Embora seja comum ouvir que futebol e política não se misturam, não é nenhuma novidade a resistência de torcedores, atletas ou até mesmo de clubes contra projetos antidemocráticos, tendo como exemplo mais conhecido a Democracia Corinthiana ou episódios mais recentes de protestos após a Copa do Mundo de 2014 contra o chamado “futebol moderno”, que encareceu os ingressos, elitizou estádios e reformulou as formas de torcer.
Mesmo havendo registros de organizações políticas em torno do futebol desde a sua chegada ao Brasil, foi nos últimos 8 anos que as torcidas antifascistas ganharam mais força nas arquibancadas brasileiras, justamente em reação ao bolsonarismo. O líder de extrema direita usou o futebol para aumentar sua popularidade, vestindo camisas de diversos clubes brasileiros.
De 2018 para cá, as torcidas protagonizaram episódios importantes no cenário político brasileiro, entre os quais eu destaco três momentos que simbolizam a participação de torcedores para além das arquibancadas. O primeiro destaque é a forte participação das torcidas antifascistas nas manifestações contrárias a Jair Bolsonaro durante o movimento “Ele Não”, enxergando desde o princípio os riscos à democracia representados naquele projeto.
O segundo episódio aconteceu durante a pandemia da Covid-19: foram as torcidas organizadas que ocuparam as ruas pela primeira vez, entre maio e junho de 2020, para impedir manifestações de apoiadores do então presidente da República, que carregavam faixas pedindo golpe militar. As imagens da forte repressão policial contra os torcedores na avenida Paulista repercutiram o mundo todo.
Em Pernambuco, torcidas antifascistas se uniram contra a falta de medidas sanitárias de enfrentamento à pandemia do governo Bolsonaro e em defesa da democracia, um princípio inegociável para a existência de torcidas organizadas. Além de denunciar o racismo e cobrar justiça no caso do menino Miguel.

Por último, destaco um episódio que não foi diretamente protagonizado por torcidas antifascistas, mas pelas organizadas tradicionais. Em 2022, após a vitória do presidente Lula, apoiadores de Bolsonaro promoveram atos pedindo golpe militar, não aceitando o resultado das eleições e realizando bloqueios de várias rodovias no país. O que os golpistas não contavam era com diversas caravanas de torcidas que aconteceriam naquelas datas. A paixão pelo clube de futebol era capaz de enfrentar qualquer adversidade e dispersou as manifestações golpistas de Bolsonaro. O movimento ficou conhecido como “Tropa do Fura Bloqueio”.
Trago esses exemplos para mostrar como política, futebol e torcida estiveram fortemente entrelaçadas nos últimos anos, se posicionando como um contraponto ao avanço da extrema direita no nosso país.
O futebol tem uma capacidade incomparável de reunir multidões, unificar sentimentos, e construir identidades coletivas. As arquibancadas reúnem uma diversidade de pessoas, com origens, posicionamentos e ideologias diferentes, mas que conseguem dentro daquele ambiente construir uma pauta mobilizadora única: o seu clube do coração.
No entanto, o futebol é também um território de disputa constante, inicialmente entre as elites e os operários; também entre o governo ditatorial que o utilizava como propaganda e a luta de jogadores, torcedores e clubes que o enxergavam como ferramenta de resistência; a disputa entre os clubes do eixo Sul e Sudeste do país, com maior capital econômico, e os clubes do Norte e Nordeste, que enfrentam uma disputa desigual.
No período pré-Copa de 2014, o Brasil viu uma disputa entre os que defendiam a realização do evento no Brasil e os que pautavam a priorização de outras pautas; depois teve início a disputa entre os que defendem a migração dos clubes para “arenas modernas” e os que defendem a permanência em seus estádios tradicionais; mais recentemente, a disputa entre quem defende o modelo de clube-empresa ou sociedade anônima (SAF) e quem acredita nos clubes como pertencentes aos seus torcedores, tendo eles poder de decisão na gestão.

São inúmeros os exemplos de disputas existentes no mundo do futebol, um território de constante ebulição e manifestações políticas, sejam elas relacionadas diretamente ao futebol ou a uma pauta social que impacta o dia a dia de quem está nas arquibancadas. Não à toa, num período de crise política nacional, em que há um avanço de discursos da extrema direita com cunho fascista, discursos contra minorias e ameaças à democracia, surge nas arquibancadas um movimento de resistência ao que ameaça a liberdade e a existência da pluralidade das pessoas.
Além das torcidas antifascistas, núcleos de torcedoras, coletivos LGBT+ e coletivos antirracistas cresceram no país na última década. A construção de um estádio de futebol como um local de fato democrático, seguro e sem preconceito virou uma questão de sobrevivência. É preciso estar organizados para cobrar os dirigentes, jogadores e opinar sobre seu clube se caso não haja liberdade e respeito à diversidade que compõe as arquibancadas.
Não é possível a existência de uma torcida que faça parte do clube como membro ativo, não só um mero espectador, se estivermos sob um governo autoritário. É neste contexto que chegamos às eleições de 2026. No dia 4 de outubro, o resultado do 1º turno das eleições presidenciais contrariava a maioria das pesquisas eleitorais. Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47% dos votos e uma diferença de mais de 2 milhões sobre o presidente Lula.
Mas o resultado não desencorajou os que acreditavam no projeto democrático representado por Lula. Logo após o resultado anunciado, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e outras representações estudantis convocaram assembleias de organização para a campanha de 2º turno, desencadeando uma série de grandes mobilizações pelo Brasil que demarcava a mudança de qualidade da campanha do 2º turno em relação ao primeiro.

Torcidas antifascistas, núcleos femininos, movimentos populares e torcedores comuns se juntaram para organizar o movimento chamado “Arquibancadas com Lula”, um grupo formado por pessoas torcedoras da arquibancada de futebol, com foco na mobilização digital e nas ruas. Formou-se um coletivo com mais de 30 torcidas de todo o país dispostas a planejar ações de campanha pela democracia, representada por Lula, contra o filho do ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado.
Em Pernambuco, torcidas de Náutico, Sport e Santa Cruz estiveram envolvidas em ações importantes. Além de se somarem aos grandes atos de rua, também produziram material próprio de campanha para panfletagens nos arredores dos estádios, driblando as dificuldades de aquisição de material e buscando na raça a virada inédita nas eleições brasileiras.
Na porta do estádio, numa noite de jogo, um coletivo de torcedores alvirrubros e a Frente Marighella realizaram o “Timbus com Lula”, em que torcedores levaram suas camisas para serem estampadas gratuitamente com ilustração feita pelo designer e ilustrador David Shamá, torcedor do Náutico. Com grande procura de torcedores dispostos a engajar na campanha, um segundo encontro foi realizado, desta vez com o Movimento Coralinas e a Frente Popular Rubro-Negra, torcidas do Santa Cruz e Sport. Na última semana de campanha foram realizadas duas edições, em Olinda e no Recife.
A ação só foi possível a partir da organização coletiva das torcidas e torcedores envolvidos. Estimamos que mais de 2.500 pessoas participaram das três edições dos “camisetaços” de torcedores em apoio a Lula. Adesivos também foram entregues durante todas as ações das torcidas, reforçando a multiplicação da campanha na Região Metropolitana do Recife.
No domingo do 2º turno tivemos um resultado histórico, uma virada com um crescimento de mais de 10 milhões de votos, resultado de mobilizações como as realizadas pelas torcidas pernambucanas, pelos estudantes, trabalhadores e todas as pessoas que trouxeram para si a responsabilidade sobre o futuro da democracia brasileira.
Das assembleias estudantis aos vizinhos que se juntaram e imprimiram panfletos, providenciaram seus adesivos e saíram de porta em porta para virar voto; das grandes manifestações nas metrópoles brasileiras aos atos nos interiores e periferias; das torcidas organizadas até as associações comunitárias, sindicatos e os mais diversos movimentos sociais, todos carregam essa vitória nos braços. Foi a mobilização popular que tornou possível um resultado tão significativo.
Que fique a lição para os próximos anos: o povo tem um poder surpreendente de organização, disciplina e capacidade de elaborar estratégias. Mas eleições não podem ser um fenômeno pontual de grandes mobilizações. Precisamos que as ruas, as redes e as arquibancadas se mantenham organizadas em defesa dos direitos humanos, da classe trabalhadora e da nossa democracia. Pois só a luta coletiva é capaz de transformar a realidade e construir uma alternativa em que o medo não seja o fator de mobilização, mas a crença num Brasil mais justo, olhando para o futuro.



