000, a cultura ultrapassou 1% do orçamento nacional.
Nas décadas seguintes, a chamada Hallyu, ou onda coreana, conquistou o planeta. O K-pop abriu mercados; filmes, séries, games e livros atravessaram fronteiras. Empresas privadas produziram os sucessos, enquanto políticas públicas ajudaram a construir as condições para sua expansão.
Os resultados impressionam: “Parasita”, filme de Bong Joon-ho, conquistou quatro Oscars em 2020. Han Kang recebeu o Nobel de Literatura em 2024. Em 2026, “Golden”, de “Guerreiras do K-Pop”, ganhou um Grammy. Não são prêmios fabricados pelo Estado, mas conquistas independentes em um ecossistema cultural fortalecido durante décadas.
O cientista político Joseph Nye chamou de soft power a capacidade de influenciar outros países pela atração. A Coreia compreendeu que uma música pode despertar o interesse por um idioma; uma série, pelo turismo; um romance, por toda uma tradição literária.
O caso de Han Kang é revelador. Antes do Nobel, o Instituto de Tradução Literária da Coreia, financiado pelo governo, apoiara 76 edições de suas obras em 28 idiomas. Desde sua criação, em 1996, a instituição havia apoiado 2.171 publicações em 44 línguas.
O talento era da escritora. Mas o mundo precisava conseguir lê-la.
E o Brasil?
Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Aluísio Azevedo, Carolina Maria de Jesus e tantos outros construíram uma literatura de dimensão universal. Entretanto, talento não basta quando faltam tradução, distribuição, divulgação e presença internacional continuada.
O Brasil já possui um Programa de Apoio à Tradução da Biblioteca Nacional, responsável por quase 1.600 projetos em 35 anos. É uma base importante, mas que poderia integrar uma política muito mais ambiciosa.
Imagine um plano de vinte anos para a literatura brasileira: centenas de traduções, acordos com editoras estrangeiras, cátedras universitárias, festivais, adaptações audiovisuais, plataformas digitais multilíngues e campanhas internacionais de leitura.
Machado poderia abrir portas para escritores contemporâneos. Nossos clássicos circulariam como patrimônio literário mundial, enquanto novos autores conquistariam leitores, críticos e editoras.
Não se trata de comprar um Nobel, algo impossível. A Academia Sueca decide independentemente. Trata-se de construir as condições para que a literatura brasileira seja conhecida, estudada e reconhecida internacionalmente.
A Coreia do Sul não esperou que o mundo descobrisse espontaneamente sua cultura. Investiu para que ela atravessasse fronteiras.
O Brasil precisa compreender essa diferença.
Um Nobel não começa em Estocolmo. Começa décadas antes, quando um país decide que sua literatura merece ser lida pelo mundo.
*C.S. Soares é escritor e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno (Ação Editora, 2025), obra que revela o Machado de Assis negro que o país tentou esquecer. Acompanhe seu trabalho em cssoares.online e nas redes sociais: @cssoaresonline.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.


