Cia Burlesca

 

A Cia Burlesca de Teatro Político traz em seu repertório espetáculos que questionam e provocam a reflexão para desmascarar a realidade, problematizar estereótipos, preconceitos, a manipulação da informação e as disputas de poder. 

Casa Moinho de Vento gera sonhos

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Padaria no Espaço Moinho de Vento no DF
Padaria no Espaço Moinho de Vento no DF | Crédito: Bernardo Fernandes

Os sonhos não podem esperar. A revolução está no cotidiano, no que é visto como pequeno, mas é gigante. Forças motoras de grandes sonhos comunitários.

Os movimentos circulares das pás dos moinhos de vento geram energia, em alguns lugares do mundo usada para fazer farinha, moer grãos, em outros para bombear água. Uma antiga tecnologia que faz mover grandes estruturas a partir da combinação da criação humana e do desenvolvimento da ciência. Na literatura, lembramos de Quixote, com seus atos de bravura que beiram a loucura, enfrentando os moinhos como se fossem gigantes ameaçadores. Aqui talvez tenha um espírito quixotesco de bravura, mas que usa a força dos moinhos de vento para gerar cultura, ciência e alimento.

Articular-se: uma das habilidades da Cia Burlesca. Da apresentação de um espetáculo, de uma oficina, seminário, uma participação em espaço de debate, sempre surgem novos contatos, parcerias e desejo de fazer junto. Assim chegamos ao espaço Moinho de Vento, em Santa Maria, no Distrito Federal. Já são anos de parceria e por lá passamos com todos os nossos espetáculos. 

Voltamos em agosto de 2026 com o espetáculo “A Aurora”, que já tinha sido apresentado no espaço em 2024. Muita coisa aconteceu nesse intervalo de dois anos. “A Aurora” circulou por diversos territórios, inclusive Cuba, nesse momento tão crítico de ataque às conquistas da Revolução Cubana. A brutalidade do mundo atual e as experiências vividas por nós pedem urgência com atualizações constantes. Outro momento, outro espetáculo, outro espaço. Como nos diz um filósofo da antiguidade, nenhuma pessoa se banha duas vezes num mesmo rio, porque o rio e a pessoa já não são os mesmos. 

Um pilar importante do nosso trabalho é dialogar com a conjuntura. É escolha política. Não sabemos fazer teatro distanciado do mundo, das relações, do contexto e, por isso, cada ensaio é uma oportunidade de reler o elaborado e refazer pactos com a pesquisa, a criação e a experimentação. Assim foi o ensaio para a ida ao espaço Moinho de Vento. 

Espetáculo A Aurora
Espetáculo A Aurora | Crédito: Bernardo Fernandes

Levamos um espetáculo com movimentos, intenções e palavras novas a serem experimentadas. Encontramos a Padaria Comunitária Top Trigo Café. O espaço também não era o mesmo. Em um movimento ousado e apostando nos trabalhadores e trabalhadoras da comunidade, a padaria nasceu como mais um fruto da luta coletiva. 

– Tem um moleque aqui, jovem, cria nossa do Moinho, que é padeiro. Trabalha em padaria. Conversamos e começamos a sonhar. É uma demanda da comunidade. Não tem padaria aqui em volta. Ele encontrou um pessoal que estava vendendo equipamento; nós nos organizamos e fizemos a compra (ainda a pagar, claro). E está dando certo. Estamos conseguindo bancar os gastos e atender a comunidade. Muito trabalho e organização nas contas, mas está acontecendo. Tem pão fresquinho todo dia pela metade do preço das outras padarias. E bolo, salgado, rosca. (Alex Martins – Família Hip Hop, Casa Moinho de Vento) 

Em dez minutos de conversa, logo na chegada, entendemos mais uma vez porque faz tanto sentido pra Burlesca circular pelos espaços que circula. A inauguração da padaria foi celebrada com o “Sarau Prosa Latina”, com uma programação artística farta, com Mamulengo Gratidão, DJs, poesias, feira de produtores locais e muitos grafiteiros produzindo suas telas inspirados e inspiradas no muralismo latino-americano.

Casas como o “Moinho” resistem em vários cantos do Distrito Federal e Entorno como oásis nessa imensidão. Imagina se multiplicassem, se fossem regra e não exceção? Imagina se tivesse uma Casa Moinho de Vento em cada bairro do Distrito Federal, do Brasil, do mundo? 

Os sonhos não podem esperar. A revolução está no cotidiano, no que é visto como pequeno, mas é gigante. Forças motoras de grandes sonhos comunitários. E, para um grupo de teatro, que cria, como Guimarães Rosa nos ensina, com os “pés livres, mãos dadas e olhos bem abertos”, lugares como o espaço Moinho de Vento são palcos férteis e carregados de sentido.

A ação coletiva materializa sonhos que transformam realidades. Para conhecer a Padaria Comunitária do Espaço Moinho de Vento, acesse a página do projeto.

Seguimos construindo!

*Lyvian Sena e Julie Wetzel são integrantes da Cia Burlesca.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.


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Editado por: Flavia Quirino

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