Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Bibliocídio: a IA, as big techs e o futuro dos livros (e da humanidade)

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24ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty
24ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty | Crédito: Walter Craveiro/Flickr FLIP

Como na idade média, hoje assistimos a guilhotinada da IA

Gabriela Gonçalves

Há poucos dias, na Flip, a maior feira literária do país, que também é uma festa, mais de 40 mil pessoas passaram em Paraty ao longo de 4 dias, com inúmeros lançamentos de escritores conhecidos e anônimos, os amantes de livros (escritores, editores e principalmente leitores) se reuniram alegremente durante o evento, celebrando a literatura e a poesia. E o objeto: os livros. 

Inclusive, sortudo de quem esteve presente na maravilhosa palestra do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça, responsável pela biblioteca do Vaticano. Imaginem a riqueza do acervo! 

Imediatamente após a feira, começou a aparecer na minha timeline postagens sobre livros sendo “escaneados”, aliás, digitalizados em massa por laboratórios de IA,  fazendo  uma “leitura dinâmica” em altíssima velocidade, inimaginável para qualquer ser humano, com o objetivo de registrar informações mais consistentes e fidedignas sobre história e informações técnicas. 

Livros raros, fora de catálogo, viraram ouro. Estão em busca de livros pré 2022, antes da popularização de ChatGPT, quando o conteúdo estava menos contaminado por texto sintético, quando estávamos livres da inteligência artificial. Quando “ela” ainda pertencia a um futuro incerto, como ficção científica. Os livros “alvo” tem linguagem humana, revisão editorial, vocabulário, estrutura e conhecimento especializado. E sentimento. 

Além dessa desenfreada coleta para  alimentar seus dados com o discurso hipócrita de que estão democratizando a informação e humanizando a linguagem, o problema se agrava quando sabemos que estão literalmente, destruindo os exemplares. Cortam a lombada do livro, digitalizam e logo os destroem. 

Esse é o projeto Panamá, da empresa Anthropic, que comprou milhões de livros com esse objetivo. Em pleno século 21, estamos assistindo as empresas de tecnologia IA guilhotinando os livros e suas histórias, na calada da noite e do dia. Piratear livros é ilegal, mas comprar, cortar, escanear e picar encontrou brecha na lei. Segundo especialistas, encontraram respaldo jurídico para destruir exemplares após escaneamento. 

Como na idade média, durante a inquisição, que a igreja queimava livros com conteúdo herege e subversivo, segundo a avaliação da própria, hoje assistimos silenciosamente e embasbacados, a guilhotinada da IA. Estão destruindo os livros para monopolizarem a escrita e os saberes. E no futuro, a forma como a humanidade pensa. Para a IA, um clássico não vale a história que carrega. Sugiro a leitura do clássico “Fahrenheit 451”.

Voltando à idade média, ao mesmo tempo que a igreja era detentora do conhecimento, sabia latim diante de uma população analfabeta, e destruía volumes suspeitos, os monges copistas foram responsáveis por preservarem a cultura ocidental, transcrevendo manualmente e minuciosamente o conteúdo dos livros em pergaminhos. Usavam penas de aves como canetas e tintas feitas com minerais e vegetais. O ofício era feito lentamente, em letra de forma e exigia esforço visual intenso. Graças a isso, muitos textos da filosofia grega, ciência romana e religião não se perderam. 

Fica a pergunta: estamos espelhados na idade média diante da super tecnologia? Se a IA preserva o texto mas destrói o livro, isto é progresso ou apagamento? E outra pergunta clichê e desesperada: onde vamos parar? 

Quem pagará o preço serão as próximas gerações, que receberão informações mastigadas e manipuladas sem terem nem a oportunidade de chegar aos originais. O que se anuncia não é apenas um futuro distópico onde o livro e o conhecimento humano terão desaparecido ou estarão sob o controle das corporações. Antes disso, talvez, o que a gente assista é o fim da própria humanidade.

Gabriela Gonçalves é escritora belorizontina, autora de “Palavras prenhas”, editado pela Literíssima Editora, e “O silêncio contido nos abismos”,  publicado editora Inmensa. 

Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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