Por Luciano Mendes e Natália Gil
O que está em risco neste momento é a própria democracia e a continuidade de um Estado republicano, com soberania nacional e pautado por leis definidas dentro das regras do direito constitucional. Ou seja, basicamente o que está em jogo é a existência do próprio Brasil, como país de todos nós brasileiros – quer sejamos de direita ou de esquerda. E nesse ponto é preciso fazer uma distinção que tem sido pouco mencionada: direita e extrema direita são coisas diferentes.
Da extrema direita é preciso ter medo.
A menos que não nos dê medo o Brasil voltar a ser uma colônia, dividida em capitanias hereditárias distribuídas para umas poucas dezenas de ricos e já não mais submetida a Portugal, mas aos Estados Unidos. A menos que não nos dê medo um país ingovernável na ocorrência de quaisquer catástrofes naturais, como vimos acontecer durante a pandemia em 2020/2021. A menos que não nos dê medo o aumento da pobreza extrema, como tem acontecido na Argentina, e todas as consequências que vêm junto: mortes, mendicância, violência.
A extrema direita tem que nos dar medo porque o que ela propõe não são pautas diferentes no jogo político; o que ela quer é o fim do jogo. E a primeira vítima desse extermínio político foi a direita, como pudemos constatar pelos resultados do primeiro turno dessas eleições, na distribuição de cadeiras no Congresso Nacional. Veja, nesse primeiro momento, não foi a esquerda que teve suas posições diminuídas, foi a direita que encolheu. E isso é péssimo para a democracia.
Chantal Mouffe, uma cientista política belga, explica que a democracia precisa do antagonismo para existir. Ela argumenta que em embates democráticos temos as condições para o confronto de projetos societários de forma legítima. Por outro lado, quando as circunstâncias apresentam os opositores como inimigos, o objetivo deixa de ser o debate de ideias opostas e passa a ser a eliminação do campo opositor.
Então, para a defesa da democracia, precisamos que existam opositores, à direita e à esquerda. Disputando projetos políticos, esses dois grupos devem trabalhar, contudo, juntos para a manutenção de um vibrante espaço público em que o debate seja possível, assim como a contestação e o confronto de ideias. E isso deixa de acontecer quando a extrema direita assume qualquer governo. A extrema direita não é o opositor, ela é o inimigo, já que ameaça acabar com o Estado de direito e as instituições democráticas.
E por que diante de tamanho perigo, tanta gente não foi votar? Ou, apesar do risco para a democracia ser evidente na hipótese da eleição de Flávio Bolsonaro, porque tanta gente diz que em Lula não votaria de jeito nenhum? Quais os medos que nos acometem? Aqui é preciso reconhecer que há medos distintos em jogo e temos que parar de tratar com desdém os medos que não são os nossos, sob pena de não entendermos o problema e, portanto, demorarmos demais para alinhavar a solução.
Quando a vítima escolhe votar em seu algoz, deve-se observar que há alguma esperança nesse equivocado gesto. E o que se espera não é a morte, ou as mortes, às quais esse gesto inevitavelmente conduz. Mas, então, o que se espera?
A explicação de que falta racionalidade e que sobra ignorância ou de que a culpa seria a falta de educação da população não dá conta da complexidade do que está acontecendo. A começar pelo fato de que os eleitores com diploma de nível superior são mais propensos a votar na extrema direita do que aqueles de baixa escolaridade. Países economicamente mais desenvolvidos que o Brasil, nos quais a população tem alta escolaridade, vêm enfrentando não sem dificuldade fortes ondas de extrema direita, como já indicamos em outro texto publicado aqui em 2024.
Além disso, são limitadas todas as visões que partem da “falta” para explicar porque as pessoas pobres e trabalhadoras de boa parte do país escolhem votar em candidatos que, de forma explícita, anunciam que vão atentar contra seus direitos, suas vidas e contra a própria democracia.
No que se refere à democracia, não custa lembrar que nunca antes neste país e, em boa parte no presente, conseguimos construir uma cultura política que tenha valorizado mais a democracia, a igualdade e a justiça social. Pelo contrário, o que sempre fez sucesso entre nossas elites e boa parte do povo foi exatamente o oposto disso.
Então, uma das razões que podemos buscar para ajudar a entender o que aconteceu no primeiro turno das eleições presidenciais é que um mundo caótico tem sido apresentado às pessoas pobres e/ou conservadoras de várias regiões do país. Nesse enquadramento, tudo (ou quase tudo) que elas mais prezam parece ameaçado. E isso acontece nas famílias, nas igrejas, nas ruas, nas redes sociais, na televisão, no rádio…. muito mais do que na escola, por exemplo.
São essas ameaças e os medos que delas decorrem que ajudam a explicar as decisões de apoiar políticos que colocam em risco suas vidas.
2º turno
Os eleitores de direita estão sem uma boa opção de candidato e, por razões que são legítimas, não vão aderir ao projeto político de esquerda. Mas votar na extrema direita põe em risco inclusive a existência da direita, como campo de posicionamento político legítimo.
Precisamos compreender que não se trata de um segundo turno em que a polarização esteja entre direita e esquerda. A candidatura de Flávio Bolsonaro não esconde seus planos entreguistas, que de nacionalismo não têm nada. Também não resta nenhuma dúvida de que quando defendem a família, é do enriquecimento de sua própria família que os bolsonaros estão falando. A falta da moralidade da vida que levam não tem nada a ver com as esperanças de um governo que defenda pautas comportamentais mais conservadores.
Ou seja, nessa configuração, votar em Lula não faz de ninguém necessariamente petista e nem mesmo de esquerda: o que está em jogo é a manutenção do Brasil como país democrático.
Diante disso, queremos lembrar que todos nós, de direita ou de esquerda, temos que ter medo da extrema direita. A menos que você considere um bom plano de sociedade a ideia de eliminar pessoas que não pensam e não vivem exatamente como você. A Alemanha nazista apostou nisso nos anos 1930 e o resultado, além de catastrófico, foi extremamente difícil de reverter.
Luciano Mendes (UFMG) e Natália Gil (UFRGS) são editores da coluna Cidade das Letras do Brasil de Fato MG.
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal


