Cidade das Letras: literatura e educação

A coluna Cidade das Letras: literatura e educação é mantida por Luciano Mendes de Faria Filho, que é pedagogo, doutor em Educação e professor  da UFMG, e por Natália Gil, que é pedagoga,  doutora em Educação e professora da UFRGS. A coluna traz contribuições ao debate público sobre educação e literatura no país.

Histórias que assombram, memórias que permanecem

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Histórias soturnas é um convite para atravessar a noite | Crédito: Samira Maria Araújo

Nem todo fantasma deseja nos levar para a morte

Por Samira Maria Araújo

Na dedicatória de Histórias soturnas, Luciano Mendes me desejou que a leitura me inspirasse “coisas boas, apesar do peso das letras”. O escritor tinha razão. Há livros que nos conduzem por caminhos da delicadeza; outros nos fazem atravessar a escuridão para reconhecer, ao final, de alguma forma, que é preciso seguir em frente. Este é um deles.

Os onze contos reunidos na obra nos colocam diante de acontecimentos sobrenaturais, tensões, mistérios e perigos que despertam arrepios pelo corpo todo. São histórias que parecem atravessar gerações e fronteiras, alimentando o imaginário humano e a curiosidade diante do inexplicável. 

Ao ler o livro, percebemos o encontro entre o estilo de Georges Simenon, autor belga, que construía intrigas simples com personagens fortes, fazendo-nos refletir sobre nossa humanidade, dentro de uma lógica ambígua e complexa entre os inocentes e culpados e, o estilo perspicaz de Luciano Mendes.

O medo nos contos de Luciano Mendes não é apenas um efeito da narrativa. Ele também nos aproxima de experiências profundamente humanas: o sofrimento, a solidão, a violência, a perda e a necessidade de seguir em frente apesar dos fantasmas que nos assombram.

Entre as histórias, a de Epaminondas, ambientada em um lar de idosos, impressiona pela crueldade. O sofrimento de um filho diante do pai, no contexto da ditadura, desperta empatia e nos faz pensar nas marcas que a violência política pode deixar nas relações familiares. O presságio da cartomante diante da tragédia envolvendo um professor, lembrando Elis Regina, quando dizia “não fale do medo que temos da vida, não ponha o dedo na nossa ferida”.  E o conto sobre a menina abusada pelo pai adotivo nos mobiliza de outra maneira: a literatura transforma o horror em denúncia e nos convoca à luta contra toda forma de violência contra mulheres e meninas.

As assombrações aparecem aqui e acolá, como se conhecessem os lugares mais vulneráveis da nossa imaginação. E talvez seja justamente essa a força do livro: o sobrenatural não nos afasta da realidade. Ao contrário, muitas vezes nos devolve a ela com um olhar mais atento.

“Uma cabeça perdida” foi o conto que mais me perturbou. Tomei-me de tal maneira pela narrativa que passei a noite entre pesadelos. Mas, curiosamente, foi também essa história que me levou para lugares muito diversos. Lembrei-me de O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, que resgata a famosa lenda urbana pernambucana da Perna Cabeluda. Lembrei-me também de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, filme em que Salvatore, um cineasta bem-sucedido, revisita a infância e os afetos de uma pequena vila na Sicília.

A aproximação entre essas obras não está apenas no medo ou na memória, mas na maneira como o passado continua habitando o presente. Em “Uma cabeça perdida”, o narrador retorna a Rio Pomba e, ao “exorcizar os demônios, ou os fantasmas”, reencontra uma casa que já não é a mesma. A memória, entretanto, permanece. Como escreve Luciano Mendes: “restavam apenas os sentimentos desnudos e sem lugar para encostar o sofrimento”.

É nesse ponto que Histórias soturnas ultrapassa o território do conto de terror. As histórias nos assustam, mas também nos fazem pensar sobre aquilo que carregamos, sobre o que tentamos esquecer e sobre o que, mesmo transformado pelo tempo, continua a nos constituir.

A leitura de Luciano Mendes nos lembra que nem todo fantasma deseja nos levar para a morte. Alguns nos conduzem à memória. Outros nos devolvem à infância. Há aqueles que nos fazem reconhecer a dor de alguém. E existem os que, depois de nos tirar o sono, nos ensinam a olhar para a vida com mais coragem.

Talvez seja essa a inspiração prometida na dedicatória: não a ausência do medo, mas a possibilidade de continuar vivendo apesar dele.

Histórias soturnas é um convite para atravessar a noite. E, quem sabe, descobrir que até nas histórias mais escuras há algo que nos ajuda a seguir em frente.

Samira Araújo é pedagoga pela FaE/UFMG. professora da educação básica e analista educacional na SEE/MG. 

Leia outras crônicas, resenhas e artigos sobre educação e literatura na coluna Cidades das letras: Literatura e Educação no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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