Fazer teatro exige mobilização! Muito já se falou, aliás, ainda se fala sobre como incentivar a cultura de ir ao teatro. O prédio mesmo, a estrutura em si. Porque sabemos, inclusive fazemos, o tipo de teatro que vai lá onde o povo está. Pois bem, inventamos de fazer uma minitemporada de retomada do nosso amado espetáculo “O Longe”. Escolhemos as datas que tinham, o final de semana entre os turnos de eleição. Para sermos mais precisas, a semana fatídica pós o primeiro turno, onde estávamos restaurando as nossas forças para retomar a luta!
Em parceria com a Casa dos 4 apresentamos três dias de casa cheia. O segredo foi a mobilização de amigos e amigas com recurso pagarem ingressos de grupos interessados e interessantes. Uma turma de estudantes do Instituto Federal de Brasília (IFB) do Recanto das Emas e um grupo de mulheres da Aliança Social Continental (ASC), uma rede que reúne movimentos sociais, sindicais e organizações de diversos países do hemisfério americano contra o fascismo. A temporada foi independente e só foi possível com a ajuda de muita gente. Teatro é movimento, mobilização, política.
Professoras, estudantes, amigos e amigas de longa data, militantes de movimentos sociais e sindicais, familiares e público espontâneo se reuniram na aconchegante Sala Alexandre Ribondi. A história da peça é narrada por uma menina e uma avó em situação de refúgio. As atrocidades do capital internacional são escancaradas, desumanizando pessoas desterritorializadas. Mas é na relação de afeto e cuidado entre avó e menina que a dignidade humana é mantida. Nós, juntas e juntos, o grupo e a plateia, de alguma forma nos reestabelecemos ali, a cada dia, a cada apresentação.
A bilheteria organizada, cheia de adesivos do Lula fazia com que a plateia toda estivesse em campanha. Ao final de cada peça dialogávamos com o público e não tinha como o “Olê, olê, Olê, olá, Lula, Lula” não sair em coro emocionado de todos nós presentes. O espetáculo e a campanha ocupavam os assuntos do espaço externo ao teatro. Os vídeos de teatro invisível que circulavam na internet eram assuntos mencionados como instrumento eficiente. A vida e a arte entrelaçadas, como tem que ser!
Passado o final de semana intenso com espetáculo e o maravilhoso ato com Lula em Ceilândia, na terça-feira o museu se encheu com cerca de 100 mil pessoas. Ato puxado pelos estudantes. Ouvia-se o burburinho da dúvida se em Brasília seria tão grande como tinham sido em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e tantos outros lugares. E foi imenso no DF também. A emoção tomava conta com a esperança se alargando por todos os lados para virar a história.
Na quarta-feira, chegamos a Taguatinga, no Teatro Paulo Autran, para participar do 2º Festival de Teatro do Distrito Federal. A imensa campanha de alfabetização cubana que erradicou o analfabetismo em 1961 no país inteiro é o tema da peça que iríamos apresentar. Todas as pessoas envolvidas no Festival estavam com uma energia vibrante, uma mistura de medo e esperança com o que víamos acontecer em todo o país.
A extrema direita não recuava, após um lindo ato na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em apoio ao Lula, um incêndio criminoso tomou conta de um prédio, destruindo longos processos de pesquisa. Uma cena aterrorizante. A urgência da luta estava exposta!
“A Aurora”, nosso espetáculo sobre a campanha de alfabetização, também narra sobre o lado opositor. Na cena de nome “algozes da educação”, o período de queima de livros na Alemanha é relacionado com a perseguição ao Paulo Freire no Brasil, assim como, com os livros perseguidos na atualidade e com os símbolos do fascismo, como a tiara de flores. Esta que viralizou no último período com um vídeo da deputada da extrema direita eleita andando pela rua com um chicote na mão.
Enquanto isso, o Janones organizava o exército do Lula e nós em cena falávamos sobre o exército de alfabetizadores da campanha cubana! Enquanto o povo brasileiro dialogava com todas as pessoas que era possível para virar mais um voto, em cena uma brigadista alfabetizava mais uma pessoa! De um em um, uma multidão.
Após a apresentação, dialogamos com as pessoas que tinham ido assistir, todas adesivadas e com bandeira do Lula. Com os olhos brilhantes em ouvir uma história de uma campanha exitosa, trocamos em como manter e ampliar o diálogo nas escolas. Como não abrir mão destes territórios de construção humana! E, sim, ao mesmo tempo conferindo se havia mais uma missão a cumprir do Exército do Lula. Guerra? Isso! Pela democracia, pela vida. Sem fuzil. Com palavras, sentimento, ação coletiva.
Com os corações em festa, seguimos a semana de campanha com bandeiraços, banquinhas de vira voto, teatro Imagem, tarefas do Exército do Lula, Agitação e Propaganda e tantas outras milhares de formas criativas que fomos vendo por todos os lados.

No domingo, fomos mais uma vez encher o Museu da República com nossos gritos em defesa da democracia, onde a ETPVP-DF fez uma potente cena de Teatro Imagem. Na parte da tarde, seguimos para a Cozinha Solidária do MTST no Sol Nascente para contribuir com uma oficina de teatro para as mulheres do projeto Periferia pelas Mulheres. A cena contou com as mulheres falando das políticas públicas em meio a um potente coro de mulheres cantando:
“Somos feitas pra viver, somos feitas pra viver com saúde e moradia, somos feitas pra viver”.
Seguimos para Taguatinga e a semana Burlesca concluiu com um grande presente, o reconhecimento de Direção Destaque do espetáculo “A Aurora” feita por Patrícia Barros e Lyvian Sena. Ganhamos este reconhecimento junto com outras tantas trabalhadoras e trabalhadores do teatro. Cada um que subia ao palco derramava sobre nós palavras de esperança e luta! Vencemos, amigas e amigos, vencemos!
“Ao final da campanha de alfabetização a população se reuniu na praça central da capital, a praça da Revolução José Martí, para erguer juntos uma bandeira com a frase ‘Cuba Território Livre de Analfabetismo’. Os mais de cem mil brigadistas gritavam: ‘“’Diga o que mais temos que fazer!! / Diga o que mais temos que fazer!!!'” – trecho do espetáculo “A Aurora”.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
*Lyvian Sena e Julie Wetzel são integrantes da Cia Burlesca.
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