Por Samira Maria Araújo
Na dedicatória de Histórias soturnas, Luciano Mendes me desejou que a leitura me inspirasse “coisas boas, apesar do peso das letras”. O escritor tinha razão. Há livros que nos conduzem por caminhos da delicadeza; outros nos fazem atravessar a escuridão para reconhecer, ao final, de alguma forma, que é preciso seguir em frente. Este é um deles.
Os onze contos reunidos na obra nos colocam diante de acontecimentos sobrenaturais, tensões, mistérios e perigos que despertam arrepios pelo corpo todo. São histórias que parecem atravessar gerações e fronteiras, alimentando o imaginário humano e a curiosidade diante do inexplicável.
Ao ler o livro, percebemos o encontro entre o estilo de Georges Simenon, autor belga, que construía intrigas simples com personagens fortes, fazendo-nos refletir sobre nossa humanidade, dentro de uma lógica ambígua e complexa entre os inocentes e culpados e, o estilo perspicaz de Luciano Mendes.
O medo nos contos de Luciano Mendes não é apenas um efeito da narrativa. Ele também nos aproxima de experiências profundamente humanas: o sofrimento, a solidão, a violência, a perda e a necessidade de seguir em frente apesar dos fantasmas que nos assombram.
Entre as histórias, a de Epaminondas, ambientada em um lar de idosos, impressiona pela crueldade. O sofrimento de um filho diante do pai, no contexto da ditadura, desperta empatia e nos faz pensar nas marcas que a violência política pode deixar nas relações familiares. O presságio da cartomante diante da tragédia envolvendo um professor, lembrando Elis Regina, quando dizia “não fale do medo que temos da vida, não ponha o dedo na nossa ferida”. E o conto sobre a menina abusada pelo pai adotivo nos mobiliza de outra maneira: a literatura transforma o horror em denúncia e nos convoca à luta contra toda forma de violência contra mulheres e meninas.
As assombrações aparecem aqui e acolá, como se conhecessem os lugares mais vulneráveis da nossa imaginação. E talvez seja justamente essa a força do livro: o sobrenatural não nos afasta da realidade. Ao contrário, muitas vezes nos devolve a ela com um olhar mais atento.
“Uma cabeça perdida” foi o conto que mais me perturbou. Tomei-me de tal maneira pela narrativa que passei a noite entre pesadelos. Mas, curiosamente, foi também essa história que me levou para lugares muito diversos. Lembrei-me de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, que resgata a famosa lenda urbana pernambucana da Perna Cabeluda. Lembrei-me também de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, filme em que Salvatore, um cineasta bem-sucedido, revisita a infância e os afetos de uma pequena vila na Sicília.
A aproximação entre essas obras não está apenas no medo ou na memória, mas na maneira como o passado continua habitando o presente. Em “Uma cabeça perdida”, o narrador retorna a Rio Pomba e, ao “exorcizar os demônios, ou os fantasmas”, reencontra uma casa que já não é a mesma. A memória, entretanto, permanece. Como escreve Luciano Mendes: “restavam apenas os sentimentos desnudos e sem lugar para encostar o sofrimento”.
É nesse ponto que Histórias soturnas ultrapassa o território do conto de terror. As histórias nos assustam, mas também nos fazem pensar sobre aquilo que carregamos, sobre o que tentamos esquecer e sobre o que, mesmo transformado pelo tempo, continua a nos constituir.
A leitura de Luciano Mendes nos lembra que nem todo fantasma deseja nos levar para a morte. Alguns nos conduzem à memória. Outros nos devolvem à infância. Há aqueles que nos fazem reconhecer a dor de alguém. E existem os que, depois de nos tirar o sono, nos ensinam a olhar para a vida com mais coragem.
Talvez seja essa a inspiração prometida na dedicatória: não a ausência do medo, mas a possibilidade de continuar vivendo apesar dele.
Histórias soturnas é um convite para atravessar a noite. E, quem sabe, descobrir que até nas histórias mais escuras há algo que nos ajuda a seguir em frente.
Samira Araújo é pedagoga pela FaE/UFMG. professora da educação básica e analista educacional na SEE/MG.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


