Em ano de Copa e eleição, há sempre uma cobrança da esquerda para que atletas de futebol tenham posicionamentos progressistas, mas quase nenhuma reflexão do porquê eles não o fazem. Seria somente uma questão individual de cada jogador, do seu caráter ou escolha pessoal?
Após a eliminação, houve nas redes sociais debates relacionando o avanço do neopentecostalismo no Brasil e seus reflexos na Seleção, tratando desde a forma como os jogadores falam da eliminação nas redes sociais até a forma de jogar dos brasileiros — como fez o jornal britânico The Times. De todo modo, é impossível falar sobre futebol moderno e futebol brasileiro sem considerar o avanço do neoliberalismo e do neopentecostalismo no país e no mundo.
Quero propor uma reflexão envolvendo dois fenômenos que se retroalimentam nas últimas décadas: o enfraquecimento de movimentos populares, como sindicatos e associações de moradores, e o crescimento de igrejas evangélicas em territórios de maior vulnerabilidade socioeconômica.
Maria da Glória Gohn, referência no campo dos movimentos populares, faz um apanhado que vai desde os movimentos de bairros na redemocratização até as jornadas de junho de 2013, em seu artigo “A trajetória das ações coletivas e dos movimentos sociais no Brasil nos últimos 40 anos (…)”, escrito em 2024. Ela destaca que houve mudanças significativas na forma como as pessoas se organizam na sociedade a partir da conquista de espaços dentro das instituições formais da política, como conselhos e fóruns, por exemplo.
Houve mudanças também na percepção sobre organização coletiva, optando por espaços e pautas cada vez mais específicos e coletivos mais flexíveis e com inserções no campo digital. Como marco dessa transformação, a autora traz as manifestações de junho de 2013, que revelaram uma insatisfação com as formas de organização política tradicional, rejeição aos partidos políticos e sindicatos, ausência de lideranças e mobilizações cada vez maiores através das redes sociais.
Paralelamente a todo esse movimento de enfraquecimento de organizações coletivas, acontecia um crescimento de igrejas evangélicas neopentecostais no país, sobretudo nos territórios economicamente vulneráveis. Com uma roupagem diferente do catolicismo e do protestantismo tradicional, o neopentecostalismo chega também com elementos fortes do neoliberalismo econômico, que também avançava agressivamente no mundo, pregando novas concepções de demonstração da fé e recompensas divinas diretamente relacionadas ao êxito financeiro.
Na chamada Teologia da Prosperidade, “só não é próspero financeiramente, saudável e feliz nessa vida quem carece de fé, não cumpre o que diz a Bíblia a respeito das promessas divinas e está envolvido, direta ou indiretamente, com o Diabo. A posse, a aquisição e a exibição de bens, a saúde em boas condições e a vida sem grandes problemas ou aflições são apresentadas como provas da espiritualidade do fiel”, escreveu o sociólogo Ricardo Mariano, em artigo de 1996 sobre os neopentecostais e a teologia da prosperidade.
Uma forma de pensar que reforça valores como individualidade e meritocracia e desconstrói outros ideais pregados pelo cristianismo tradicional de abdicação da riqueza como demonstração de fé. Na nova lógica, sua relação com o divino pode e deve ser materializada em bens.
Na lógica neopentecostal, há também um reforço da dualidade entre as figura divina e diabólica que vivem em constante guerra no plano terreno. Ainda neste plano, podemos colher o bem ou o mal, sendo o bem representado pela riqueza e o mal pelas mazelas, que podem ser financeiras ou de saúde, por exemplo.
O quanto você será abençoado aqui na Terra depende quase que exclusivamente do tamanho da sua fé e, em alguns casos, do quanto você pode doar para as igrejas. Não se busca necessariamente a salvação na vida após a morte, mas uma vida com abundância aqui na Terra.
Os impactos dessa construção não se limitam ao plano espiritual: afetam a cultura e as formas de organização da sociedade. Essas igrejas ocuparam gradualmente um espaço deixado pela ineficiência do Estado nas periferias, onde muitas vezes a única forma de presença do Estado é através das forças policiais.
É comum que essas igrejas construam redes de trabalhos comunitários, ações de assistencialismo, mediação de conflitos e formação de lideranças comunitárias e religiosas, tornando a igreja e seus líderes referências de acolhimento, proteção, possibilidade de transformação da realidade e inspiração para a construção de valores morais.
Os valores neoliberais enraizados nas igrejas neopentecostais encontram no futebol um terreno fértil para prosperar. Para Lívia Reis, pesquisadora do Museu Nacional e do Instituto Superior de Estudos da Religião, em entrevista ao jornal O Globo, em 2021, “a cosmologia pentecostal tem afinidade muito grande com o neoliberalismo, valorizando meritocracia, esforço individual, obediência, foco e determinação. Os jogadores de futebol são a materialização desses valores e, em contrapartida, atribuem seu sucesso a Deus”.
Além disso, a maioria dos jogadores que chegam ao futebol profissional precisa deixar suas casas e famílias cada vez mais cedo para seguir a carreira. Vivem um distanciamento da sociedade, afastam-se do território conhecido, do convívio com amigos — algo até incentivado para evitar o uso de bebidas e drogas. Eles encontram na religião e na figura divina um ponto de apoio em meio ao isolamento.
Pelas entrevistas e recorte biográfico dos jogadores de futebol que chegam à Seleção Brasileira, é possível dizer que a maioria deles vem de territórios pobres, onde as igrejas têm papel fundamental na organização da comunidade, tanto no que diz respeito ao assistencialismo, quanto no afastamento dos jovens do mundo do crime, encontrando na fé e no esporte o único caminho fora da criminalidade para mudar radicalmente o contexto de pobreza.
Ao alcançar essa “graça” tão sonhada pela família, de ser um jogador de futebol profissional e mudar o status econômico, é compreensível que quem veio da invisibilidade, com muita fragilidade na execução de políticas públicas e que somente encontrou acolhimento e incentivo para a prática esportiva através da própria família e da igreja, acredite na meritocracia, na bênção divina e no esforço individual como o único caminho possível.
Ao enxergar-se como exceção entre os que cresceram junto consigo, esses jogadores creem ter sido escolhidos, seja por uma predestinação divina, pelo tamanho da sua fé ou da sua vontade de vencer.
É essa mesma sensação de ser abençoado e escolhido pelo divino que distorce o senso de coletividade do atleta. A competição, o esporte, não é sobre o grupo, mas sobre a missão que Deus lhe deu, sobre a prova divina à qual ele está submetido cotidianamente. Seja a derrota ou a vitória, tudo tem um propósito maior.
Se esses fatores afetam o desempenho técnico e tático dos jogadores, não podemos responder. Mas perceptivelmente mudam o senso de pertencimento, a identificação com a cultura do país e com o povo brasileiro em sua diversidade religiosa e política.
Não busco trazer respostas aqui, mas incentivar a reflexão que fiz no início: a ausência de jogadores que tenham posicionamentos políticos progressistas e o aumento de jogadores que se declaram conservadores seriam uma questão individual desses atletas ou consequência da desigualdade social que dificulta o acesso de jovens periféricos a políticas públicas eficientes de saúde, educação, esporte e lazer?
Ouso ir além: não seria também uma consequência da incapacidade dos movimentos sociais de se reinventarem dentro de suas bases diante das mudanças da sociedade e do mundo do trabalho?
O alinhamento político dos esportistas não é também resultado da nossa — eu me incluo enquanto militante — falta de compreensão do papel que as igrejas ocupam no acesso a direitos básicos de muitas pessoas? Não é consequência da nossa falta de debate sobre políticas públicas eficientes na área de esportes, que deem aos tantos talentos que se perdem por falta de apoio uma forma de seguir sonhando com o futebol?
É muito importante que nossos jogadores de futebol da Seleção tenham consciência de classe, posicionamentos em defesa da classe trabalhadora e dos mais pobres, mas essa consciência não se constrói de cima para baixo. Como escreveu Paulo Freire: “A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Somente com investimento econômico, cultural e político na educação e na formação de atletas ainda na base, durante a infância, podemos construir uma nova geração de atletas.

