C.S. Soares

C.S. Soares é editor, escritor e jornalista dedicado à literatura clássica brasileira. Autor da biografia Machado: O Filho do Inverno, a primeira a abordar Machado de Assis como escritor negro, revela aspectos inéditos de sua vida e obra. Ex-colunista de O Globo e editor da coleção de clássicos do Google Books, hoje dirige a Obliq Livros e cria conteúdos que aproximam o público da literatura brasileira. Nas redes sociais: @cssoaresonline.

Do BTS ao Nobel: o que a Coreia do Sul ensina ao Brasil sobre o poder da cultura 

Integrantes da banda sul-coreana BTS utilizaram camisa do Brasil e adereços indígenas durante show em São Paulo
Integrantes da banda sul-coreana BTS utilizaram camisa do Brasil e adereços indígenas durante show em São Paulo | Crédito: Instagram/ BTS

Os estádios lotados pelo K-pop revelam uma estratégia de décadas. O Brasil poderia seguir esse caminho para conquistar seu primeiro Nobel de Literatura

Em São Paulo, milhares de brasileiros cantam em coreano. Os três shows do BTS, marcados para 28, 30 e 31 de outubro, tiveram ingressos esgotados. Segundo a CNN Brasil, a procura superou 3,7 milhões de ingressos. Uma multidão mobilizada por sete artistas de um país situado a quase 18 mil quilômetros. 

O espetáculo é musical. Mas a história por trás dele é econômica, política e cultural. 

No fim dos anos 1990, a Coreia do Sul tomou uma decisão estratégica: transformar cultura em indústria nacional e instrumento de influência mundial. Durante o governo Kim Dae-jung, criou políticas de financiamento, infraestrutura e exportação cultural. Em 2000, a cultura ultrapassou 1% do orçamento nacional. 

Nas décadas seguintes, a chamada Hallyu, ou onda coreana, conquistou o planeta. O K-pop abriu mercados; filmes, séries, games e livros atravessaram fronteiras. Empresas privadas produziram os sucessos, enquanto políticas públicas ajudaram a construir as condições para sua expansão. 

Os resultados impressionam: “Parasita”, filme de Bong Joon-ho, conquistou quatro Oscars em 2020. Han Kang recebeu o Nobel de Literatura em 2024. Em 2026, “Golden”, de “Guerreiras do K-Pop”, ganhou um Grammy. Não são prêmios fabricados pelo Estado, mas conquistas independentes em um ecossistema cultural fortalecido durante décadas. 

O cientista político Joseph Nye chamou de soft power a capacidade de influenciar outros países pela atração. A Coreia compreendeu que uma música pode despertar o interesse por um idioma; uma série, pelo turismo; um romance, por toda uma tradição literária. 

O caso de Han Kang é revelador. Antes do Nobel, o Instituto de Tradução Literária da Coreia, financiado pelo governo, apoiara 76 edições de suas obras em 28 idiomas. Desde sua criação, em 1996, a instituição havia apoiado 2.171 publicações em 44 línguas. 

O talento era da escritora. Mas o mundo precisava conseguir lê-la. 

E o Brasil? 

Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Aluísio Azevedo, Carolina Maria de Jesus e tantos outros construíram uma literatura de dimensão universal. Entretanto, talento não basta quando faltam tradução, distribuição, divulgação e presença internacional continuada. 

O Brasil já possui um Programa de Apoio à Tradução da Biblioteca Nacional, responsável por quase 1.600 projetos em 35 anos. É uma base importante, mas que poderia integrar uma política muito mais ambiciosa. 

Imagine um plano de vinte anos para a literatura brasileira: centenas de traduções, acordos com editoras estrangeiras, cátedras universitárias, festivais, adaptações audiovisuais, plataformas digitais multilíngues e campanhas internacionais de leitura. 

Machado poderia abrir portas para escritores contemporâneos. Nossos clássicos circulariam como patrimônio literário mundial, enquanto novos autores conquistariam leitores, críticos e editoras. 

Não se trata de comprar um Nobel, algo impossível. A Academia Sueca decide independentemente. Trata-se de construir as condições para que a literatura brasileira seja conhecida, estudada e reconhecida internacionalmente. 

A Coreia do Sul não esperou que o mundo descobrisse espontaneamente sua cultura. Investiu para que ela atravessasse fronteiras. 

O Brasil precisa compreender essa diferença. 

Um Nobel não começa em Estocolmo. Começa décadas antes, quando um país decide que sua literatura merece ser lida pelo mundo. 

*C.S. Soares é escritor e biógrafo, autor de Machado: O Filho do Inverno (Ação Editora, 2025), obra que revela o Machado de Assis negro que o país tentou esquecer. Acompanhe seu trabalho em cssoares.online e nas redes sociais: @cssoaresonline.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Clivia Mesquita

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