Gabriela Gonçalves
Há poucos dias, na Flip, a maior feira literária do país, que também é uma festa, mais de 40 mil pessoas passaram em Paraty ao longo de 4 dias, com inúmeros lançamentos de escritores conhecidos e anônimos, os amantes de livros (escritores, editores e principalmente leitores) se reuniram alegremente durante o evento, celebrando a literatura e a poesia. E o objeto: os livros.
Inclusive, sortudo de quem esteve presente na maravilhosa palestra do cardeal e poeta José Tolentino Mendonça, responsável pela biblioteca do Vaticano. Imaginem a riqueza do acervo!
Imediatamente após a feira, começou a aparecer na minha timeline postagens sobre livros sendo “escaneados”, aliás, digitalizados em massa por laboratórios de IA, fazendo uma “leitura dinâmica” em altíssima velocidade, inimaginável para qualquer ser humano, com o objetivo de registrar informações mais consistentes e fidedignas sobre história e informações técnicas.
Livros raros, fora de catálogo, viraram ouro. Estão em busca de livros pré 2022, antes da popularização de ChatGPT, quando o conteúdo estava menos contaminado por texto sintético, quando estávamos livres da inteligência artificial. Quando “ela” ainda pertencia a um futuro incerto, como ficção científica. Os livros “alvo” tem linguagem humana, revisão editorial, vocabulário, estrutura e conhecimento especializado. E sentimento.
Além dessa desenfreada coleta para alimentar seus dados com o discurso hipócrita de que estão democratizando a informação e humanizando a linguagem, o problema se agrava quando sabemos que estão literalmente, destruindo os exemplares. Cortam a lombada do livro, digitalizam e logo os destroem.
Esse é o projeto Panamá, da empresa Anthropic, que comprou milhões de livros com esse objetivo. Em pleno século 21, estamos assistindo as empresas de tecnologia IA guilhotinando os livros e suas histórias, na calada da noite e do dia. Piratear livros é ilegal, mas comprar, cortar, escanear e picar encontrou brecha na lei. Segundo especialistas, encontraram respaldo jurídico para destruir exemplares após escaneamento.
Como na idade média, durante a inquisição, que a igreja queimava livros com conteúdo herege e subversivo, segundo a avaliação da própria, hoje assistimos silenciosamente e embasbacados, a guilhotinada da IA. Estão destruindo os livros para monopolizarem a escrita e os saberes. E no futuro, a forma como a humanidade pensa. Para a IA, um clássico não vale a história que carrega. Sugiro a leitura do clássico “Fahrenheit 451”.
Voltando à idade média, ao mesmo tempo que a igreja era detentora do conhecimento, sabia latim diante de uma população analfabeta, e destruía volumes suspeitos, os monges copistas foram responsáveis por preservarem a cultura ocidental, transcrevendo manualmente e minuciosamente o conteúdo dos livros em pergaminhos. Usavam penas de aves como canetas e tintas feitas com minerais e vegetais. O ofício era feito lentamente, em letra de forma e exigia esforço visual intenso. Graças a isso, muitos textos da filosofia grega, ciência romana e religião não se perderam.
Fica a pergunta: estamos espelhados na idade média diante da super tecnologia? Se a IA preserva o texto mas destrói o livro, isto é progresso ou apagamento? E outra pergunta clichê e desesperada: onde vamos parar?
Quem pagará o preço serão as próximas gerações, que receberão informações mastigadas e manipuladas sem terem nem a oportunidade de chegar aos originais. O que se anuncia não é apenas um futuro distópico onde o livro e o conhecimento humano terão desaparecido ou estarão sob o controle das corporações. Antes disso, talvez, o que a gente assista é o fim da própria humanidade.
Gabriela Gonçalves é escritora belorizontina, autora de “Palavras prenhas”, editado pela Literíssima Editora, e “O silêncio contido nos abismos”, publicado editora Inmensa.
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Leia outras crônicas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

